MasukLuci
Abro os olhos lentamente. O quarto é branco, com cheiro forte de desinfetante. Por um instante, me sinto feliz, achando que finalmente estou morta. Talvez este seja o além. Mas assim que minha visão se ajusta, vejo fios nos meus braços conectados a uma máquina. Fecho os olhos de novo, torcendo para que a escuridão volte… mas ela não volta.
Nem a morte me quer.
Sou um peso na vida de todos. Meu pai me odeia, o único amigo — e amor de infância — tem vergonha de mim. Ninguém me quer por perto. Nem mesmo a morte me aceita.
Abro os olhos novamente ao ouvir vozes do lado de fora do quarto. Reconheço uma delas: é meu pai. A outra deve ser do médico. Meu pai grita:
— Minha filha não vai para um hospital de loucos!
— Não é um hospital de loucos, é uma clínica de terapia — responde uma voz calma, que imagino ser do médico.
— Clínica de terapia, hospital de loucos, hospício… tudo a mesma porcaria. E a minha resposta é não. Isso vai manchar a imagem da minha empresa!
Por um instante, pensei que ele se importasse comigo. Mas não. Só se importa com o dinheiro e a reputação.
— Ela já tentou se matar duas vezes — diz o médico, agora firme. — Isso não é mais uma escolha. Ela precisa de tratamento, e está claro que sua casa não é o lugar adequado pra isso. Queira ou não, ela precisa ser tratada fora dali.
— Doutor, e se ela fosse se tratar no campo? Talvez andar a cavalo, respirar ar puro… isso pode ajudar — sugere uma voz doce e enjoativa. Eu sei bem quem é.
— Talvez… — o médico hesita. — Mas ela terá que continuar o tratamento, tomar os remédios, e precisa de um profissional com ela o tempo todo.
— Então estamos combinados! Há uma fazenda perto de uma cidade pequena, no interior. Fica com meus tios, um casal de idosos. Acho que ela vai adorar ficar lá.
Eles decidem minha sentença sem nem perguntar se eu concordo. Ninguém entra no quarto para saber como estou. Apenas vão embora.
Minha dor cresce. Eles não me querem por perto. Querem distância. Por que a morte também não me quer?
Abraço meu corpo sem me importar com os fios que se soltam do meu braço. O sangue escorre, e uma enfermeira entra assustada. Ela diz palavras bonitas, mas eu mal ouço. Arruma o soro, me ajuda a deitar, acaricia meu rosto com delicadeza e mexe nos meus cabelos. Olho para aquela mulher bonita e me sinto confusa. Nunca recebi tanta gentileza de um estranho.
Antes de eu dormir novamente, ouço sua voz suave:
— Eu vou cuidar de você agora.
Fecho os olhos e, dessa vez, a escuridão me acolhe.
Acordo já à noite. O hospital está silencioso. Não há mais fios em meu braço. Sento-me na cama, pensando em como minha vida é triste e solitária. Será que um dia alguém vai me amar?
Enquanto me perco nesses pensamentos, a porta se abre. A mesma enfermeira entra sorrindo:
— Você acordou? Meu nome é Katia. Sou sua enfermeira particular, o que significa que você vai me aturar por muito, muito tempo — ela diz, brincando.
Estendo a mão, tímida:
— Luciana Martins… mas pode me chamar de Luci. É um prazer te conhecer, Katia.
Ela parece legal. Conversamos por um bom tempo. Ela me contou que em breve iremos para uma fazenda no fim do mundo — ou no meio do nada, como ela mesma disse — para que eu me recupere do “estresse”. Não com essas palavras, mas foi o que entendi. Ou o que eu queria entender. Não espero mais nada de ninguém, então apenas balancei a cabeça, concordando com tudo.
Katia parecia jovem demais para ser enfermeira. Tinha cabelos pretos presos num coque, olhos castanhos, magra e muito bonita. Enquanto eu... era apenas uma garota gorda, feia e invisível.
Depois de conversarmos um pouco, peguei no sono. Quando acordei, já era manhã e ela não estava mais no quarto. Logo a porta se abriu e o médico entrou com uma pasta na mão. Me examinou, escreveu algo e depois disse:
— Você está muito melhor agora. Espero que nunca mais tente fazer aquilo de novo. Você é jovem, tem uma vida inteira pela frente.
Assenti com a cabeça.
— Vamos levá-la a um lugar tranquilo, onde vai se sentir melhor — completou, enquanto Katia entrava no quarto com roupas limpas para eu me trocar.
Já pronta, perguntei:
— Onde está meu pai?
O médico disfarçou e respondeu:
— Ele teve uma reunião importante.
