LOGINIsabella Still
Permaneço parada na calçada, observando os homens entrarem e saírem da minha casa com caixas nos braços. Tudo acontecia rápido demais. Enquanto dois deles desmontavam a estante da sala, outros envolviam meus móveis com plástico bolha, carregando cada peça com extremo cuidado até o caminhão estacionado em frente ao portão. Cruzo os braços, soltando um longo suspiro. Ainda era difícil acreditar que aquilo realmente estava acontecendo. Ontem eu estava sentada na sala de Thomas Morrone, assinando um contrato de casamento. Hoje, minha vida inteira estava sendo colocada dentro de um caminhão de mudanças. A sensação era estranha. Eu havia concordado com aquilo por livre e espontânea vontade, mas, vendo minha casa esvaziar aos poucos, o peso daquela decisão parecia finalmente alcançar meu peito. Cada caixa retirada levava consigo um pedaço da rotina que construí durante anos. As paredes ficavam cada vez mais vazias. Os cômodos, silenciosos. Parecia que aquela casa deixava de ser meu lar a cada móvel que atravessava a porta. — Senhorita Still, terminamos aqui. — Um dos funcionários diz, aproximando-se com um sorriso educado. — Está tudo acomodado no caminhão. Olho uma última vez para o interior da casa. As cortinas continuam balançando com a brisa que entra pela janela aberta. O cheiro de café preparado pela manhã ainda parece estar no ambiente. Por um instante, penso em tudo o que vivi ali. As noites em que cheguei cansada do trabalho. Os finais de semana de descanso. As pequenas conquistas que celebrei sozinha. Era estranho deixar tudo aquilo para trás. Mas não havia mais espaço para hesitação. Tranco a porta pela última vez, entregando a chave ao corretor que ficaria responsável pelo imóvel durante minha ausência. Mais um capítulo da minha vida se encerrava. Caminho até meu carro. Antes de entrar, volto os olhos para o caminhão de mudanças. Aquilo tornava o contrato absurdamente real. Não era mais apenas uma assinatura em algumas folhas de papel. Eu realmente estava indo morar com Thomas Morrone. Solto outro suspiro, tentando afastar a ansiedade que insistia em apertar meu estômago. Entro no carro, ajusto o cinto de segurança e dou partida. Assim que o caminhão começa a se mover, sigo logo atrás. Durante todo o trajeto, meus pensamentos parecem correr mais rápido do que os veículos na estrada. Como seria morar com Thomas? Será que conseguiríamos conviver bem? Será que sua mãe acreditaria naquele casamento? E eu? Conseguiria fingir que tudo aquilo era real sem acabar acreditando na própria mentira? Aperto um pouco mais o volante. Não. Aquilo era apenas um contrato. Nada além disso. Depois de algum tempo, os grandes portões da mansão dos Morrone surgem à minha frente. O caminhão reduz a velocidade até parar diante da entrada. Faço o mesmo logo atrás. Permaneço alguns segundos dentro do carro, encarando a imponente propriedade. A partir daquele momento... Aquela seria a minha nova casa. Desço do carro lentamente, ainda observando a imponente mansão à minha frente. Já havia estado ali uma única vez, anos atrás, durante um jantar corporativo promovido pela família Morrone. Naquela noite, permaneci apenas nos ambientes sociais, cercada por empresários e conversas sobre negócios. Agora era diferente. Dessa vez, eu não estava ali como funcionária. Estava entrando naquela casa para morar. A simples ideia faz meu estômago se contrair. Os funcionários da mudança começam a descarregar as caixas enquanto um dos empregados da mansão se aproxima. — Senhorita Still, seja bem-vinda. O senhor Morrone ainda está na empresa, mas nos pediu para ajudá-la no que precisasse. Assinto com um sorriso discreto. — Obrigada. Cruzo a enorme porta de entrada. Meus passos diminuem automaticamente. O hall de entrada é ainda mais impressionante do que eu me lembrava. O pé-direito alto, a escadaria de mármore, os lustres de cristal e as enormes janelas faziam a luz da tarde iluminar cada detalhe do ambiente. Tudo