INICIAR SESIÓNAnnaO chão pareceu sumir sob os meus saltos. A frase dele flutuou no ar entre nós como uma lâmina afiada, cortando instantaneamente toda a armadura de confiança que eu havia levado minutos para construir.“A minha companhia de hoje deveria ser loira.”Fiquei completamente sem reação. O sangue fugiu do meu rosto, e a minha garganta secou de tal forma que o ar mal conseguia passar. O homem à minha frente não era apenas um magnata arrogante que podia ser facilmente seduzido por um decote e um olhar provocante. Ele estava dez passos à minha frente.— Então... você sabia que não era a garota certa? — perguntei, a voz falhando ligeiramente antes de eu conseguir forçar a firmeza de volta.— Desde que você entrou — Mário respondeu sem hesitar. Seu tom era tão sereno que chegava a ser perturbador. Ele deu um gole calmo no uísque, apreciando o meu choque.Um arrepio gelado percorreu minha espinha. A sensação de poder que me sustentava até aquele segundo evaporou, dando lugar a uma vulnerabilid
AnnaParada diante das portas de vidro espelhado do Grand Luxury Hotel, o ar frio da noite parecia cortar minha pele. Eu ainda podia desistir. Olhei para o meu próprio reflexo no vidro escuro — o vestido ajustado, a maquiagem impecável, os cabelos pretos caindo lisos sobre os ombros. Apenas alguns passos me separavam da minha vida comum e daquele abismo arriscado.Se eu virasse as costas agora, voltaria para o meu apartamento silencioso, choraria a morte da minha mãe em paz e procuraria uma maneira menos perigosa, menos sórdida, de fazer justiça.Mas então, a imagem do leito de hospital veio à minha mente. O rosto cansado de Helena, as marcas das injustiças que ela suportou em silêncio por anos enquanto Lúcia desfrutava de um luxo roubado. A dor do luto se transformou, mais uma vez, no combustível gelado que guiava meus passos.Não haveria recuo.Empurrei a porta de vidro e entrei no saguão monumental. O cheiro de perfume caro e mármore polido preenchia o ambiente. Caminhei com passos
AnnaOs dias que se seguiram à morte da minha mãe passaram em um borrão cinzento. A rotina tentava me empurrar de volta à normalidade, mas dentro de mim a dor do luto já não era mais uma ferida aberta — fora congelada e moldada pela sede de justiça.Passei cada noite em claro diante da tela do meu notebook. Investiguei a vida de Mário com uma precisão quase cirúrgica. Descobri que ele era um empresário influente, dono de um império de investimentos e frequentador assíduo das rodas mais fechadas da elite. Era o homem que sustentava toda a vida de ostentação que Lúcia exibia nas redes sociais. Sem Mário e sem a sua fortuna, a minha ex-madrasta não passava de um fantasma ganancioso e insignificante.Eu precisava chegar até ele. Só não sabia, ainda, como cruzar essa ponte.A resposta veio em um evento corporativo de alto padrão no centro da cidade, uma semana depois. Voltei ao trabalho de modelo por pura necessidade e, principalmente, para me manter em movimento. O salão do hotel de luxo
AnnaFechei a porta do apartamento atrás de mim e encarei o corredor escuro. O ar lá fora parecia pesado demais para respirar, mas nada no mundo se comparava ao peso de caminhar até a capela do cemitério. Era o dia do velório do meu bem mais precioso.Diante do caixão, minha visão ficou turva, embaçada pelas lágrimas que não cessavam. Ali estava o corpo sem vida da mulher que dedicou cada segundo da sua existência para garantir que eu tivesse um futuro. A pessoa que me ensinou a caminhar, que moldou a mulher firme que me tornei e que sempre me lembrou de que, enquanto estivéssemos juntas, nada nos derrubaria. E agora, eu estava dolorosamente sozinha. Debruçada sobre a madeira fria, chorei até sentir o peito queimar, segurando as mãos inertes da minha mãe como se pudesse trazê-la de volta.— Anna... vem cá, meu amor — a voz suave de Emma cortou a minha angústia.Minha prima me abraçou por trás, envolvendo seus braços firmes ao meu redor e me sustentando no momento exato em que minhas p
CAPÍTULO 1 - O ECO DO SILÊNCIOAnnaO silêncio de um apartamento vazio tem um som próprio. É um zumbido surdo, constante e impiedoso, que reverbera nas paredes desnudas e faz o peito doer a cada respiração.Hoje, aos vinte e sete anos, estou parada no meio da pequena sala onde cresci, cercada pelas caixas que ainda não tive coragem de desempacotar e pelo cheiro suave de lavanda que teima em permanecer no ar. O cheiro da minha mãe. O único cheiro que, durante toda a minha vida, significou segurança.Ela se foi. Uma doença silenciosa e rápida demais tirou de mim a única pessoa que sempre manteve minha estrutura de pé. Helena. Minha mãe. A mulher que me ensinou a caminhar, a lutar e a sorrir mesmo quando o mundo parecia desmoronar.Agora ela não está mais aqui.E, pela primeira vez na vida, estou completamente sozinha.Enquanto encaro a janela e vejo a chuva fina escorrer pelo vidro, o passado não apenas volta à minha memória — ele me atropela.Eu tinha apenas quatorze anos quando aprend
Samanta Acordei sobressaltada, sentindo um suor frio cobrir a minha pele e o peito arfar em um ritmo descompassado. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava exatamente cinco horas da manhã de um domingo silencioso. Olhei para o lado e vi Lorenzo dormindo profundamente, o rosto relaxado e o braço pesado repousando onde eu estava há poucos segundos. Uma náusea súbita e avassaladora subiu pela minha garganta, fazendo minha cabeça girar. Levei a mão à boca e saí da cama em um desespero silencioso, correndo descalça em direção ao banheiro da suíte e fechando a porta quase por completo para não acordar meu marido. Ajoelhei-me diante do vaso sanitário e coloquei tudo para fora. Meu corpo tremia enquanto eu tentava conter os sons da ânsia. Quando a onda mais forte passou, encostei a cabeça no azulejo frio da parede, sentando-me no chão e tentando controlar a respiração desordenada. Comecei a contar o tempo na minha cabeça, a mente dando nós em um turbilhão de pensamentos aterrorizad







