Share

Capítulo 2

Author: Lotus
Menos de dez minutos depois que desliguei, os passos apressados de Antonio ecoaram no andar de baixo.

Aquilo, sim, era novidade.

Quando eu ardia em febre, passando dos quarenta, ele só mandava Elena me entregar um antitérmico.

Mas bastava algo envolver Elena para ele correr e resolver na mesma hora.

Nem tirou o terno. Entrou no quarto de rompante, avançando na minha direção, os olhos carregados de sombra.

— Você teve coragem de desligar na minha cara?

Baixei os olhos e continuei dobrando as roupas.

— Eu não quis atender.

Ele agarrou meu pulso num movimento brusco e me obrigou a encará-lo.

— Foi porque eu mandei você calar a boca? Elena acabou de fechar uma parceria. Qual é o problema de eu, como Don, comemorar com os membros centrais da família?

A voz dele subiu, tomada pela irritação.

— Você faz ideia de quantas pessoas viram aquilo? Alguns até começaram a dizer que ela é minha amante! Elena sempre se importou com a própria imagem. Depois da sua ironia, ela chorou até desmaiar ali mesmo!

— ...Ah. — Inclinei a cabeça, sem entender onde, exatamente, ele queria chegar. — E isso tem a ver comigo por quê? Eu sou mãe dela?

Ele soltou uma risada de raiva.

Sem pressa, continuei:

— Pelo visto, todo mundo já percebeu como sua "ótima" consigliera se comporta. Senão, ninguém sentiria necessidade de lhe dar esse tipo de conselho.

— Chega! — O grito veio tão de repente que até os seguranças no corredor recuaram dois passos.

— Elena é a consigliera da família. Todos os dias, passa pelas mãos dela mais dinheiro do que você veria em uma vida inteira. E mesmo vivendo sob minha proteção, cercada de conforto, você ainda se acha no direito de difamar minha subordinada mais capaz?

Os olhos dele estavam cheios de reprovação, como se eu fosse a única culpada por tudo.

— Você vive na villa, cercada de luxo, com centenas de empregados à sua disposição. Não faz ideia do que é lutar, do que é carregar peso nas costas. Fui eu quem estragou você. Foi isso que fez você, por inveja, atacar Elena, que sempre cuidou de você com tanta dedicação.

Ele apertou mais o meu pulso.

— Se isso acontecer de novo, eu corto o remédio da sua mãe sem pensar duas vezes.

Ergui os olhos para aquele rosto arrogante, sempre me olhando de cima.

Então, de repente, uma gargalhada aguda escapou de mim.

— Conforto?

Ele franziu a testa, como se estivesse diante de uma louca.

Agarrei seu pulso e, com toda a força que ainda me restava, o arrastei até o closet.

O lugar estava abarrotado de roupas deslumbrantes.

E todas continuavam trancadas atrás de vitrines.

— Olha isso! — Apontei para a fechadura, a voz tremendo de raiva. — Dos vestidos às meias, não existe uma única peça sobre a qual eu tenha poder de escolha. Don Antonio, me diga, em que mundo uma esposa precisa pedir aprovação até para vestir a própria lingerie?

Antonio tornou a franzir o cenho.

— Isso acontece porque você sempre escolhe roupas inadequadas para a ocasião.

— Ah, claro. Inadequadas. — Soltei uma risada gelada. — E, no dia seguinte, cada vestido "inadequado" aparece no corpo da Elena.

Meu peito subia e descia com violência.

— Nem a amante mais barata viveria de um jeito tão humilhante quanto eu.

Eu achei que tinha sido clara o bastante.

Mas, nos olhos dele, só havia confusão.

E impaciência.

— Então foi por causa de alguns vestidos que você fez questão de humilhá-la em público?

Ele me olhou como se o problema fosse eu.

— Você não consegue enxergar além disso? Não consegue ter um mínimo de grandeza?

Uma sensação esmagadora de impotência me fez cambalear por dentro.

