LOGINSérgio Ramos
— Aqui está a foto, chefe. — Levantei os olhos lentamente. Rogério estava parado diante da minha mesa com o celular estendido na minha direção. O rosto dele permanecia impassível, mas eu o conhecia o suficiente para perceber a tensão em sua mandíbula. Ele sabia que aquela fotografia mudaria tudo. Peguei o aparelho. Por alguns segundos, custei a assimilar o que estava vendo. Então reconheci o rosto. Sebastian. Meu sobrinho. Meu próprio sangue. E, ao lado dele, Muriel. Minha esposa. Os dois estavam no aeroporto, atravessando o portão de embarque internacional. Fugindo juntos. Sebastian tinha o braço ao redor da cintura dela, e Muriel sorria como se ele fosse a luz da sua vida. Então se beijaram — um beijo tranquilo, íntimo e revelador. Como se eu fosse apenas um obstáculo insignificante. Senti meu maxilar travar. — Quando foi tirada? — perguntei, tomado pela raiva. — Poucas horas atrás. — Eles embarcaram? — Sim. Levantei-me devagar e coloquei o celular sobre a mesa. — Para onde? — Ainda não conseguimos confirmar o destino final — Rogério hesitou. Foi o bastante para eu perder o controle. Minha mão atingiu a primeira taça de cristal sobre a mesa. O som da quebra ecoou pelo escritório. Depois veio o abajur, o porta-retratos, uma cadeira. Tudo virou alvo. — COMO AQUELA DESGRAÇADA FOI CAPAZ DE FAZER ISSO COMIGO? — Minha voz explodiu pelo escritório. — ELA TINHA RAIVA DE MIM POR NÃO SER MÃE... MAS ELE? — Abaixei o tom como um animal ferido. — Como ele pôde fazer isso comigo? Peguei uma garrafa e a arremessei contra a parede. O vidro se despedaçou e o uísque escorreu lentamente pela pintura. — Ela era minha mulher! E ele... aquele garoto que eu ajudei, que cresceu na minha família! Meu punho atingiu a quina da mesa. A dor veio imediatamente. Olhei para a minha mão e vi sangue. Algumas gotas caíram sobre o tapete persa. — Chefe... — Rogério deu um passo na minha direção. — Não toque em mim — murmurei, respirando fundo para não deixar a raiva decidir por mim. Olhei novamente para a fotografia. Muriel sorrindo, Sebastian beijando-a. — Quero que encontre os dois — ordenei, minha voz ficando fria e perigosa. — Quero saber para onde foram, em qual voo embarcaram, quem os ajudou. Nomes, contas, endereços. Tudo antes que percebam que estou atrás deles. Se cruzarem uma fronteira, você cruza atrás. Você vai trazê-los de volta. Rogério assentiu e saiu. Fiquei sozinho. Olhei para o retrato antigo sobre a estante: eu ainda jovem, meu irmão ao fundo e Sebastian apenas um menino. Sorri sem humor. Meu maior erro foi acreditar que sangue significava lealdade. Naquela dia, descobri que ele havia herdado do pai a traição. As semanas seguintes foram consumidas por buscas em aeroportos, hotéis e contas bancárias. Mas Sebastian sabia fugir, e Muriel tinha uma capacidade assustadora de esconder segredos. O divórcio aconteceu sem que eu precisasse olhar na cara dela. Algumas traições não merecem explicação; merecem consequências. O tempo passou. Meses, depois anos. A raiva deixou de ser uma explosão e se transformou em algo silencioso e paciente. Continuei trabalhando e expandindo o império, mas a batalha diária era feroz. Conselheiros do grupo Ramos usavam a ausência de um herdeiro direto para questionar minha autoridade. Eu segurava o negócio com mãos de ferro, mas a pressão só aumentava. Nunca deixei de procurar por Sebastian. Até que, finalmente, uma informação chegou. — Encontramos informações sobre Sebastian — disse Rogério ao entrar no escritório. — Onde ele está? — Não sabemos exatamente. Descobrimos que ele abandonou uma mulher que levou do Brasil há alguns anos. Prometeu casamento e depois desapareceu. Ele usava outro sobrenome, por isso não achamos nada até agora. — E onde ela está? — Ainda estamos tentando localizar o endereço atual. Mas tem mais uma coisa... Essa mulher estava grávida quando ele a abandonou. O mundo pareceu parar. — Repita. — Ela estava grávida. Grávida. A palavra atravessou minha mente lentamente. Um laudo