transmitia elegância. Tudo parecia... intocável. Passo os olhos pela decoração cuidadosamente escolhida. Nenhum objeto estava fora do lugar. Nenhuma almofada desalinhada. Nem mesmo um quadro parecia torto. Era como entrar em uma casa retirada das páginas de uma revista de arquitetura. Solto um pequeno suspiro. Aquele era o mundo de Thomas. Um mundo do qual eu nunca havia feito parte. Na empresa, eu conhecia o CEO. O homem sério. Reservado. Controlador. Aquele que nunca se atrasava para uma reunião e sempre exigia excelência de todos ao seu redor. Mas ali... Ali era diferente. Aquela era sua vida pessoal. O lugar onde ele deixava de ser apenas o presidente da empresa e se tornava simplesmente Thomas. Por algum motivo, isso me intimidava muito mais do que qualquer reunião que já tivemos. Começo a caminhar pelos corredores da mansão. Cada ambiente parecia refletir um pouco da personalidade dele. A biblioteca possuía centenas de livros organizados por tamanho e categoria. A sala de estar era ampla, elegante e sóbria, sem exageros. O escritório particular era silencioso, com documentos perfeitamente alinhados sobre a mesa. Nada parecia ter sido colocado ali por acaso. Tudo possuía uma ordem. Tudo transmitia controle. Subo a escada principal sem perceber. Meu olhar passeia pelo longo corredor do segundo andar. Algumas portas permanecem fechadas. Outras estão entreabertas. Sem pensar muito, caminho até uma delas. Bato levemente antes de girar a maçaneta. O quarto está vazio. Dou apenas dois passos para dentro. Um sorriso discreto escapa dos meus lábios. Era exatamente como imaginei. A cama estava impecavelmente arrumada. As cortinas estavam alinhadas na mesma altura. Os sapatos ocupavam seus lugares na sapateira, organizados por cor. Os relógios estavam cuidadosamente acomodados em uma caixa de vidro. As roupas no closet seguiam uma sequência quase perfeita. Até mesmo os perfumes pareciam posicionados milimetricamente sobre a bancada. Cruzo os braços, observando cada detalhe. Thomas era exatamente igual dentro de casa. Organizado. Disciplinado. Meticuloso. Cada objeto estava em seu devido lugar, como acontecia em sua sala na empresa. Acabo soltando uma pequena risada. — Eu realmente esperava encontrar isso... Era curioso. Eu conhecia tão bem o lado profissional de Thomas que conseguia reconhecer sua personalidade apenas observando um quarto vazio. E, pela primeira vez desde que aceitei aquele contrato, senti que estava conhecendo um homem que existia muito além do CEO que todos viam todos os dias. Permaneço mais alguns segundos observando o quarto de Thomas. Era estranho pensar que, dali em diante, dividiríamos a mesma casa. Ainda não conseguia acreditar que tudo aquilo havia acontecido tão depressa. Uma batida suave na porta chama minha atenção. Viro-me e encontro uma senhora de aparência gentil, usando o uniforme dos funcionários da mansão. — Senhorita Still? — ela pergunta educadamente. — Sim. Ela abre um pequeno sorriso. — O senhor Morrone pediu que eu lhe mostrasse o seu quarto. Já está tudo preparado para recebê-la. Lanço um último olhar para o quarto de Thomas antes de acompanhá-la pelo corredor. Caminhamos apenas alguns metros até ela parar diante de outra porta. — Este será o seu quarto. Ela a abre lentamente. Dou um passo para dentro e observo o ambiente. Era amplo, aconchegante e extremamente elegante. As paredes claras deixavam o cômodo ainda mais iluminado pela luz natural que atravessava as enormes janelas. A cama de casal ocupava o centro do quarto, coberta por lençóis impecavelmente estendidos. Ao lado, havia uma pequena sala de estar com um sofá confortável e uma mesa de centro. Tudo parecia ter sido preparado especialmente para mim. — Suas caixas já estão chegando. Em alguns minutos, as outras meninas irão organizar suas roupas e seus pertences no closet. O senhor Morrone pediu que a senhora não se preocupasse com isso. Olho para a funcionária, um pouco surpresa. — Ele pensou