Virei as costas e saí dali. Quando falei de novo, minha voz já não tinha nenhuma emoção, nenhum calor.

— Pense o que quiser. De qualquer forma, nós vamos nos divorciar.

Dessa vez, a frase atingiu onde doía.

Antonio me alcançou em poucos passos e me prendeu nos braços.

— Preste atenção nas palavras que usa, senhora. — A voz dele saiu baixa, ameaçadora. — Não esqueça quem colocou a melhor equipe médica à disposição da sua mãe.

Mordi o lábio com força, recusando-me a deixar as lágrimas caírem.

Era ridículo.

Ele mobilizou a melhor equipe médica para a minha mãe. E nem sabia que ela já estava morta.

— Me solta. — Minha voz tremeu. — Eu vou embora.

Antonio sorriu de repente.

— Divórcio? E depois? — O deboche na voz dele me cortou como lâmina. — Vai deixar seu pai, aquele jogador miserável, vender você ao próximo chefão da máfia?

As palavras dele se enterraram no meu peito.

Três anos antes, foi justamente por causa das dívidas de agiota do meu pai — depois que ele abandonou minha mãe doente — que eu fui empurrada para aquele casamento.

Na verdade, nem se tratou de casamento.

Eu fui entregue como moeda de troca.

Como um brinquedo para quitar dívida, jogada direto na cama dele.

Antonio sabia que aquela era a ferida mais funda que eu carregava. E, ainda assim, escolheu reabri-la sem a menor piedade.

— Pelo menos o próximo não vai ser você. — Tentei me soltar. — O acordo já está assinado.

Ele se inclinou até meu ouvido. O calor da sua respiração roçou minha pele, mas um frio brutal me atravessou o corpo inteiro.

— Você acha mesmo que o divórcio depende da sua vontade?

A voz dele desceu, macia como veneno.

— Grave isso, cara mia: a esposa de um Don só deixa um casamento de um único jeito.

Eu sabia muito bem do que ele estava falando.

Da morte.

— Eu vou liberar seu acesso ao closet. Quanto ao dinheiro, a partir de agora você vai receber cinquenta mil euros por mês. Vai sair da minha conta pessoal. Você não vai mais precisar pedir autorização.

Como eu conhecia aquele método.

Vinha com migalhas de conforto, só para me manter dócil, obediente, presa na palma da mão dele.

Antes, eu teria aceitado aquilo com os olhos cheios d’água, agradecida por tão pouco. Mas eu já não estava dormindo.

Dinheiro. Roupas.

Era mesmo isso a raiz de tudo?

Quanto a Elena, a pessoa que mais merecia pagar pelo que fez, ele simplesmente fingia não ver.

— Eu não preciso do seu dinheiro. — Rejeitei, fria.

Antonio estreitou os olhos.

— Então você prefere assistir sua mãe perder o remédio e esperar pela sentença de morte?

De novo.

Sempre o mesmo golpe.

Meu coração se contraiu de dor, mas meu rosto continuou imóvel.

— Ela vai me entender.

Ele claramente não esperava por aquela resposta.

Por um breve instante, eu vi algo raro nos olhos dele.

Desorientação.

Como se ele não conseguisse entender por que a ameaça que sempre funcionava, naquela vez, já não tinha efeito algum.

Só que o orgulho de um Don não permitia que ele insistisse, nem que recuasse diante de mim.

Ele me viu seguir em direção à porta sem olhar para trás.

Dessa vez, nenhum segurança me barrou.

Todos esperavam a ordem do Don.

Antonio levantou a mão. O gesto que deveria ordenar que me impedissem no meio do caminho se transformou, à força, em permissão para me deixar passar.

Na mesma hora, uma lembrança me atravessou.

Certa vez, quando fui à sede da família, ouvi Elena dizer a ele:

— Don, a senhora anda assistindo romances demais ultimamente. Será que um dia ela resolve imitar essas heroínas de amor doentio e arruma uma briga com o senhor, pedindo divórcio?