médico guardado no meu cofre confirmava o que ninguém no conselho podia saber: eu era estéril. A pressão por um sucessor sempre fora uma espada sobre minha cabeça... E agora, aquele desgraçado havia deixado para trás um herdeiro legítimo do sangue Ramos. Uma criança para eu calar o conselho e controlar tudo. — Menino ou menina? — Não sabemos ainda. Caminhei até a janela, observando a cidade. Durante anos acreditei que Sebastian havia destruído a continuidade da nossa família, mas ele havia deixado uma porta aberta. — Ele sabe do filho? — perguntei, virando-me. — Aparentemente, não. Um sorriso lento e calculado surgiu em meus lábios. — Então ele não sabe do que abriu mão. Quero essa mulher e quero a criança. Não me interessa onde estejam ou quanto tempo leve: quero nome, endereço, onde ela trabalha. Quero tudo. Peguei a fotografia antiga de Sebastian na pasta. Casar-me com a ex-namorada dele seria o golpe de misericórdia. Ele me tirou a esposa; eu tomaria a mulher que ele abandonou, daria meu sobrenome ao filho dele e tornaria a minha vingança impecável. — Faça tudo com extrema discrição — ordenei. — Ninguém pode saber que estou procurando. Principalmente ele. — Entendido. — Rogério assentiu e saiu. Encostei as mãos sobre a mesa, sozinho. Pela primeira vez em anos, senti que o destino havia colocado uma peça inesperada no meu tabuleiro. Eu procurava um homem para destruir, mas encontrei um herdeiro para o meu império. Guardei a fotografia na gaveta e a fechei com chave. Fui retirado do meu transe quando o telefone tocou. Era minha secretária confirmando os últimos detalhes de uma transação comercial de rotina. A vida não parava por causa da minha vingança pessoal. — O contrato de aquisição da nova editora está pronto, Senhor Ramos — informou ela. — Excelente. Avise que quero a assinatura finalizada até amanhã e os cortes de pessoal iniciados até o fim da semana. — Ser feito, Senhor. Ela desligou. Olhei para a cidade iluminada através do vidro. Tudo estava se alinhando. — Eu serei o vencedor. .Sérgio Ramos O coquetel de gala não seria em um salão fechado de hotel, como a imprensa e os colunistas sociais tanto especularam, mas nas terras particulares de Domênico, um dos acionistas mais influentes, venenosos e ardilosos da alta sociedade espanhola. A propriedade ficava a apenas vinte minutos da nossa mansão, cobrindo colinas inteiras com uma iluminação cênica impecável e milimetricamente planejada. O vinhedo dele era o puro suco do luxo ostentativo: fontes de mármore esculpido, garçons servindo safras raríssimas em taças de cristal lapidado e uma multidão de empresários, banqueiros, políticos e especuladores de mercado — o tipo exato de gente superficial e nojenta que Mavie claramente desprezava à primeira vista.No carro, o silêncio entre minha mãe e Catalina tinha sido constrangedor, quase insuportável. Dona Cecília e minha irmã ainda se sentiam profundamente culpadas pelo desastre de mais cedo no quarto, quando tiveram a infeliz e desastrosa ideia de oferecer a Mavie o
Mavie Ramos O reflexo no espelho do provador me mostrava uma mulher que eu quase não reconhecia. O vestido de cetim vermelho-sangue desenhava cada curva do meu corpo com uma ousadia que eu mesma me espantava em possuir; o cabelo caía em ondas perfeitas sobre os ombros e a maquiagem nos olhos escuros dava o tom exato de quem não estava ali para pedir desculpas ou abaixar a cabeça. Eu me sentia poderosa, intocável, armada até os dentes com a minha própria marra, pronta para enfrentar qualquer olhar torto ou julgamento velado que a alta sociedade de Sevilha pudesse lançar sobre mim naquela noite.Até a porta do quarto se abrir com um rangido suave e Dona Cecília entrar acompanhada por Catalina, carregando nos braços uma caixinha de veludo escuro que parecia pesar séculos de tradição.— Querida, você está simplesmente deslumbrante — minha sogra elogiou, com aquela suavidade aristocrática que parecia vir natural a quem nasceu dono de meio mundo. Ela caminhou com passos firmes até a pente
