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Nem mesmo a morte me quer

Author: Leide
last update publish date: 2026-09-03 03:54:04

Luci

Abro os olhos lentamente. O quarto é branco, com cheiro forte de desinfetante. Por um instante, me sinto feliz, achando que finalmente estou morta. Talvez este seja o além. Mas assim que minha visão se ajusta, vejo fios nos meus braços conectados a uma máquina. Fecho os olhos de novo, torcendo para que a escuridão volte… mas ela não volta.

Nem a morte me quer.

Sou um peso na vida de todos. Meu pai me odeia, o único amigo — e amor de infância — tem vergonha de mim. Ninguém me quer por perto. Nem mesmo a morte me aceita.

Abro os olhos novamente ao ouvir vozes do lado de fora do quarto. Reconheço uma delas: é meu pai. A outra deve ser do médico. Meu pai grita:

— Minha filha não vai para um hospital de loucos!

— Não é um hospital de loucos, é uma clínica de terapia — responde uma voz calma, que imagino ser do médico.

— Clínica de terapia, hospital de loucos, hospício… tudo a mesma porcaria. E a minha resposta é não. Isso vai manchar a imagem da minha empresa!

Por um instante, pensei que ele se importasse comigo. Mas não. Só se importa com o dinheiro e a reputação.

— Ela já tentou se matar duas vezes — diz o médico, agora firme. — Isso não é mais uma escolha. Ela precisa de tratamento, e está claro que sua casa não é o lugar adequado pra isso. Queira ou não, ela precisa ser tratada fora dali.

— Doutor, e se ela fosse se tratar no campo? Talvez andar a cavalo, respirar ar puro… isso pode ajudar — sugere uma voz doce e enjoativa. Eu sei bem quem é.

— Talvez… — o médico hesita. — Mas ela terá que continuar o tratamento, tomar os remédios, e precisa de um profissional com ela o tempo todo.

— Então estamos combinados! Há uma fazenda perto de uma cidade pequena, no interior. Fica com meus tios, um casal de idosos. Acho que ela vai adorar ficar lá.

Eles decidem minha sentença sem nem perguntar se eu concordo. Ninguém entra no quarto para saber como estou. Apenas vão embora.

Minha dor cresce. Eles não me querem por perto. Querem distância. Por que a morte também não me quer?

Abraço meu corpo sem me importar com os fios que se soltam do meu braço. O sangue escorre, e uma enfermeira entra assustada. Ela diz palavras bonitas, mas eu mal ouço. Arruma o soro, me ajuda a deitar, acaricia meu rosto com delicadeza e mexe nos meus cabelos. Olho para aquela mulher bonita e me sinto confusa. Nunca recebi tanta gentileza de um estranho.

Antes de eu dormir novamente, ouço sua voz suave:

— Eu vou cuidar de você agora.

Fecho os olhos e, dessa vez, a escuridão me acolhe.

Acordo já à noite. O hospital está silencioso. Não há mais fios em meu braço. Sento-me na cama, pensando em como minha vida é triste e solitária. Será que um dia alguém vai me amar?

Enquanto me perco nesses pensamentos, a porta se abre. A mesma enfermeira entra sorrindo:

— Você acordou? Meu nome é Katia. Sou sua enfermeira particular, o que significa que você vai me aturar por muito, muito tempo — ela diz, brincando.

Estendo a mão, tímida:

— Luciana Martins… mas pode me chamar de Luci. É um prazer te conhecer, Katia.

Ela parece legal. Conversamos por um bom tempo. Ela me contou que em breve iremos para uma fazenda no fim do mundo — ou no meio do nada, como ela mesma disse — para que eu me recupere do “estresse”. Não com essas palavras, mas foi o que entendi. Ou o que eu queria entender. Não espero mais nada de ninguém, então apenas balancei a cabeça, concordando com tudo.

Katia parecia jovem demais para ser enfermeira. Tinha cabelos pretos presos num coque, olhos castanhos, magra e muito bonita. Enquanto eu... era apenas uma garota gorda, feia e invisível.

Depois de conversarmos um pouco, peguei no sono. Quando acordei, já era manhã e ela não estava mais no quarto. Logo a porta se abriu e o médico entrou com uma pasta na mão. Me examinou, escreveu algo e depois disse:

— Você está muito melhor agora. Espero que nunca mais tente fazer aquilo de novo. Você é jovem, tem uma vida inteira pela frente.

Assenti com a cabeça.

— Vamos levá-la a um lugar tranquilo, onde vai se sentir melhor — completou, enquanto Katia entrava no quarto com roupas limpas para eu me trocar.

Já pronta, perguntei:

— Onde está meu pai?

O médico disfarçou e respondeu:

— Ele teve uma reunião importante.

Eu já esperava por isso. Ele não apareceria nem para se despedir. Segurei as lágrimas e segui com Katia até a saída do hospital.

Do lado de fora, havia um carro grande esperando. Dois homens estranhos que eu nunca tinha visto estavam no banco da frente — um dirigia, o outro estava ao lado. Eu e Katia fomos atrás. Seguimos viagem para um destino desconhecido. Logo deixamos a cidade para trás. As paisagens mudaram: mais árvores, menos prédios. Estradas vazias. Tudo me deixava desconfortável. Aqueles homens… tinham uma energia estranha.

Entramos numa cidadezinha minúscula. Vi uma lanchonete e falei que precisava usar o banheiro. Um dos homens olhou pelo retrovisor e sorriu torto:

— Você não está a passeio, mocinha. Logo vai entender.

— Como é? — Katia se virou, irritada. — Vocês foram contratados para nos levar até a fazenda!

O motorista soltou uma gargalhada terrível:

— Não. Fomos pagos para levar vocês para um lugar… de onde nunca mais vão sair. Mas antes... vamos brincar um pouco.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Antes que qualquer coisa acontecesse, uma caminhonete atravessou na frente do nosso carro, obrigando o motorista a frear bruscamente. Katia aproveitou o momento, me empurrou para fora do carro e gritou:

— Corre, Luci! Corre!

Uma força que eu nem sabia que tinha tomou conta de mim. Corri em direção à lanchonete. Mas talvez tenha sido o pior lugar possível. Assim que entrei, senti os olhares. Homens estranhos me observavam como se eu fosse um pedaço de carne.

Meu corpo tremia — de medo ou adrenalina, eu não sabia.

Fui até o balcão. Um homem com cara de poucos amigos me encarou.

— Posso usar seu telefone? — perguntei, com a voz trêmula.

— Não. Cai fora daqui — ele respondeu, ríspido.

Comecei a discutir, desesperada. Logo outros homens se aproximaram, cercando-me. Foi quando ouvi um rosnado alto e assustador.

Um homem enorme pulou na minha frente. Tinha olhos âmbar, cabelo preto na altura dos ombros, pele bronzeada, corpo musculoso. Era gigante. E... lindo. Um verdadeiro deus grego.

Enquanto eu o admirava, senti uma mão agarrando meu braço — um dos estranhos do carro. O homem diante de mim mudou de expressão. Seus olhos brilharam em vermelho. Em um segundo, ele me puxou para perto de seu peito e lançou o outro homem longe com um só movimento.

Ele me abraçou com firmeza. Fiquei nervosa. Mas suas palavras me fizeram estremecer.

Ele cheirou meu pescoço... lambeu minha pele... e então me soltou.

Foi aí que fiz o que sabia fazer de melhor: fugi.

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