Ela riu, leve, como se falasse de uma bobagem sem importância.

— E, se esse dia chegar, basta deixar ela sozinha por uns dias. Quando descobrir o quanto o mundo lá fora é cruel, vai voltar chorando e pedindo perdão.

Sem dúvida, era exatamente isso que ele pensava agora.

...

Só quando aquela silhueta esguia desapareceu de vez, Antonio voltou a si.

Irritado, apalpou o bolso à procura do cigarro.

Em vez disso, encontrou um pequeno embrulho de papel. Dentro, havia algumas balas de hortelã.

Ele fumava demais, e a garganta vivia irritada.

Eu testei centenas de receitas para preparar aquelas balas, tudo para aliviar um pouco o desconforto dele.

Antonio desembrulhou uma e a colocou na boca. O frescor adocicado pareceu suavizar a tensão entre suas sobrancelhas.

— Deixa ela brincar de liberdade por dois dias.

Ele pensou que, se ela colocava tanto cuidado até numa simples bala, sem dúvida ainda o amava.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Na Gaiola do Don   Capítulo 7

    Os itens que eu coloquei à venda foram comprados muito rápido por um comprador anônimo, e por um preço absurdamente alto.A villa também foi vendida num piscar de olhos.Eu sabia quem estava por trás disso. Mas já não me importava.Com o dinheiro em mãos e uma bagagem leve, me preparei para partir rumo ao Egito, onde eu participaria de um novo projeto arqueológico.Antes da viagem, a professora Margherita pousou a mão no meu ombro.— Estou deixando meu lugar com você. Agora, enfim, posso me aposentar em paz e sair por aí vendo o mundo.Nós duas sorrimos.Foi nesse instante que o celular começou a tocar com urgência.O novo conselheiro de Antonio falava num tom claramente alarmado:— Senhora, por favor, venha ao hospital. O Don sofreu um atentado!Eu já ia recusar.Mas a professora apertou de leve minha mão.— Vá. Provavelmente esta será a última vez que vocês vão se ver nesta vida.Fechei os dedos em volta do celular.Depois de alguns segundos, soltei um:— Está bem.No quarto do hospi

  • Na Gaiola do Don   Capítulo 6

    A assinatura do divórcio aconteceu de forma surpreendentemente tranquila.Antonio não apareceu.Mandou o novo conselheiro levar os documentos.— Senhora, o Don disse que...— Me chame de Isabella. — Interrompi, assinando meu nome sem hesitar.O conselheiro me entregou uma pasta grossa.— O Don deixou a villa para a senhora. A cobertura que está no nome dele também foi transferida para a senhora. Além disso, este cartão tem cinco milhões de euros. É uma conta particular sua.— A senha é a sua data de nascimento.Olhei para o cartão preto, decidi ficar com ele e empurrei a chave da villa de volta.— O apartamento e o dinheiro, eu aceito. Quanto à villa, mande vender.O conselheiro claramente ficou numa posição difícil.— O Don gostaria que a senhora ficasse com ela...— Então diga a ele — Cortei, sem alterar o tom — que só de olhar para aquela casa eu sinto nojo.Algumas semanas depois, a escavação terminou, e eu voltei à villa para fazer a última arrumação.A senha do closet realmente t

  • Na Gaiola do Don   Capítulo 5

    Sob a luz pálida do amanhecer na cidade antiga, ele apareceu de terno, embora as olheiras profundas sob os olhos traíssem a noite em claro.O jipe atrás dele vinha carregado de equipamentos novinhos em folha.— De repente, achei que devia apoiar um pouco o projeto arqueológico. Esses equipamentos, no valor de três milhões de euros, são só um gesto.Ele falava com seriedade. A marca do tapa ainda permanecia nítida naquele rosto bonito.Eu ia recusar, mas os membros da equipe já tinham corrido até o carro, incapazes de conter a empolgação diante dos equipamentos novos.— Bella... — Ele caminhou na minha direção e, pessoalmente, me entregou uma marmita térmica.Quando abriu a tampa, o aroma intenso de frutos do mar se espalhou no ar.Meu estômago se revirou na mesma hora.Ele me olhou com expectativa.— Eu mandei o chef vir de carro por três horas só para trazer isso.A voz dele soou quase cuidadosa.— Você sempre gostou tanto desse prato. Quer provar?Eu não me mexi.— Eu tenho alergia a

