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Nas garras do tio do meu Ex
Nas garras do tio do meu Ex
Autor: DhaSantana

Capítulo 1

Autor: DhaSantana
last update Data de publicação: 2026-09-13 02:27:37

Mavie Castelhano

O calor abafado daquela tarde de verão em Sevilha parecia prender o oxigênio dentro da minha própria garganta.

Eu estava parada diante do altar improvisado daquela pequena capela rústica, cercada por paredes caiadas de branco que refletiam uma claridade quase cruel. O vestido de linho leve, que eu mesma fiz questão de escolher porque achava que combinava com a Espanha — simples, despretensioso, cheio de movimento — agora parecia pesar toneladas sobre os meus ombros.

Mas não era o vestido que fazia meu corpo parecer tão pesado.

Era a ansiedade.

Meu coração batia depressa demais, e eu precisava controlar a respiração para não deixar ninguém perceber o quanto minhas mãos tremiam. Levei discretamente uma delas até a barriga ainda praticamente plana.

Pensei animada no segredo que mantinha ali, o pequeno ser que crescia dentro de mim.

Eu estava grávida, e nem sabia esconder direito há emoção, foram dias tentando não falar porque queria fazer surpresa.

Estava louca para contar a Sebastian que nosso amor rendeu um fruto, finalmente estavamos começando a nossa família.

A ideia era contar depois que ele chegasse, e depois que estivéssemos oficialmente casados.

Eu tinha imaginado aquele momento tantas vezes que consegui enxergar cada detalhe de olhos fechados.

A cerimônia terminaria.

Ele me beijaria.

Nós ficaríamos alguns segundos sozinhos na pequena sala que haviam preparado nos fundos da capela, enquanto os convidados se acomodavam para a comemoração.

Então eu seguraria as mãos dele e diria:

"Você vai ser pai."

Talvez Sebastian chorasse.

Talvez me levantasse do chão e girasse comigo pela sala.

Talvez ficasse completamente sem palavras, porque, apesar de todos os anos juntos, eu ainda sabia que havia algumas coisas capazes de surpreender.

E eu queria guardar aquela notícia para o momento perfeito.

Para o nosso casamento.

Para o começo da nossa família.

Olhei para o relógio antigo pendurado na parede.

Três horas.

Três horas de atraso.

Meu sorriso começou a desaparecer aos poucos. Ainda assim, eu me recusava a acreditar que havia alguma coisa errada. Sebastian não faria aquilo comigo.

Não naquele dia.

Não depois de tudo que passamos para estarmos juntos.

— Ele deve estar preso no trânsito — murmurei, mais para mim mesma do que para qualquer outra pessoa.

Madri e Sevilha não eram exatamente duas cidades separadas por uma curta distância. Havia estrada, trânsito, imprevistos. Talvez tivesse acontecido alguma coisa com o carro.

Talvez ele tivesse perdido o horário.

Talvez tenha ficado preso em algum aeroporto.

Talvez o celular estivesse sem bateria.

Era isso.

Tinha que ser isso.

Eu repetia essas possibilidades como quem constrói uma parede contra o medo.

Na primeira fileira, nossos amigos começaram a trocar olhares desconfortáveis. Alguns tinham atravessado o oceano desde o Brasil exclusivamente para nos ver dizer o tão esperado sim.

Cláudia estava entre eles, minha melhor amiga.

A mulher que largara a própria rotina em São Paulo para vir me ajudar a organizar cada detalhe daquela loucura.

Ela tinha passado semanas me ouvindo falar sobre flores, música, comida, vestido e, principalmente, Sebastian.

Sabia o quanto eu o amava.

Sabia também que eu estava escondendo alguma coisa.

Não porque tivesse descoberto a gravidez, mas porque eu havia pedido que ela não contasse a ninguém que eu vinha passando mal nas últimas semanas.

Eu queria contar pessoalmente a ele.

Apenas a ele.

O relógio continuou avançando.

Três horas e dez minutos.

Três horas e vinte.

Três horas e quarenta.

A cada minuto, meu estômago se contraia um pouco mais.

Ainda assim, quando alguém se aproximava para perguntar se deveríamos cancelar a cerimônia, eu respondia:

— Ele vai chegar. - Eu precisava acreditar nisso.

Porque, se eu parasse de acreditar, teria que encarar a possibilidade de que alguma coisa muito pior estivesse acontecendo.

— Talvez ele tenha sofrido um acidente — falei de repente.

Meu próprio pensamento me fez gelar.

Peguei o celular novamente e liguei. O toque parecia me sufocar cada vez mais. A ligação começou a cair direto na caixa postal.

Meu coração começou a bater contra as costelas.

Olhei para a porta da capela.

Toda vez que ela se mexia, eu prendia a respiração.

Mas nunca era ele.

— Ele vai entrar por aquela porta — sussurrei.

Eu ainda conseguia imaginar.

