LOGINMatteo Acordar ao lado de Anna, com a luz suave da manhã de Oklahoma invadindo o quarto de hotel e o silêncio confortável ao nosso redor, era um privilégio ao qual eu pretendia me habituar para o resto da vida. Mas o nosso itinerário não permitia pausas longas. Para o dia de hoje, eu havia planejado um desvio sutil, porém estratégico, que faria o coração dela disparar. Assim que terminamos um café da manhã rápido no saguão e colocamos as malas de volta no porta-malas do Mustang, virei-me para ela e soltei a novidade: — Hoje nós vamos mudar um pouco a rota original, amor. Vamos desviar o caminho em direção ao Texas. Anna parou na metade do caminho, com a mão na porta do carona, e me encarou com os olhos verdes brilhando de curiosidade pura. — Para o Texas? Matteo, a Horseshoe Bay fica no Texas! Isso está fora da rota tradicional da 66! Dei um sorriso de canto, cruzando os braços com aquela postura relaxada de quem mandava no trajeto. — Eu sei que está fora da rota. Mas eu
Anna A dúvida sobre a notificação no celular do Matteo continuava flutuando no ar como uma nuvem passageira, mas decidi empurrá-la com força para o fundo da minha mente. Não iria estragar a magia daquela viagem por causa de uma desconfiança sem pé nem cabeça. Afinal, estávamos cruzando o coração da América em um Mustang clássico, e eu me recusei a permitir que um segredo de negócios — ou o que quer que fosse aquilo — roubasse a minha paz. Nossa primeira parada oficial, logo após cruzarmos a divisa do estado de Illinois e entrarmos no Missouri, foi a icônica cidade de St. Louis. Assim que avistei a imponência monumental do Gateway Arch, com sua estrutura de aço inoxidável cortando o céu prateado, senti um arrepio na espinha. Estacionei o Mustang perto da orla do rio Mississippi e caminhamos pelos arredores para esticar as pernas, aproveitando para tirar algumas fotos com o Matt, que parecia fascinado com os cheiros novos do caminho. Em seguida, estendemos a rota até a histórica Old
Anna O Matteo era, sem sombra de dúvidas, um namorado incrível. Por mais que a minha mente tentasse manter os pés fincados no chão para não criar expectativas exageradas sobre o nosso futuro, o que ele estava fazendo ali superava qualquer clichê romântico. Eu sempre tive o sonho distante de tirar alguns dias de férias para cair na estrada, de desligar a mente do ritmo frenético das passarelas e dos estúdios, mas jamais imaginei que realizaria isso em um Ford Mustang conversível de 1968, ao lado do homem que eu amava e do nosso cachorro. À medida que deixávamos para trás os últimos arranha-céus espelhados de Chicago e entrávamos no asfalto largo da rodovia principal, o vento frio cortava o meu rosto e bagunçava os fios do meu rabo de cavalo. O indicador de velocidade subia suavemente sob o meu pé no pedal. — Matteo... — comecei, sem tirar os olhos da pista, mordendo o lábio inferior com uma pontinha de ansiedade —, eu ainda fico pensando no trabalho. Não quero parecer ingrata, por
Matteo Acordei muito antes de o sol sequer cogitar pintar o horizonte com os primeiros tons de laranja e azul de Chicago. Enquanto a penumbra ainda dominava o quarto e o mundo parecia pausado, peguei o meu celular sobre o criado-mudo com cuidado para não fazer barulho. Com a tela iluminando o meu rosto, digitei rapidamente um e-mail direto e detalhado para a minha secretária executiva, Sabrina. Pedi que ela encontrasse imediatamente o melhor corretor imobiliário da região e agilizasse a compra de uma casa no mesmo condomínio exclusivo onde Lorenzo e Samanta agora moravam. Eu não queria mais saber de coberturas de solteiro, por mais luxuosas, amplas e intocadas que fossem. Aquela viagem e a conversa recente sobre os fantasmas do passado deixaram cristalino que eu precisava dar um lar de verdade para a mulher que eu amava. Um local seguro, neutro, espaçoso e construído do zero para nós dois, onde nenhuma lembrança antiga de solteirice pudesse sequer pairar no ar. Depois de enviar a
Matteo Enquanto o beijo ainda reverberava nos meus lábios e o calor do momento começava a se assentar na penumbra da sala, as palavras dela continuavam ecoando na minha mente. Eu realmente não fazia ideia de que Anna carregava aquele peso todo em silêncio. Mas, analisando em retrospectiva, todas as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixavam com uma precisão dolorosa. Nós passávamos quase todo o nosso tempo livre no apartamento dela, enquanto a minha casa parecia ser sempre o último lugar que ela cogitava visitar. Eu atribuía aquilo à proximidade com o trabalho dela ou ao aconchego do cantinho que ela mesma havia construído. Nunca passou pela minha cabeça que o verdadeiro motivo fosse a sombra fantasmagórica de um passado que ela sequer conhecia, mas que julgava existir em cada cômodo. Eu deveria ter percebido isso antes. Todas aquelas desculpas polidas na hora de escolher onde passar a noite, todas as vezes em que ela preferia o aperto do sofá dela ao espaço da minha casa...
Anna Depois que aquele buquê despencou do céu e caiu diretamente sobre as minhas mãos, o meu cérebro simplesmente entrou em pane. A festa inteira passou por mim como uma névoa densa, um borrão de luzes, música e taças tinindo. Por dentro, a verdade batia no meu peito com força: eu queria uma família. Eu sabia, com cada fibra do meu ser, que queria viver o resto da minha vida ao lado do Matteo. Mas havia um abismo de insegurança que eu ainda tentava contornar em silêncio. Matteo nunca tinha tido um relacionamento sério antes de mim. Ele sempre carregara a fama inegável de solteiro convicto, o herdeiro intocável e mulherengo que trocava de companhia com a mesma facilidade com que trocava de terno. Por mais que a mudança dele estivesse estampada em cada olhar e em cada gesto de cuidado exagerado, eu ainda tinha receio de tocar no assunto do nosso futuro. O medo de parecer carente ou de estar apressando o passo de um homem que construiu muralhas ao redor do coração durante anos pesava







