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CAPÍTULO 2: OLHARES DE ÂMBAR

Autor: Isa S
last update Data de publicação: 2026-06-24 06:43:07

Samanta

O pavilhão da feira internacional era um monumento à opulência. Luzes de LED brancas e frias refletiam na lataria impecável dos veículos, criando um cenário que parecia saído de um filme futurista. Anna me conduziu pelos bastidores, um labirinto de araras de roupas e maquiadores frenéticos, até chegarmos ao estande da SafeTech — ironicamente, o nome da empresa que patrocinava a segurança do evento, embora eu ainda não soubesse que aquele nome seria o meu carrasco.

— Meninas, essa é a Samanta. Minha protegida. Tratem ela bem ou terão que se ver comigo — anunciou Anna, com uma piscadela.

As outras três modelos se aproximaram. Eu esperava olhares de julgamento ou competição, mas o que encontrei foi uma camaradagem genuína. Elas eram lindas, é claro, mas pareciam tão cansadas quanto eu estaria se não fosse a adrenalina.

— Prazer, Sam! Eu sou a Carol. Bem-vinda ao circo — disse uma loira alta, retocando o batom. — O segredo é o sapato. Se sentir que vai cair, apoie-se no capô e finja que é uma pose editorial.

Eu sorri, sentindo o peso nos ombros diminuir um pouco. Elas me explicaram a dinâmica: sorrir, ser cordial e, no meu caso, usar o que eu tinha de melhor — meu cérebro. Como estudante, eu não conseguia apenas "ficar bonita ao lado do motor". Eu havia passado a noite anterior estudando o catálogo do modelo que me foi designado: um protótipo elétrico de luxo, com tecnologia de direção autônoma e um interior revestido em fibra de carbono.

Quando os portões se abriram e o fluxo de visitantes começou, posicionei-me ao lado da máquina prateada. Minha postura era impecável, mas meus pés já reclamavam do salto agulha. Homens de meia-idade com relógios que valiam mais que o meu bairro passavam, faziam perguntas banais e eu respondia com uma precisão técnica que os deixava surpresos.

— Ela não é só um rostinho bonito, hein? — comentou um senhor, impressionado quando expliquei o sistema de recuperação de energia cinética.

Eu apenas sorria. Era um papel. Uma performance.

Até que o ar ao meu redor pareceu mudar. Senti um arrepio na nuca antes mesmo de vê-lo. Do outro lado do estande, onde Anna exibia um conversível vermelho, surgiu um homem que parecia ter sido esculpido em granito e sombras.

Ele era alto, muito mais alto que a média. O terno cinza grafite moldava ombros largos e uma postura de quem não pedia permissão para existir; ele simplesmente era o dono do espaço. Cabelos pretos, cortados com uma precisão militar, e olhos castanhos tão escuros que pareciam absorver a luz do ambiente. Ele era, literalmente, um deus caminhando entre mortais.

Lorenzo parou diante de Anna por alguns segundos. Ela manteve a expressão profissional, explicando algo sobre o carro, mas assim que ele se virou para avaliar a lateral do veículo, eu vi a verdadeira Anna: ela se abanava com a mão de forma icônica, soltando um suspiro mudo e rindo silenciosamente para as outras meninas, como se dissesse: “Meu Deus, me ajudem, eu vou desmaiar”.

Eu tentei não rir, mas meu coração disparou quando ele girou sobre os calcanhares e caminhou em minha direção.

Seus olhos castanhos me escanearam. Não foi o olhar lascivo que recebi de outros homens naquela manhã. Foi algo mais profundo, mais analítico. Ele parou a poucos centímetros de mim, e o cheiro de sândalo e algo metálico — como chuva no asfalto — me atingiu.

— O sistema de segurança desse protótipo utiliza criptografia de ponta ou apenas firewall convencional? — Sua voz era um barítono profundo que vibrou no meu peito.

Eu não hesitei.

— Criptografia quântica integrada ao sistema de navegação, senhor. Ele identifica ameaças antes mesmo que elas atinjam a rede local do veículo. Além disso, a estrutura é reforçada com polímeros que absorvem o impacto...

Ele arqueou uma sobrancelha, um brilho de interesse genuíno surgindo em seu olhar gélido.

— Você realmente sabe do que está falando. Isso é raro por aqui.

— Eu não gosto de vender o que não entendo — respondi, mantendo o contato visual.

Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço pessoal entre nós.

— Gostaria de ver o interior. E gostaria de ver como uma mulher linda ficaria sentada naquele banco de couro. Entre.

Foi um comando disfarçado de convite. Dei a volta no carro, abri a porta de gaivota e deslizei para o banco do passageiro. O luxo do carro me abraçou. Lorenzo entrou logo em seguida, sentando-se no banco do motorista. O espaço, que antes parecia amplo, tornou-se minúsculo com a presença dele.

