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A segurança da noiva

Autor: G.Soares
last update Fecha de publicación: 2026-10-04 12:38:23

O quarto destinado a hóspedes de alta nobreza ficava na ala leste do Palácio Wil.

Era amplo e silencioso, com cortinas de veludo pesado e uma lareira cujas brasas ainda não haviam sido acesas. Max entrou sem pedir permissão, ignorando os olhares tensos dos criados que abriram caminho às pressas. Noara ainda estava inconsciente em seus braços — leve demais, a pele ainda quente pelo choque espiritual sob o manto negro.

Max fechou a porta com o pé.

— Saiam — ordenou, curto. — Todos.

Nenhum criado ousou questionar. Em segundos, o quarto mergulhou em silêncio absoluto.

Ele caminhou até a cama e, com um cuidado surpreendente para alguém de sua estatura e fama de guerreiro, deitou Noara sobre os lençóis de seda. Retirou apenas o suficiente do manto para verificar sua pulsação. O rosto da jovem estava pálido; os cílios longos tremiam levemente, como se ela ainda estivesse lutando contra fantasmas em seus sonhos.

Max franziu o cenho.

— Aura de Opressão forçada… — murmurou, em voz baixa. — Imprudentes. Cruéis.

Ajustou o travesseiro, apoiando melhor a cabeça de Noara, e voltou a cobri-la por completo. A essência de sua própria Aura — aquele cheiro de neve e aço frio — permaneceu no quarto, firme e estável, criando uma barreira metafísica contra qualquer outra energia invasora.

Ele afastou apenas dois passos. Não mais que isso.

Quando Noara se mexeu, soltando um suspiro fraco, Max voltou imediatamente, apoiando a mão enluvada na lateral da cama.

— Acorde devagar — disse, a voz grave, porém controlada. — Você está segura.

Os olhos claros de Noara se abriram lentamente. Por um instante, houve confusão. Depois, reconhecimento. E então… um medo contido, aquele reflexo de quem espera um golpe. Max percebeu. Sempre percebia as rachaduras no espírito das pessoas.

— Não se levante — continuou ele, antes que ela tentasse. — Seu fluxo de energia entrou em choque. Movimentos bruscos podem causar um colapso interno.

Noara engoliu em seco, a voz quase um fio:

— …Onde estou?

— No Palácio Wil. Em um quarto protegido — respondeu Max, após uma breve pausa. — Sob minha guarda.

Silêncio. Noara respirava com cuidado, como se testasse se o ar ainda pesava. Quando percebeu que a pressão sufocante da Aura hostil havia desaparecido, substituída pela calmaria fria de Max, seus ombros relaxaram minimamente.

Max endireitou a postura, a sombra de sua capa projetando-se na parede.

— Agora, escute com atenção — disse ele. — Vou estabelecer algumas regras. Não são pedidos.

Os olhos de Noara se arregalaram um pouco, mas ela assentiu, cativada pela autoridade dele.

— Primeira regra: ninguém entra nesse quarto sem a minha autorização expressa. Nem criados, nem nobres, nem cavaleiros curiosos.

— …Tudo bem — sussurrou Noara.

— Segunda: você não ficará sem escolta em eventos públicos enquanto eu estiver em Solaria. Se houver outro cavaleiro presente, eu estarei ao alcance da sua mão.

O coração de Noara apertou — não por medo, mas por um sentimento novo e desconcertante. Proteção real.

— Terceira — continuou Max —: qualquer pessoa que liberar sua Aura de combate perto de você sem o seu consentimento será considerada uma ameaça direta ao Norte. E eu lidarei com isso pessoalmente.

Havia gelo cortante naquela frase. Noara fechou os dedos nos lençóis.

— Eu… não sou fraca — disse ela, em um tom baixo, quase para si mesma, como se precisasse defender sua dignidade.

Max o olhou por um longo momento, uma centelha de respeito surgindo em seus olhos escuros.

— Eu sei — respondeu ele. — Os fracos não sobrevivem ao que você enfrentou hoje. É preciso muita força para manter a sanidade quando a alma de outro tenta esmagar a sua.

As palavras atingiram Noara com força. Seus olhos marejaram, mas ela virou o rosto para o lado, tentando esconder a vulnerabilidade. Max não a obrigou a encará-lo; ele conhecia o valor do silêncio.

— Por fim — disse ele, a voz mais suave —: enquanto este noivado existir, você está sob minha proteção. Não como uma posse a ser guardada, mas como uma responsabilidade que jurei honrar.

Ele se virou em direção à porta.

— Descanse. — Parou por um segundo no batente. — Voltarei antes que acorde de novo.