em tudo... Ela sorri. — Sim, senhorita. Seus olhos se voltam para uma porta próxima ao banheiro. — Ah... o senhor Morrone também providenciou algumas roupas para a senhora. Caso queira descansar ou tomar um banho antes que terminemos de organizar suas coisas. Franzo levemente a testa. — Roupas? — Sim. Estão no closet. Assim que a funcionária se retira, caminho até a porta indicada. Ao abri-la, fico completamente imóvel. — Meu Deus... Araras inteiras estavam preenchidas com vestidos, calças, saias, blusas, casacos e conjuntos de diferentes estilos. Prateleiras exibiam bolsas cuidadosamente organizadas. Sapatos ocupavam nichos iluminados. Caixas com acessórios estavam perfeitamente alinhadas. Parecia a vitrine de uma loja de grife. Passo lentamente entre as araras, deslizando a ponta dos dedos pelos tecidos. Não fazia ideia de quando Thomas havia providenciado tudo aquilo. Muito menos como acertou meu tamanho. Pego um vestido vermelho. Era simples, mas elegante. Possuía alças finas e o comprimento terminava alguns centímetros acima dos joelhos, valorizando a silhueta sem ser exagerado. Sorrio discretamente. Talvez fosse uma das primeiras vezes que alguém escolhia roupas pensando exclusivamente em mim. Seguro o vestido contra o corpo por alguns instantes e caminho até o banheiro. Assim como o restante da casa, ele era impecável. Os revestimentos claros transmitiam uma sensação de tranquilidade, enquanto a ampla bancada de mármore permanecia completamente organizada. Fecho a porta atrás de mim. Abro o registro do chuveiro e observo a água quente começar a cair. Depois de um dia tão intenso... Era exatamente do que eu precisava. Começo a tirar a roupa lentamente, deixando-a sobre um banco próximo, antes de entrar debaixo da água. No instante em que a água quente toca minha pele, sinto toda a tensão acumulada nas últimas vinte e quatro horas escapar em um longo suspiro. Talvez aquele banho fosse a única pausa que eu teria antes de começar, de fato, minha nova vida na mansão dos Morrone.Ares dá um passo na minha direção, obrigando-me a recuar outro instintivamente, determinada a manter a distância entre nós.— Está com medo, lobinha? — provoca, um sorriso torto surgindo no canto dos lábios.Droga.Meu coração disparava contra o peito, mas não era medo dele.Era da ligação.Eu conhecia bem a força que unia companheiros destinados. Bastava um único instante de fraqueza, alguns minutos sem controle... e ele poderia me marcar. A simples possibilidade fazia um arrepio percorrer minha espinha.— Nunca vou ter medo de você! — retruco, sustentando seu olhar.Ele avança mais um passo.Eu recuo outro.A parte de trás das minhas pernas encontra a cama, e acabo me sentando sobre o colchão sem perceber. Ares continua avançando até parar a poucos centímetros de mim. O calor que emanava de seu corpo parecia envolver todo o quarto.Um rosnado grave vibra em seu peito.Minha loba estremece.Ela quer abaixar a guarda. Quer se aproximar. Quer se render ao alfa que reconhece como seu.E
Daniel encosta um dos ombros na parede e cruza os braços.— Não liga para a Amélia. Ela implica com qualquer um que considere uma ameaça para a alcateia.Solto uma risada baixa.— Então ela implica com frequência.Ele sorri.— Bastante.O silêncio dura apenas alguns segundos.— Você realmente é diferente do que eu imaginava. — Daniel comenta.Ergo uma sobrancelha.— Diferente como?— Achei que uma híbrida odiaria qualquer lobo.Dou de ombros.— Eu odeio alguns.— Alguns?— Os arrogantes... os que se acham superiores... os que vivem dando ordens.Ele ri.— Então você definitivamente não vai gostar do Ares.Acabo rindo também.— Finalmente encontramos algo em comum.Daniel balança a cabeça, divertido.— Você fala desse jeito porque ainda não conhece o verdadeiro Supremo Alfa.— E ele fala daquele jeito porque ainda não conhece a verdadeira Kiara.Ele me encara por alguns instantes antes de cair na risada novamente.— Você é maluca.— Já ouvi isso algumas vezes.Pela primeira vez desde q
