LOGINponto de Vista de Daniel
Por séculos, nas noites de lua cheia, acontecia um ritual bárbaro em que todos os machos, durante três noites seguidas, caçavam e acasalavam selvagemente, entregando-se totalmente ao instinto animal. Deixavam a razão para trás e partiam para a caça de humanos, como se ainda vivessem nos tempos antigos. Era um ato arcaico, coisa que a maioria de nós abandonou há muito tempo. No entanto, algumas matilhas ainda mantêm essa tradição cruel — especialmente a Matilha Lua Negra, uma das maiores das Américas, localizada próxima a uma pequena cidade humana esquecida pelo mundo.
Nem mesmo eu, com todo o meu poder como Rei do mundo sobrenatural, consegui acabar com essa prática absurda. Em muitos lugares ela já foi extinta, mas a Matilha Lua Negra sempre levou os costumes antigos a sério — a sério demais, para o meu gosto. “A Maior Caçada de Todas” era como os da nossa espécie chamavam esse ritual. Nessas noites, eles viviam como lobisomens primitivos: caçavam qualquer ser vivo que cruzasse o seu caminho e acasalavam desenfreadamente sob a luz da lua cheia.
Eu nunca concordei com isso. Esse estilo de vida bárbaro só expõe a nossa existência. Por isso, tentei usar minha influência para convencê-los a se conterem, a se manterem afastados dos humanos, a caçarem apenas na floresta. Pelo menos, era o que eu pretendia.
Meu nome é Daniel Ferrari. Sou o Rei dos Sobrenaturais. O Alfa dos Alfas. Um Crinos — a linhagem mais antiga e poderosa entre os lobisomens. Tenho força suficiente para destroçar qualquer criatura em questão de segundos. Diferentemente dos outros lobos, posso viver por muitos séculos mantendo a aparência jovem. Ainda assim, como todos da minha espécie, só posso ter filhotes com a minha verdadeira companheira — a minha alma gêmea.
Mas, há muito tempo, um massacre mudou tudo. Os sobrenaturais quase foram extintos... por minha espécie. Ou melhor, por minha família. Somos criaturas sedentas por sangue e poder, e muitas vezes matamos só por prazer. Em uma dessas chacinas, meu pai atacou um coven de bruxas poderosas, exterminando todas. Mas, antes de morrerem, elas lançaram uma maldição cruel:
“Nenhum Crinos encontrará sua verdadeira companheira. O fim da linhagem será selado.”
Depois disso, minha mãe morreu, meu pai enlouqueceu, meus irmãos se mataram... e, num piscar de olhos, eu era o último da minha linhagem.
Embora eu aparente ter 30 anos, tenho 450. Meço 1,95 m, tenho cabelos pretos na altura dos ombros, olhos âmbar e pele bronzeada. Sempre sonhei em encontrar minha companheira. Mas, após tantos anos esperando, cheguei à conclusão de que ela simplesmente não existe. Para estar ao meu lado, ela teria que ser uma Crinos — e, como eu sou o último, jamais a encontrarei.
Apesar disso, divirto-me com as lobas disponíveis. Nunca me faltaram amantes.
Quando cheguei à Matilha Lua Negra com meus betas, os gêmeos Jenes e Jonas, e minha chefe de segurança Karina — minha Delta e também uma excelente companhia na cama —, fomos recebidos pelo Alfa David, sua lua Anabela, o beta Toni e sua companheira Priscila. A recepção foi calorosa. Todos pareciam eufóricos com a minha presença. Eu não costumava visitar matilhas, então minha chegada virou uma verdadeira celebração.
David convidou-me para participar do Grande Ritual da Lua Cheia, que começaria naquela noite e duraria três dias. Se um lobo encontrasse sua companheira durante o ritual, eles acasalariam por três noites seguidas, sem descanso.
Saí dos meus pensamentos com a saudação de David:
— Bem-vindo à alcateia Lua Negra, Rei Daniel Ferrari — disse ele, fazendo uma reverência. Logo em seguida, ajoelhou-se diante de mim, como era tradição.
— É um prazer finalmente conhecer a Matilha Lua Negra. Agradeço pela recepção — respondi com formalidade.
Após os cumprimentos e cerimônias, fui para os meus aposentos. Precisava descansar antes de a noite cair. Mas algo me incomodava. Senti meu lobo, Vulcano, inquieto como nunca.
“O que está acontecendo?”, perguntei mentalmente.
“Não sei...”, ele respondeu, em alerta.
Eu também me sentia estranho. Como se algo prestes a acontecer fosse mudar tudo.
“Fique alerta”, ordenei.
Depois de um banho relaxante, chamei Karina para aliviar a tensão. Mas, assim que ela me tocou, Vulcano rosnou de forma ameaçadora. Ela se ajoelhou, tentando abrir minhas calças, mas eu a empurrei com força e a expulsei, usando minha voz de fera. Assustada, ela saiu correndo. Frustrado, perguntei ao meu lobo por que ele fizera aquilo.