Eu já esperava por isso. Ele não apareceria nem para se despedir. Segurei as lágrimas e segui com Katia até a saída do hospital.
Do lado de fora, havia um carro grande esperando. Dois homens estranhos que eu nunca tinha visto estavam no banco da frente — um dirigia, o outro estava ao lado. Eu e Katia fomos atrás. Seguimos viagem para um destino desconhecido. Logo deixamos a cidade para trás. As paisagens mudaram: mais árvores, menos prédios. Estradas vazias. Tudo me deixava desconfortável. Aqueles homens… tinham uma energia estranha.
Entramos numa cidadezinha minúscula. Vi uma lanchonete e falei que precisava usar o banheiro. Um dos homens olhou pelo retrovisor e sorriu torto:
— Você não está a passeio, mocinha. Logo vai entender.
— Como é? — Katia se virou, irritada. — Vocês foram contratados para nos levar até a fazenda!
O motorista soltou uma gargalhada terrível:
— Não. Fomos pagos para levar vocês para um lugar… de onde nunca mais vão sair. Mas antes... vamos brincar um pouco.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Antes que qualquer coisa acontecesse, uma caminhonete atravessou na frente do nosso carro, obrigando o motorista a frear bruscamente. Katia aproveitou o momento, me empurrou para fora do carro e gritou:
— Corre, Luci! Corre!
Uma força que eu nem sabia que tinha tomou conta de mim. Corri em direção à lanchonete. Mas talvez tenha sido o pior lugar possível. Assim que entrei, senti os olhares. Homens estranhos me observavam como se eu fosse um pedaço de carne.
Meu corpo tremia — de medo ou adrenalina, eu não sabia.
Fui até o balcão. Um homem com cara de poucos amigos me encarou.
— Posso usar seu telefone? — perguntei, com a voz trêmula.
— Não. Cai fora daqui — ele respondeu, ríspido.
Comecei a discutir, desesperada. Logo outros homens se aproximaram, cercando-me. Foi quando ouvi um rosnado alto e assustador.
Um homem enorme pulou na minha frente. Tinha olhos âmbar, cabelo preto na altura dos ombros, pele bronzeada, corpo musculoso. Era gigante. E... lindo. Um verdadeiro deus grego.
Enquanto eu o admirava, senti uma mão agarrando meu braço — um dos estranhos do carro. O homem diante de mim mudou de expressão. Seus olhos brilharam em vermelho. Em um segundo, ele me puxou para perto de seu peito e lançou o outro homem longe com um só movimento.
Ele me abraçou com firmeza. Fiquei nervosa. Mas suas palavras me fizeram estremecer.
Ele cheirou meu pescoço... lambeu minha pele... e então me soltou.
Foi aí que fiz o que sabia fazer de melhor: fugi.
Ponto de Vista de Lucy Centenas de criaturas permaneciam espalhadas pelo salão. Algumas protegiam os feridos, outras se escondiam atrás das colunas. Os representantes que haviam votado pela morte da minha família agora me observavam como se eu fosse uma criatura saída de seus piores pesadelos.Talvez fosse exatamente isso que eu havia me tornado aos olhos deles.Uma ameaça.Um monstro.A criatura que as antigas profecias anunciavam.Mas eu não estava interessada no que pensavam de mim.A única coisa que importava era a segurança da minha família.— Olhem bem para mim! — gritei.Minha voz percorreu o salão.— Vocês me chamaram de humana. Riram de mim. Acreditaram que poderiam me matar e continuar com suas vidas como se nada tivesse acontecido.Ergui o queixo.— Vocês prenderam minhas filhas. Torturaram meu marido. Condenaram minha família sem sequer se importarem com o que realmente aconteceu.Daniel continuava parado, observando-me com uma expressão que misturava choque e incredulida
Ponto de Vista de Lucy Chamas se espalharam pelo chão, e uma onda de calor atingiu a multidão. Criaturas gritaram e recuaram. A fumaça tomou o espaço onde eu estava, escondendo meu corpo por alguns instantes.Ouvi alguém comemorar.— Ela está morta!Permaneci imóvel dentro da fumaça.Fechei os olhos.E deixei meu poder despertar.A energia se expandiu ao meu redor, envolvendo meu corpo como uma barreira invisível. O fogo se curvou antes de me alcançar. As chamas perderam força, e a explosão se desfez contra uma proteção que nenhuma daquelas criaturas compreendia.Quando a fumaça começou a se dissipar, dei um passo à frente.Inteira.Sem um único ferimento.O feiticeiro arregalou os olhos.— Isso é impossível...Sorri.— Bingo.O sorriso desapareceu do meu rosto.— Eu nunca disse que era humana. Falando deixei meu poder despertar. O salão ficou em silêncio.Senti o medo se espalhar entre as criaturas. Algumas reconheceram a natureza da energia que preenchia o ambiente. Outras apenas