Sebastian apareceria correndo, desesperado, pedindo desculpas pelo atraso. Eu fingiria estar brava, e ele faria alguma piada.

Eu choraria.

Depois ele me beijaria.

E tudo aquilo seria apenas uma história engraçada que contaremos aos nossos filhos anos depois.

Seu pai quase chegou atrasado ao próprio casamento.

Passei novamente a mão sobre a barriga.

Nosso filho.

Meu sorriso vacilou.

— Seu pai vai chegar — murmurei baixinho.

Sebastian iria aparecer, eu sei disso.

Até Cláudia se aproximar.

Olhei para minha melhor amiga e percebi imediatamente que havia alguma coisa errada.

O rosto dela estava pálido.

Os olhos, marejados.

O sorriso de apoio que ela vinha sustentando desde o início da cerimônia simplesmente desapareceu.

— Cláudia... - Minha voz saiu pequena.

Ela parou diante de mim.

— Mavie. Para um pouco. Escuta o que eu vou te dizer.

— O que aconteceu? - Ela engoliu em seco.

— Eu recebi uma mensagem agora há pouco. - Meu coração acelerou.

— Do Sebastian? - Ela balançou a cabeça.

— Não.

O mundo pareceu ficar silencioso de repente.

— Então de quem? - Cláudia tirou o celular da bolsa com mãos trêmulas.

— De um colega de trabalho dele. O Mateo. Ele me mandou um vídeo. - Franzi a testa.

— Um vídeo?

— Mavie...

— De quê? — perguntei rapidamente. — De um engarrafamento? De um acidente? Dele no aeroporto? Talvez ele tenha perdido o voo. Talvez... - Minha voz falhou.

Eu estava procurando qualquer explicação que não doesse.

Qualquer justificativa que me permitisse continuar esperando.

— Me mostra. - Cláudia não respondeu.

— Me mostra o vídeo.

— Mavie, talvez seja melhor você...

— Me mostra! - Ela hesitou.

O polegar pairou sobre a tela.

Foi nesse instante que alguma coisa dentro de mim começou a entender antes mesmo que meus olhos vissem.

Arranquei o celular das mãos dela, a tela acendeu, e o vídeo começou.

Logo reconhecia o Aeroporto de Barajas, em Madri.

Um saguão movimentado, pessoas passando, malas sendo arrastadas, e então eu o vi.

Sebastian.

Meu noivo.

O homem que deveria estar naquela capela comigo há três horas atrás.

O homem que havia me prometido, na noite anterior, que mal conseguia esperar para me ver entrar pelo corredor.

Ele estava ali. Não tinha acontecido nenhum acidente, o trânsito não tinha atrapalhado sua ida.

Sem problema algum.

Meu primeiro impulso foi sentir alívio.

Meu segundo impulso foi sorrir.

Até perceber que ele não estava sozinho.

Ao lado dele estava uma mulher.

Reconheci por ser uma das principais clientes da empresa onde ele trabalhava.

A mulher sobre quem eu havia perguntado algumas vezes.

A mulher que ele sempre dizia ser apenas uma relação profissional.

Aquela mulher sorria enquanto segurava uma mala de grife.

E Sebastian...

Sebastian mantinha a mão na cintura dela.

Então ele a puxou para perto.

E a beijou.

Um beijo rápido.

Íntimo.

Familiar.

Sem culpa.

Sem hesitação.

Sem a menor preocupação de que alguém pudesse vê-los.

O celular quase escorregou da minha mão. Meu corpo inteiro ficou imóvel. O barulho da capela desapareceu, as pessoas desapareceram, o calor desapareceu, e até o ar pareceu desaparecer.

— Não... - A palavra saiu como um sopro.

Balancei a cabeça.

— Não. - Voltei o vídeo.

Assisti novamente.

Talvez eu tenha entendido errado, ou o ângulo tenha sido enganado. Talvez fosse outra pessoa. Talvez...

Não.

Era Sebastian.

Era ele.

E aquela era a mulher que ele jurava não significar nada, que ele me dizia ser apenas uma cliente.

Senti uma pontada tão forte no peito que levei a mão livre até o coração.

— Não, não, não... - Minha respiração começou a falhar.

— Ele não está sozinho... - Cláudia tentou pegar o celular.

— Mavie...

— Quem é aquela mulher? - Minha voz saiu alta demais.

— O que ele está fazendo com ela? - Ninguém respondeu.

Olhei novamente para a tela.

A imagem de Sebastian beijando aquela mulher parecia gravada diretamente dentro dos meus olhos.

Ele não estava tentando chegar a Sevilha, não estava preso no trânsito. Ele não tinha sofrido um acidente.

Ele simplesmente tinha escolhido não vir.

Meu casamento não estava atrasado, ele havia sido abandonado.

A percepção me atingiu de uma vez, levei a mão até a barriga. Meu bebê. Meu filho não tinha mais um pai.

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