“Não quero nenhuma puta me tocando”, ele respondeu com desdém.
Vesti meu melhor terno cinza-chumbo e saí para tomar ar. Estava sufocado. Encontrei meus betas e o Alfa David, que sugeriu irmos até a cidade próxima. Um barzinho qualquer onde alguns lobos jogavam cartas, bebiam e esperavam a lua subir. Pareceu-me chato, mas, curiosamente, Vulcano ficou animado.
O lugar era um muquifo: lobas dançavam no balcão, e vários lobos esperavam o início do ritual. Subimos para o segundo andar, onde bebemos um bom uísque — eu nunca ficava bêbado, mas gostava do sabor forte e marcante.
A noite caiu. As jovens lobas começavam a se preparar para a caçada. Vulcano se agitava dentro de mim, ansioso.
“Esqueça isso”, repreendi. “Não vamos participar de um ritual arcaico.”
Ele rosnou de volta, furioso, e se fechou em silêncio dentro da minha mente. Fiquei aliviado.
Foi quando ouvi uma confusão no andar de baixo. Um som qualquer… seguido de um cheiro. Um aroma doce, viciante. Chocolate e morangos. Estranhamente, dois sabores de que eu nunca gostei… mas, naquele instante, minha boca se encheu d’água. Vulcano despertou com um rugido que fez o chão estremecer. Todos ao meu redor se encolheram. Quando ele aparece assim… alguém geralmente morre.
Mas não hoje.
Hoje era diferente.
Num salto, desci as escadas, sem me importar com ninguém. E então eu a vi. A fonte do cheiro. A mulher mais linda que já vira.
Pele clara, bochechas coradas, lábios carnudos, olhos verdes como esmeralda brilhando sob a luz da lua. Cabelos vermelhos e longos, com ondas nas pontas. Mesmo usando um vestido largo com um casaco por cima, eu via o seu corpo: seios fartos, quadris largos, coxas grossas. Meu lobo enlouqueceu.
Um lobo tocou no braço dela.
Rosnei. Joguei-o contra a parede com um só movimento.
Ela estremeceu de medo. Aproximei-me do seu ouvido e sussurrei, rouco:
— Você vai ser minha mulher esta noite. Eu vou te foder até o amanhecer.
Ela tentou correr. Segurei-a pela cintura, enterrei o rosto em seu pescoço, inalando o perfume mais viciante que já senti. Lambi o local onde fincarei minhas presas. Seu corpo ficou rígido. Ao soltá-la, ela correu com os olhos arregalados, puxou o capuz sobre a cabeça e sumiu porta afora.
Dei um rosnado tão poderoso que fez as paredes tremerem. Minha voz, possuída pela fera, ecoou:
— Minha! Só minha! Quem se aproximar dela... morrerá.
Todos abaixaram a cabeça em sinal de submissão. Arranquei minha camisa e chutei os sapatos. Fiquei só de calça, pronto para caçar.
Meus betas se aproximaram:
— Senhor... ela parece só uma garota. Acha mesmo que resistirá ao acasalamento?
— Eu espero que sim… Porque eu não posso mais conter minha fera — respondi, deixando Vulcano tomar o controle.
Rosnando, minha voz monstruosa anunciou a sentença:
— Eu vou te pegar, pequena Chapeuzinho Vermelho. Estou indo... minha pequena vermelha.
Ponto de Vista de Lucy Centenas de criaturas permaneciam espalhadas pelo salão. Algumas protegiam os feridos, outras se escondiam atrás das colunas. Os representantes que haviam votado pela morte da minha família agora me observavam como se eu fosse uma criatura saída de seus piores pesadelos.Talvez fosse exatamente isso que eu havia me tornado aos olhos deles.Uma ameaça.Um monstro.A criatura que as antigas profecias anunciavam.Mas eu não estava interessada no que pensavam de mim.A única coisa que importava era a segurança da minha família.— Olhem bem para mim! — gritei.Minha voz percorreu o salão.— Vocês me chamaram de humana. Riram de mim. Acreditaram que poderiam me matar e continuar com suas vidas como se nada tivesse acontecido.Ergui o queixo.— Vocês prenderam minhas filhas. Torturaram meu marido. Condenaram minha família sem sequer se importarem com o que realmente aconteceu.Daniel continuava parado, observando-me com uma expressão que misturava choque e incredulida
Ponto de Vista de Lucy Chamas se espalharam pelo chão, e uma onda de calor atingiu a multidão. Criaturas gritaram e recuaram. A fumaça tomou o espaço onde eu estava, escondendo meu corpo por alguns instantes.Ouvi alguém comemorar.— Ela está morta!Permaneci imóvel dentro da fumaça.Fechei os olhos.E deixei meu poder despertar.A energia se expandiu ao meu redor, envolvendo meu corpo como uma barreira invisível. O fogo se curvou antes de me alcançar. As chamas perderam força, e a explosão se desfez contra uma proteção que nenhuma daquelas criaturas compreendia.Quando a fumaça começou a se dissipar, dei um passo à frente.Inteira.Sem um único ferimento.O feiticeiro arregalou os olhos.— Isso é impossível...Sorri.— Bingo.O sorriso desapareceu do meu rosto.— Eu nunca disse que era humana. Falando deixei meu poder despertar. O salão ficou em silêncio.Senti o medo se espalhar entre as criaturas. Algumas reconheceram a natureza da energia que preenchia o ambiente. Outras apenas
