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Na Gaiola do Don
Na Gaiola do Don
Author: Lotus

Capítulo 1

Author: Lotus
— Vamos nos divorciar, Antonio. O acordo já está assinado.

Coloquei os papéis do divórcio sobre a mesa dele.

— Não começa. — Nem se deu ao trabalho de me olhar; continuou de cabeça baixa, passando os olhos pelos relatórios. — Tenho compromissos esta noite. Não tenho tempo para brincar com isso com você.

— Eu não estou brincando. — Marquei cada sílaba, sem vacilar. — Eu quero o divórcio.

Só então ele ergueu os olhos, visivelmente incomodado.

— Você sabe que eu detesto esse tipo de piada.

Os homens que estavam na sala saíram em silêncio, prudentes. Quando passaram por mim, havia pena em seus olhos.

— Eu não estou brincando. — Fechei os punhos com força e me obriguei a sustentar o olhar dele.

Antonio se levantou. A sombra do seu corpo alto caiu sobre mim, e o cheiro do seu perfume misturado ao charuto me travou a garganta.

— Cara mia. — Ele me puxou pela cintura, colando meu corpo ao dele, e roçou a boca na minha orelha. — O remédio especial da sua mãe custa mil dólares por cápsula. Ela precisa tomar seis por dia. Sem mim, você quer mesmo deixá-la morrer?

O ódio me fez cerrar os dentes até eles rangerem.

Um dia, a força dele me fascinou. Agora, tudo nele me causava repulsa.

— Eu não preciso mais do seu remédio! — Empurrei seu peito, quase gritando. — Minha mãe morreu. Agora eu só preciso da sua assinatura!

Os olhos dele escureceram na mesma hora.

— Então você teve coragem de inventar uma mentira dessas para me enganar? Elena me mostrou hoje cedo um vídeo da sua mãe caminhando.

Arregalei os olhos. Eu ia negar, mas o conselheiro dele surgiu à porta.

— Don, está na hora de sairmos.

Antonio soltou meu corpo no mesmo instante e foi embora, deixando para trás apenas uma ordem:

— Pare com isso. Quando eu voltar, nós conversamos.

Eu sabia que não conversaríamos.

Aos olhos dele, aquilo não passava de mais um dos meus acessos "sem motivo".

Em menos de quatro horas, eu iria procurá-lo para pedir desculpas.

A mulher que eu fui realmente faria isso.

Naquela época, eu morria de medo de desagradá-lo e ver o remédio da minha mãe ser cortado. Por isso, aceitava qualquer exigência com um sorriso no rosto.

Mesmo quando debochavam de mim na minha cara, dizendo que eu parecia uma mulher sem coluna.

Eu fingia que não ouvia.

Mas daquela vez foi diferente.

Se, uma semana antes, ele ao menos tivesse me deixado terminar aquela ligação, talvez eu ainda estivesse me enganando, chamando tudo aquilo de amor.

Só que, no instante em que comecei a implorar, Elena arrancou o telefone da mão dele e me cortou com a doçura venenosa de sempre:

— A senhora quer sair de novo para comprar as joias da nova coleção da estação? Mas as coisas andam perigosas ultimamente. A senhora nem sabe atirar. Não acha melhor evitar sair por aí e dar mais trabalho ao Don?

— Não! É sobre a minha mãe...

— Sua mãe está muito bem. — Ela me interrompeu outra vez, com a mesma voz suave. — Hoje eu fiz questão de visitá-la. Ela estava comendo muito bem. Mesmo que a senhora queira sair, usar a saúde da própria mãe como desculpa já não é demais?

Mas, nas fotos tiradas às escondidas pela cuidadora, o estado da minha mãe piorava a olhos vistos. Ela já estava à beira da morte.

Eu ainda tentei explicar, mas Antonio me cortou, impaciente:

— Chega, Isabella. Estou ocupado. Não tenho tempo para ouvir suas mentiras.