Sérgio Ramos A luz do sol de sexta-feira entrou rasgando pelas frestas das cortinas de linho pesado do quarto, anunciando que o dia do julgamento — ou melhor, do coquetel de gala — finalmente havia chegado. Abri os olhos sentindo uma leve dor de cabeça latejar nas têmporas, consequência direta do uísque da véspera e das horas mal dormidas pensando na mulher que dormia a poucos centímetros de mim. Virei o rosto no travesseiro. O lado da cama de Mavie já estava vazio. O lençol amassado e o cheiro suave de jasmim e baunilha que impregnava o travesseiro dela eram os únicos vestígios de que ela havia estado ali. Levantei sem pressa, fiz a minha rotina matinal e desci para o escritório particular que mantinha na ala oeste da mansão. O dia seria uma maratona infernal: reuniões com os acionistas majoritários pela manhã, alinhamento com a diretoria de marketing da holding à tarde e, para coroar a insanidade, a apresentação oficial da minha esposa e do meu herdeiro à alta sociedade de Se
Sérgio Ramos — Você está bêbado, Sérgio. Vá tomar um banho — a voz de Mavie cortou o ar do corredor com uma clareza cortante, zombeteira e absolutamente imune ao feitiço do beijo que acabamos de compartilhar.Antes que eu pudesse formular qualquer argumento ou puxá-la de volta para o meu abraço, ela se soltou dos meus braços com uma agilidade irritante. Suas mãos ágeis ajeitaram o tecido da roupa de dormir com um puxão rápido, alinhando a blusa e endireitando a postura como se nada — absolutamente nada — tivesse acabado de acontecer entre nós.— Vou fazer um café para curar essa sua ressaca — ela acrescentou por cima do ombro, virando-se de costas e caminhando a passos firmes em direção à escada.E assim, com a mesma facilidade com que um juiz bate o martelo e encerra uma sessão, ela me deixou plantado sozinho no meio do corredor mal iluminado.Fiquei estático por três segundos, olhando para o espaço vazio onde o corpo dela estava colado ao meu segundo. Passei a mão pelos lábios, sen
Mavie Ramos — Cuidado com o que você fala, Mavie! — ele rosnou, a voz grave descendo uma oitava, vibrando perigosamente no corredor escuro. — Você não sabe absolutamente nada sobre onde eu estive ou o que eu fiz! — Ah, claro que eu não sei! — disse rindo — Eu sou apenas a sua esposa de fachada, a galinha dos ovos de ouro que garante o seu herdeiro! Enquanto você sai para fechar contratos de mentira de dia, de noite você tem total liberdade para ir para a cama com quem quiser, não é?! Mas espere... o contrato não dizia que nós tínhamos que manter as aparências de decência? Ou a sua moral de homem intocável só vale para exigir recato de mim? Eu nem lembrava se tinha uma cláusula assim, mas queria provocar o homem há minha frente. Eu realmente não tinha medo da morte. Sérgio fechou o espaço entre nós com uma rapidez assustadora. Ele não me deu tempo de recuar; segurou firmemente nos meus dois braços, afastando a xícara de chá das minhas mãos para que ela não caísse no chão, e
Mavie Ramos O trajeto de volta para a mansão foi feito em um silêncio tão denso que parecia sólido. No carro, Sérgio não disse uma única palavra. Ele manteve os olhos fixos na estrada à nossa frente, as mãos firmes no volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, como se estivesse pilotando um avião em rota de colisão. Ele pagou a conta do restaurante com a mesma frieza de quem executava uma transação comercial hostil e me deixou na porta da mansão como se eu tivesse acabado com o dia dele — o que, pensando bem, era exatamente o que havia acontecido. Assim que os meus pés tocaram o piso da entrada e fechei a porta do carro, a SUV blindada de Sérgio arrancou com tanta violência que os pneus cantaram no asfalto, ganhando a estrada mais rápido do que eu consegui subir os primeiros degraus da escadaria de mármore do hall principal. Ele fugiu. Fugiu da própria frustração, fugiu do fogo que ele mesmo tinha acendido e, acima de tudo, fugiu de mim. Quando entrei na sa