Ponto de Vista de Lucy Aquelas criaturas haviam colocado minhas filhas em uma gaiola e transformado a morte delas em um espetáculo.Senti alguma coisa se mover dentro de mim.Uma energia antiga, imensa, que parecia despertar de um sono profundo.Respirei lentamente.Não agora, Lucy.Primeiro, tire sua família dali.Depois, faça esses monstros entenderem o erro que cometeram.Josi tocou discretamente meu braço.— Lucy...— Eu estou bem.Era mentira.Eu estava furiosa.Mas a raiva precisava esperar até o momento certo.Misturei-me à multidão e avancei o suficiente para enxergar a plataforma principal. Daniel estava sentado no centro, cercado por seus aliados. Sua postura demonstrava a segurança de alguém que acreditava ter vencido antes mesmo de a batalha começar.Eu o reconheci imediatamente.O rei dos lobisomens.O homem que possui meu corpo e me fez acreditar que me amava.O homem que me queria apenas para gerar seus filhos, já que eu era apenas uma humana fraca. Ele parecia satisf
Ponto de Vista de LucyA Islândia nos recebeu com um frio cortante, mas eu mal conseguia senti-lo.Meu corpo estava tenso, meus pensamentos giravam em torno de uma única coisa e meu coração parecia bater no ritmo de uma contagem regressiva.Minha família estava naquela fortaleza.Alexandre. Luana. Lis.Eu não sabia em que condições os encontraria. Não sabia quantos guardas protegiam o lugar, quantas criaturas estariam presentes ou até onde Daniel seria capa de olhar de novo para Daniel. Mas havia uma coisa que eu sabia.Eu não sairia dali sem minha família.O carro parou a uma distância segura da propriedade. À nossa frente, a fortaleza se erguia sobre o terreno gelado, cercada por muros de pedra e protegida por criaturas que vigiavam cada acesso. Era um lugar antigo, construído para resistir a invasões e esconder segredos que provavelmente existiam muito antes de eu nascer.Observei as torres, as janelas estreitas e os homens armados espalhados pelo perímetro.Não seria possível ent
Ponto de Vista de Daniel Eu fiquei parado sem reação. Não Aquilo não podia ser verdade.— Lucy... — murmurei, sem perceber que havia falado em voz alta.Ela não olhou para mim.Seus olhos estavam fixos em Alexandre e nas meninas.E, quando uma das pequenas gritou novamente por ela, Lucy deu um passo na direção da gaiola.— Mamãe! — Luana chorou.— Estou aqui, meu amor! — respondeu Lucy. — Vou tirar vocês daí. Prometo!Alexandre tentou erguer a cabeça.— Lucy, não!A voz dele estava rouca, mas carregava urgência.— Você não devia ter vindo!Ela finalmente olhou para o marido.Por um breve instante, sua expressão mudou. O sofrimento atravessou seu rosto quando viu o estado em que ele se encontrava.Então a dor desapareceu, substituída por uma frieza assustadora.— Eu não vou deixar vocês morrerem aqui.Meu lobo rosnou dentro de mim.Ela está sofrendo. Por eles!Apertei os punhos.Eu era o rei daquela alcateia. Aquele salão estava sob meu comando. Todas as espécies reunidas ali tinham
Ponto de Vista de Daniel A multidão repetia as palavras, cada vez mais alto. Alguns erguiam os punhos; outros batiam os pés no chão. O barulho reverberava entre as colunas, transformando o salão em uma massa de vozes sedentas por vingança.Eu deveria estar satisfeito.A vitória estava diante de mim.Mas, enquanto observava aquela demonstração de poder, uma sensação estranha me atravessou. Não era medo. Eu não tinha motivos para temer. Nenhum inimigo conseguiria entrar naquela fortaleza sem ser detectado.Ainda assim, algo parecia fora do lugar.Então uma voz surgiu no meio da multidão.Uma voz feminina.— Vocês não estão com todos os Romanos.As palavras atravessaram o salão com uma clareza que fez os gritos diminuírem.Franzi a testa.— O quê? — perguntei.A multidão se abriu parcialmente, revelando uma figura parada entre os representantes. Era uma mulher coberta por um longo manto escuro, com o rosto escondido sob um capuz.Ela não parecia intimidada pelos guardas.Também não pare