— Você sempre inventa alguma coisa para sair por aí. Da última vez foi dor de dente. Agora resolveu usar sua mãe como desculpa?

— Siga o que Elena mandar. Ela é a mais preparada para cuidar de você.

Era assim que ele tratava qualquer pedido meu.

Eu era a esposa do Don, mas precisava pedir autorização a Elena até para comprar um pacote de absorventes internos.

Sair, então, era pior ainda.

Ela sempre encontrava algum motivo para negar.

— Seu motivo para sair não é justificável. Se é dor no siso, tome um analgésico.

— A senhora salvou um gatinho que ingeriu veneno? Isso não está sob minha responsabilidade.

— Absorventes internos? Peça emprestado a uma das criadas.

No fim, meu siso cresceu torto sem que médico nenhum fosse chamado.

O gatinho parou de respirar na palma da minha mão.

No casarão, as criadas me olhavam com pena.

Antonio nunca se atrasava para mandar vestidos e joias novas a cada estação para a villa.

Mas todas aquelas peças ficavam trancadas no armário, e eu nem sequer tinha o direito de tocá-las.

Era ridículo.

Quando minha mãe estava morrendo, eu estava sentada escrevendo um pedido de saída de vinte mil palavras.

Elena mal lançou os olhos no pedido e já o recusou.

— A senhora deveria ter feito a solicitação com três dias úteis de antecedência. Espere três dias.

Eu estava desesperada. Chorei, implorei, quase perdi a voz:

— Me deixe sair por duas horas, já basta. Minha mãe está morrendo de verdade.

Ela sorriu.

— É mesmo? Mas, quando chega a hora de alguém, não é a sua visita que vai impedir.

— Eu preciso cumprir minha responsabilidade de zelar pela senhora. Sem um motivo legítimo, não posso permitir que saia.

Também liguei para Antonio.

Ele recusou todas as chamadas.

Três dias. Cinco dias. Sete dias.

No fim, a cuidadora me mandou a foto da minha mãe morta.

Se antes eu ainda conseguia me enganar, chamando aquilo de "proteção", de "amor".

Agora minha mãe estava morta. Que motivo ainda me restava para não fugir daquela prisão?

Engoli as lágrimas que queimavam na garganta, afastei as lembranças e voltei a arrumar a mala.

De repente, a tela do celular se acendeu. Antonio me encaminhou uma publicação.

Era um post de Elena.

Na foto, ela estava ao lado dele, taça erguida, comemorando uma parceria fechada.

A legenda dizia: Rotina de trabalho com o Boss.

Eu ainda não tinha dito nada, quando Antonio já mandou a ordem:

[Viu o post da Elena? Não comece a imaginar coisas. Vou repetir: entre nós, existe apenas relação profissional.]

[A família está limpando a própria imagem ultimamente. Não quero que ninguém pense que minha consigliera e minha esposa estão em conflito.]

Quando o assunto era ela, ele sempre aparecia primeiro.

Eu não queria responder.

Mas a mágoa entalada no peito já estava me sufocando.

Eu não tinha mais nada.

Então, o que ainda havia para temer?

Soltei uma risada fria e respondi ao post:

[Qualquer família deveria contratar Elena como consigliera. Afinal, ela tem coragem de restringir até a liberdade da Donna e sabe transformar um mísero poder de aprovação numa arte.]

[Quando finalmente conseguir tomar o meu lugar, espero que mantenha essa mesma ‘imparcialidade’ consigo mesma.]

Depois de enviar, o peso no peito diminuiu um pouco.

Enfiei no fundo da mala o último vestido simples que me restava.

Os vestidos de gala que nunca serviram em mim, as joias intocáveis, aquela mansão coberta por câmeras, o controle de Antonio disfarçado de amor...

Nada daquilo voltaria a me prender.

O celular vibrou de repente. Antonio estava me ligando.

Desliguei sem pensar.

Tão seca e diretamente quanto ele desligou o meu telefonema quando minha mãe ainda estava morrendo.
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