A mão de Noara se moveu por reflexo, segurando a ponta da capa de Max por um breve instante. Um pedido silencioso para que ele não a deixasse sozinha com seus pensamentos. Max parou. Ele não afastou a mão dela.

— Eu não vou embora — disse apenas. — Prometi segurança. E eu nunca fiz um juramento.

Soltou-se devagar e saiu do quarto, fechando a porta com um cuidado incomum para alguém conhecido como o "Inverno Vivo".

No corredor, Max seguiu em direção ao salão principal. O ambiente estava tomado por passos pesados e vozes alteradas.

— Como ousaram atacar minha filha com uma Aura de Opressão?! — gritou o Duque Wil, liberando sua própria presença de combate. A pressão era tanta que as chamas das tochas vacilavam.

A Duquesa, mãe de Noara, estava ao lado dele. Ela não gritava, mas sua aura era como uma lâmina silenciosa que fazia o ar vibrar. Ela segurava uma espada cerimonial de lâmina negra, o rosto pálido de fúria, enquanto Nero tentava acalmá-la.

— Mãe, por favor, contenha-se! — disse Nero, com esforço para não recuar diante da energia gélida que ela emanava. — Noara está bem agora. O Arquiduque está cuidando dela pessoalmente!

— Você! — a Duquesa virou-se para Nero e deu-lhe t***s indignados no braço da armadura. — Eu lhe confiei a segurança da sua irmã! Como pôde deixá-la sozinha com aqueles abutres da família Liz?!

— Ai, ai! Mãe, pare! Eu sinto muito! — reclamou Nero, encolhendo-se, mais surpreso com o ímpeto da mãe do que com a dor física.

O Duque respirou fundo, tentando conter sua própria raiva, e voltou-se aos capitães da guarda que aguardavam trêmulos.

— O que a família do Conde disse sobre esse "incidente"?

— Eles alegam que não houve intenção por parte do jovem mestre Léo — respondeu um guarda, suando sob o elmo. — Dizem que ele teve um surto de energia súbito. O curandeiro deles afirma que ele foi exposto a uma substância proibida que descontrola o núcleo de Aura de um cavaleiro.

— Eles enviaram presentes e ouro como pedido de perdão — completou outro guarda, sem coragem de olhar nos olhos da Duquesa.

— Proíbam que ele respire o mesmo ar que Noara — disse Max, entrando no salão. Sua voz grave silenciou a discussão imediatamente.

— Isso mesmo! — completou a mãe de Noara, guardando a espada com um estalo seco, mas mantendo o olhar mortal. — Proíbam a entrada de toda a linhagem Liz neste ducado! Se eu vir um deles nas minhas terras, não responderei por mim!

— Sim, Milady! — responderam os guardas, retirando-se às pressas antes que a fúria dela voltasse a transbordar.

A Duquesa correu até Max, os olhos cheios de uma aflição que só uma mãe conhece.

— Arquiduque… como está minha menina?

Max observou o casal Wil. Pela primeira vez, viu com clareza que os rumores eram verdadeiros: por trás da política e dos títulos, eles amavam Noara ferozmente. O Duque era o escudo, mas a Duquesa era a espada que protegia o coração da família.

— Ela está bem — respondeu Max, mantendo seu semblante severo, mas sua voz suavizou um tom. — Apenas exausta. A mente dela precisa de repouso para que a Aura se estabilize.

— Que alívio… — suspirou a Duquesa, levando a mão ao peito. — Vou preparar o caldo de ervas que ela gosta e verificar os curativos. Com licença, senhores.

Ela saiu apressada, as saias pesadas de seu vestido nobre balançando enquanto ela caminhava com a postura de uma guerreira. Para ela, o protocolo real não significava nada perto do bem-estar da filha.

O Duque Wil suspirou, olhando para a porta por onde a esposa saíra. Depois, virou-se para Max com um aceno de cabeça respeitoso.

— Obrigado por intervir e proteger Noara, Arquiduque. Muitos teriam evitado o conflito para não ofender a linhagem dos Liz.

Max sustentou o olhar do Duque, sua Aura de Gelo emanando uma calma absoluta que parecia resfriar o salão inteiro.

— Não precisa agradecer, Duque — respondeu ele. — Noara é minha futura esposa e a futura Grã-Duquesa do Norte. É meu dever, e minha honra, protegê-la de qualquer um que ouse erguer a voz ou a Aura contra ela.

Naquele instante, ficou claro para todos os presentes: o Extremo Norte não tinha vindo apenas para uma união política. Maximiliano havia vindo para reivindicar Noara como parte de seu domínio — e ele não aceitaria nada menos que a segurança total de sua protegida.

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