Ponto de Vista de Lucy Aquelas criaturas haviam colocado minhas filhas em uma gaiola e transformado a morte delas em um espetáculo.Senti alguma coisa se mover dentro de mim.Uma energia antiga, imensa, que parecia despertar de um sono profundo.Respirei lentamente.Não agora, Lucy.Primeiro, tire sua família dali.Depois, faça esses monstros entenderem o erro que cometeram.Josi tocou discretamente meu braço.— Lucy...— Eu estou bem.Era mentira.Eu estava furiosa.Mas a raiva precisava esperar até o momento certo.Misturei-me à multidão e avancei o suficiente para enxergar a plataforma principal. Daniel estava sentado no centro, cercado por seus aliados. Sua postura demonstrava a segurança de alguém que acreditava ter vencido antes mesmo de a batalha começar.Eu o reconheci imediatamente.O rei dos lobisomens.O homem que possui meu corpo e me fez acreditar que me amava.O homem que me queria apenas para gerar seus filhos, já que eu era apenas uma humana fraca. Ele parecia satisf
Ponto de Vista de LucyA Islândia nos recebeu com um frio cortante, mas eu mal conseguia senti-lo.Meu corpo estava tenso, meus pensamentos giravam em torno de uma única coisa e meu coração parecia bater no ritmo de uma contagem regressiva.Minha família estava naquela fortaleza.Alexandre. Luana. Lis.Eu não sabia em que condições os encontraria. Não sabia quantos guardas protegiam o lugar, quantas criaturas estariam presentes ou até onde Daniel seria capa de olhar de novo para Daniel. Mas havia uma coisa que eu sabia.Eu não sairia dali sem minha família.O carro parou a uma distância segura da propriedade. À nossa frente, a fortaleza se erguia sobre o terreno gelado, cercada por muros de pedra e protegida por criaturas que vigiavam cada acesso. Era um lugar antigo, construído para resistir a invasões e esconder segredos que provavelmente existiam muito antes de eu nascer.Observei as torres, as janelas estreitas e os homens armados espalhados pelo perímetro.Não seria possível ent
Ponto de Vista de Daniel Eu fiquei parado sem reação. Não Aquilo não podia ser verdade.— Lucy... — murmurei, sem perceber que havia falado em voz alta.Ela não olhou para mim.Seus olhos estavam fixos em Alexandre e nas meninas.E, quando uma das pequenas gritou novamente por ela, Lucy deu um passo na direção da gaiola.— Mamãe! — Luana chorou.— Estou aqui, meu amor! — respondeu Lucy. — Vou tirar vocês daí. Prometo!Alexandre tentou erguer a cabeça.— Lucy, não!A voz dele estava rouca, mas carregava urgência.— Você não devia ter vindo!Ela finalmente olhou para o marido.Por um breve instante, sua expressão mudou. O sofrimento atravessou seu rosto quando viu o estado em que ele se encontrava.Então a dor desapareceu, substituída por uma frieza assustadora.— Eu não vou deixar vocês morrerem aqui.Meu lobo rosnou dentro de mim.Ela está sofrendo. Por eles!Apertei os punhos.Eu era o rei daquela alcateia. Aquele salão estava sob meu comando. Todas as espécies reunidas ali tinham
Ponto de Vista de Daniel A multidão repetia as palavras, cada vez mais alto. Alguns erguiam os punhos; outros batiam os pés no chão. O barulho reverberava entre as colunas, transformando o salão em uma massa de vozes sedentas por vingança.Eu deveria estar satisfeito.A vitória estava diante de mim.Mas, enquanto observava aquela demonstração de poder, uma sensação estranha me atravessou. Não era medo. Eu não tinha motivos para temer. Nenhum inimigo conseguiria entrar naquela fortaleza sem ser detectado.Ainda assim, algo parecia fora do lugar.Então uma voz surgiu no meio da multidão.Uma voz feminina.— Vocês não estão com todos os Romanos.As palavras atravessaram o salão com uma clareza que fez os gritos diminuírem.Franzi a testa.— O quê? — perguntei.A multidão se abriu parcialmente, revelando uma figura parada entre os representantes. Era uma mulher coberta por um longo manto escuro, com o rosto escondido sob um capuz.Ela não parecia intimidada pelos guardas.Também não pare







