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Auteur: G.Soares
last update Date de publication: 2026-10-08 19:23:17

O mundo ainda girava.

O salão parecia distante demais, os sons abafados, como se tudo estivesse submerso em água. Léo permanecia sentado, sustentado por dois soldados da guarda. A cabeça latejava, o corpo ardia em febre, e sua Aura — finalmente contida à força — era mantida sob controle por selos rúnicos e elixires amargos.

— Maldição… — murmurou, passando a mão pelo rosto suado.

As lembranças vinham em flashes desconexos e violentos.

A presença de Noara.

O pânico absoluto nos olhos da jovem.

O olhar carregado de ódio de Nero.

E, acima de tudo, aquele frio absoluto que esmagará sua alma.

O Arquiduque do Extremo Norte.

Maximiliano Ferom.

A simples recordação daquela pressão gélida fez seus punhos se fecharem.

— Eu não quis… — disse, mais para si mesmo. — Eu não quis feri-la.

Mas a imagem não o deixava em paz. Noara havia recuado como se estivesse diante de um monstro, um predador impiedoso. Não havia a admiração que ele esperava, nem a timidez de uma noiva prometida. Havia apenas terror.

Isso estava errado. Algo dentro do peito de Léo se retorceu, um incômodo que beirava a dor física.

— Ela deveria… — ele interrompeu a própria frase.

Deveria o quê? Olhar para mim com devoção? Sorrir como nos sonhos que me perseguem?

Os sonhos. Léo fechou os olhos com força. Havia meses que era assombrado por visões de uma jovem de cabelos dourados e olhar devoto, alguém que parecia viver apenas para ele. Mas, na realidade, não havia devoção alguma naquele olhar. Havia apenas o desejo de fugir.

— Por que isso me incomoda tanto… — sussurrou.

Ele amava Elyra. Sempre amara. A jovem doce e gentil que cresceu ao seu lado no feudo, a única que realmente parecia enxergar sua alma por trás do título de herdeiro. Então por que seu peito doía ao lembrar que Noara agora estava sob a proteção de outro?

— Léo…

A voz suave o arrancou do transe. Elyra estava ali, ajoelhada ao seu lado. Os olhos verdes cheios de uma preocupação quase angelical, as mãos delicadas segurando as dele, ignorando o calor residual de sua aura instável.

— Você me assustou — disse ela, com um sorriso frágil e acolhedor. — Pensei que algo terrível tivesse acontecido com seu núcleo de energia.

O coração de Léo desacelerou.

— Desculpe — murmurou, apertando os dedos dela. — Eu perdi o controle da minha Aura. Não sei o que houve.

Elyra inclinou a cabeça, os cabelos ruivos caindo sobre o ombro como fios de seda.

— Não foi culpa sua — respondeu ela, em um tom de voz que era puro mel. — Todos viram que foi um acidente mágico.

Mas havia algo no brilho dos olhos dela. Algo que Léo, em sua confusão, não foi capaz de detectar.

As Sombras de Elyra

Elyra fechou a porta do quarto com cuidado cirúrgico. O sorriso doce e a expressão de preocupação desapareceram no exato instante em que a tranca estalou. Seus olhos verdes tornaram-se frios e calculistas como os de uma serpente observando a presa.

Ela caminhou até a pequena mesa de carvalho e retirou do bolso interno de seu vestido um frasco minúsculo, quase vazio. O líquido lá dentro era límpido como água, mas carregava o destino de uma linhagem inteira.

— Funcionou melhor do que eu imaginei… — murmurou, sua voz agora desprovida de qualquer doçura.

Aquele elixir proibido era uma raridade do submundo, capaz de forçar o núcleo de um cavaleiro a entrar em um estado de combustão espiritual, liberando uma Aura de Opressão incontrolável. Bastaram algumas gotas no vinho de Léo para empurrá-lo além do limite.

Não o bastante para matá-lo, mas o suficiente para causar um escândalo.

— Estava tudo correndo tão bem… — ela sibilou entre dentes — …até aquela Noara aparecer.

O plano de Elyra era simples e cruel: fazer Léo perder o controle e forçá-lo a marcá-la ou desonrá-la publicamente. Nas leis de Solaria, uma vez que as Auras se fundiam em um incidente desse tipo, o casamento era a única saída para evitar o banimento. Elyra, a filha do servo, que por bondade foi enviada à Academia Real para estudar, finalmente teria o título que desejava.

Mas então ela vira o olhar de Léo. Aquele brilho de confusão e obsessão quando ele viu Noara pela primeira vez. Naquele instante, o medo brotou no peito de Elyra.

Na vida passada — uma memória que só ela parecia carregar como uma maldição — Elyra não conseguira o casamento. Mesmo assim, Léo havia se tornado seu escravo emocional. Ele lhe deu luxo, proteção e até os tesouros da família Wil, tudo para compensar o fato de que ele fora obrigado a se casar com Noara.

Léo odiava Noara naquela vida. Ele a culpava por sua infelicidade, por não poder estar com Elyra. E Elyra se deleitava com isso, vivendo como uma rainha nas sombras enquanto Noara definhava.

— Desta vez, eu não serei a amante nas sombras — disse Elyra para o próprio reflexo.

Ela viu como Léo tratará Noara na vida anterior após o ressentimento crescer. Ele a levou ao limite, à perda de um filho, à loucura. Elyra não se importava com a dor de Noara; ela só se importava que, desta vez, o caminho para o trono do condado estivesse limpo.

Retornando ao presente, Elyra recompôs sua máscara. Pegou uma bandeja com caldos leves e remédios fortificantes, praticando o olhar de humildade diante do espelho.

O sorriso inocente e gentil estava de volta. Como se ela fosse a criatura mais pura do palácio.

Como se nunca tivesse planejado aquilo para conseguir o que queria.

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