Respiro fundo algumas vezes antes de deixar o corredor para trás.Não vou ficar trancada naquele quarto o dia inteiro.Desço a enorme escadaria de madeira, observando o movimento da casa. Alguns lobos passam por mim carregando caixas, outros conversam em voz baixa. Todos, sem exceção, interrompem o que estão fazendo por alguns segundos para me encarar.Os olhares são os mesmos.Desconfiança.Nojo.Repulsa.Mantenho o queixo erguido e continuo andando, fingindo que aquilo não me incomoda.Assim que entro na ampla sala principal, uma mulher para no meio do caminho.Ela é alta, de cabelos loiros presos em uma trança impecável. Os olhos castanhos percorrem meu corpo de cima a baixo, como se eu fosse algum animal morto jogado no chão.Seu nariz se contrai em evidente desprezo.— Então os boatos eram verdade... — diz ela, cruzando os braços. — O Supremo Alfa realmente trouxe uma híbrida para dentro da alcateia.Não respondo.Já esperava esse tipo de recepção.Ela dá alguns passos na minha d
Entro no banheiro e fecho a porta atrás de mim. Por alguns segundos, apenas encaro meu reflexo no enorme espelho. Estou um desastre. Meus cabelos estão cheios de folhas secas e pequenos galhos. Há terra espalhada pelo meu rosto, e o corte em meu braço já formou uma fina camada de sangue seco ao redor da ferida. Solto um longo suspiro. Abro o registro da banheira e observo a água quente enchê-la lentamente. O vapor sobe pelo ambiente, tornando tudo mais aconchegante. Mergulho devagar. O calor envolve meu corpo, relaxando músculos que eu nem percebia estarem tão tensos. Fecho os olhos. Pela primeira vez em dias, não preciso correr. Não preciso olhar por cima do ombro. Não preciso dormir com um olho aberto. A sensação é tão estranha que quase me incomoda. Depois de algum tempo, lavo os cabelos, limpo cuidadosamente o machucado no braço e saio da banheira. O vestido que Ares deixou sobre a cama me serve perfeitamente. O tecido azul-escuro é simples, mas elegante. A saia cai
A caminhada até a alcateia é silenciosa. Nenhum de nós diz uma palavra. Assim que as árvores começam a se abrir, meus passos diminuem involuntariamente. Meu fôlego chega a falhar. À minha frente ergue-se um casarão tão gigantesco que, por um instante, me pergunto se estou olhando para uma fortaleza ou para uma residência. A construção domina o topo de uma pequena colina, cercada por enormes pinheiros. Feita de pedra escura e grossas vigas de madeira, parece ter sido erguida para resistir ao tempo, às guerras e até mesmo à própria natureza. Suas enormes janelas de vidro refletem a luz do sol, enquanto as varandas de madeira contornam parte da fachada. O telhado inclinado, sustentado por grossas colunas, dá ao lugar um aspecto imponente, quase intimidador. A entrada principal é marcada por duas portas de madeira maciça, altas o suficiente para que um lobo transformado pudesse atravessá-las sem dificuldade. Tudo naquela construção transmite poder. Força. Autoridade.
— Há quanto tempo os caçadores estão rondando nossas fronteiras? — Ares pergunta, sem desviar os olhos de mim. — Algumas semanas. — Bros responde prontamente. — Estamos monitorando cada movimento deles, mas ainda não descobriram uma forma de atravessar a fronteira. Ares faz um breve aceno com a cabeça, absorvendo a informação. Então volta sua atenção para mim. — Você permanecerá em minha alcateia até resolvermos esse problema. Será tratada como minha convidada de honra. Quando os caçadores deixarem a região, poderá voltar para sua vida... longe da fronteira. Reviro os olhos. — Não se preocupe. Assim que eu puder ir embora, nunca mais volto a este lugar. Bros se aproxima da cama. Sem dizer uma palavra, desfaz o nó das cordas que prendiam meus pulsos. No instante em que sinto meus braços livres, não penso. Apenas ajo. Meu punho encontra o estômago dele com força. O Beta solta o ar em um gemido abafado e se dobra para a frente. Aproveito a oportunidade para empurrá-lo e salt