— Que horas você sai daqui? — ele perguntou, sem rodeios, os olhos fixos nos meus.

— O evento termina às nove — respondi, tentando manter a voz firme apesar do meu pulso estar a mil por hora.

— Terá uma festa na cobertura de um amigo. Música boa, bebidas que não vêm em copos de plástico e uma vista que faz essa cidade parecer suportável. Você quer ir?

— Eu... eu estou com a minha amiga. Anna — apontei discretamente para onde ela estava.

Lorenzo olhou para Anna e depois voltou para mim.

— Ela também está convidada. Traga-a.

Ele pegou um cartão preto, fosco e pesado, de dentro do bolso do terno. Pegou uma caneta dourada, com uma caligrafia firme e elegante, anotou um endereço no verso. Quando ele entregou o cartão para mim, seus dedos roçaram os meus. Foi como um choque elétrico.

— Me procure na recepção do prédio. Meu nome é Lorenzo.

Ele saiu do carro sem dizer mais nada, deixando-me ali, sentada no luxo que não me pertencia, segurando um pedaço de papel que parecia um passaporte para outro mundo.

Assim que ele se afastou, Anna praticamente correu até mim.

— Samanta! O que foi aquilo? O homem mais gato do pavilhão acabou de ficar uns cinco minutos trancado no carro com você! — ela sussurrou, os olhos arregalados.

— Ele nos convidou para uma festa na cobertura de um amigo — mostrei o cartão. — Disse que você pode ir também.

Anna mordeu o lábio, dividida entre a empolgação e o profissionalismo.

— Podemos ir, sim. Vai ser incrível. Mas, Sam... — ela baixou o tom de voz, ficando séria. — Temos que tomar cuidado lá. Eventos assim são perigosos. Não quero que nos confundam com book rosa.

— Book rosa? O que é isso? Algum tipo de catálogo? — perguntei, genuinamente confusa.

Antes que ela pudesse explicar, um grupo de executivos chegou ao estande pedindo atenção, e fomos sugadas de volta para o trabalho.

Às nove em ponto, enquanto eu sentia que meus pés iam sangrar a qualquer momento, Lorenzo reapareceu no estande. Ele não estava mais de terno; vestia uma camisa social preta com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas, revelando antebraços fortes.

— Acabei ficando aqui por mais tempo... estão prontas? — ele perguntou.

Anna e eu nos entreolhamos. Eu ainda estava com o vestido preto tubinho e os saltos matadores. Saímos com ele sob os olhares invejosos de metade das modelos do pavilhão. No estacionamento, um SUV preto blindado nos esperava.

A cobertura ficava em um dos prédios mais caros da Avenida mais conhecida da cidade. O som do jazz moderno misturava-se ao burburinho de vozes educadas e ao tilintar de gelo em copos de cristal. Assim que entramos, um homem loiro e igualmente impressionante se aproximou.

— Lorenzo! Achei que você fosse passar a noite contando servidores na empresa — disse o homem, rindo.

— Matteo, menos drama. Trouxe convidadas.

Matteo olhou para Anna e, em segundos, a conversa entre eles engatou. Ele era outro "deus", mas com um brilho mais solar que o de Lorenzo. Anna, sempre comunicativa, já estava rindo das piadas dele enquanto se dirigiam ao bar.

Eu fiquei ali, sozinha com Lorenzo.

— Você parece deslocada, Samanta — ele comentou, entregando-me uma taça de algo borbulhante.

— É um mundo muito diferente do meu — confessei, decidindo ser honesta.

Começamos a conversar, e eu me surpreendi. Lorenzo não era apenas um rosto bonito com uma conta bancária infinita. Ele era brilhante. Falamos sobre economia global, sobre como a tecnologia estava mudando a ética do trabalho e até sobre literatura clássica. De vez em quando, ele soltava um sorriso de canto, algo raro que iluminava seus olhos castanhos e fazia meu estômago dar voltas.

Eu estava encantada. Pela primeira vez em meses, eu não me sentia a "estagiária pobre" ou a "atendente de telemarketing". Eu me sentia inteligente, vista e... desejada.

— O som aqui está ficando alto demais para uma conversa decente — ele disse, aproximando-se do meu ouvido, sua respiração quente enviando arrepios por todo o meu corpo. — Conheço um lugar mais calmo na varanda lateral. Vamos?

Eu olhei para os olhos dele e, naquele momento, o perigo parecia a coisa mais atraente do mundo.

— Vamos.

Eu o segui, sem saber que estava caminhando direto para a noite que mudaria minha vida.

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