  • Na Gaiola do Don   Capítulo 4

    A voz de Luca foi perdendo força do outro lado da linha:— Foi a senhora Elena quem entregou pessoalmente a certidão de óbito. Ela disse que o senhor já não estava bem daqueles dias e que não havia necessidade de levar esse tipo de assunto até o senhor. Tudo que dizia respeito à senhora vinha sendo tratado por ela...Antonio virou a cabeça de repente e cravou os olhos em Elena.— Eu não me lembro de ter dado uma ordem dessas.O rosto dela perdeu toda a cor, mas ainda tentou se sustentar.— Don, naquela época estávamos ocupados com a parceria. Eu só não queria que o senhor se distraísse...— Cala a boca! — Antonio rugiu.Estendeu a mão sem hesitar.— Me dá seu celular. Eu quero ver o prontuário verdadeiro da mãe dela.Elena começou a balançar a cabeça em desespero e recuou por instinto.Então ele simplesmente arrancou a bolsa das mãos dela e tirou o celular de dentro.Lá estavam os avisos de estado crítico que ela havia escondido.As transferências feitas em meu nome, uma a uma, mas des

  • Na Gaiola do Don   Capítulo 3

    Arrastando uma mala pequena, fui procurar a professora Margherita.Ela era amiga da minha mãe.Quando abandonei o mestrado em Arqueologia para me casar com Antonio, foi a única que se opôs com veemência.No dia do casamento, ela não apareceu.Em vez disso, me enviou uma mensagem:[O que você está perdendo é muito maior do que aquilo que imagina estar ganhando.][Quando se cansar da vida de passarinho na gaiola, se lembre de que ainda existe outro caminho. Vai ser duro, mas vai ser livre.]As palavras dela quase pareciam uma profecia.No início do casamento, o controle de Antonio ainda não era tão sufocante.Ele me levava a banquetes, recepções, eventos da família.Até o dia em que alguns homens me olharam por tempo demais.O olhar dele escureceu.Depois disso, nunca mais me levou a lugar nenhum.E, quando Elena sugeriu que passaria a "cuidar" de mim, toda a liberdade que me restava desapareceu de vez.A porta se abriu.Quando me viu daquele jeito simples, quase apagada, um brilho de co

  • Na Gaiola do Don   Capítulo 2

    Menos de dez minutos depois que desliguei, os passos apressados de Antonio ecoaram no andar de baixo.Aquilo, sim, era novidade.Quando eu ardia em febre, passando dos quarenta, ele só mandava Elena me entregar um antitérmico.Mas bastava algo envolver Elena para ele correr e resolver na mesma hora.Nem tirou o terno. Entrou no quarto de rompante, avançando na minha direção, os olhos carregados de sombra.— Você teve coragem de desligar na minha cara?Baixei os olhos e continuei dobrando as roupas.— Eu não quis atender.Ele agarrou meu pulso num movimento brusco e me obrigou a encará-lo.— Foi porque eu mandei você calar a boca? Elena acabou de fechar uma parceria. Qual é o problema de eu, como Don, comemorar com os membros centrais da família?A voz dele subiu, tomada pela irritação.— Você faz ideia de quantas pessoas viram aquilo? Alguns até começaram a dizer que ela é minha amante! Elena sempre se importou com a própria imagem. Depois da sua ironia, ela chorou até desmaiar ali mes

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status