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Acordando do pesadelo

作者: G.Soares
last update 公開日: 2026-10-04 12:36:29

Noara acordou devagar.

A primeira coisa que senti foi o calor. Não um calor sufocante, mas uma presença firme e estável que a envolvia como uma armadura de lã em meio à nevasca. Seu corpo ainda estava fraco, mas a dor aguda havia sumido. Sua respiração vinha calma, algo que ela não experimentava há anos.

O segundo sentido a despertar foi a percepção da Aura.

Neve e Aço.

Era uma energia limpa, fria e serena, como o silêncio de uma montanha coberta de gelo. Não havia a intenção assassina de antes; não havia a pressão que esmagava seus pulmões. Apenas segurança.

Noara abriu os olhos lentamente. A primeira coisa que viu foi um manto negro, pesado, envolvendo-a por completo. Ela estava deitada contra um peito largo, sentindo o subir e descer tranquilo da respiração de quem a carregava. Um braço forte a sustentava com um cuidado quase reverente.

Ela piscou, confusa, e ergueu o rosto. Viu um queixo firme, a linha forte do pescoço e cabelos negros que caíam como sombras sobre os ombros. Quando seus olhos subiram, encontrou um par de olhos escuros observando-a.

— …Acordou — disse Max, em voz baixa.

A voz era grave, mas sem a rigidez que os boatos atribuíam ao soberano do Norte. Noara tentou se mexer, mas o braço dele apertou-se levemente.

— Não se force — murmurou ele. — Sua circulação de energia foi severamente danificada.

Só então ela percebeu: estava sendo carregada nos braços do Arquiduque do Extremo Norte. O constrangimento ardeu em seu peito, e Noara tentou se afastar, mesmo sem forças.

— Eu… posso caminhar… — sussurrou, a voz rouca.

— Não — respondeu Max, sem hesitar. Não era uma ordem autoritária, era uma constatação de fato.

Noara engoliu em seco, esperando o julgamento ou o nojo que sempre recebia por sua "fraqueza". Mas Max apenas ajustou o manto ao seu redor, bloqueando o vento como se o mundo lá fora fosse perigoso demais para tocá-la.

— Você sofreu um colapso por exposição excessiva à Aura de Opressão — continuou Max, caminhando com passos que faziam o chão de pedra ecoar. — Seu espírito reagiu como se estivesse diante de uma lâmina no pescoço.

Noara fechou os dedos na borda do tecido negro.

— Eu… sinto muito… — murmurou, o pedido de desculpas saindo por puro reflexo.

Max parou de andar. Ele olhou para ela com uma intensidade que a fez prender a respiração, os olhos escuros se estreitando.

— Não se desculpe — disse ele. — A culpa não é da vítima que cai, mas de quem empurra.

As palavras atingiram Noara com mais força do que qualquer golpe físico. Ela não estava acostumada a ser absolvida de sua própria dor. Um nó quente subiu por sua garganta, e ela tentou dizer algo, mas a voz falhou.

Max percebeu o tremor. Sem dizer nada, ele a acomodou mais perto do peito, permitindo que ela apoiasse a cabeça em seu ombro.

— Durma — disse ele. — Ninguém romperá minha barreira enquanto você estiver comigo.

Noara fechou os olhos. Dessa vez, as lágrimas não vieram. Envolta pelo cheiro de neve e pelo som da armadura dele, ela adormeceu sentindo algo que acreditava ter morrido em sua infância: proteção.

Ponto de Vista de Maximiliano

Quando a carta de Solaria chegou ao Extremo Norte, o inverno estava no auge. Max recebeu o contrato de noivado com a indiferença de quem assina um tratado de paz. Uma aliança com a linhagem Wil traria estabilidade ao império. Nada mais.

— Preparem os emissários — ordenou. — Eu irei pessoalmente.

Naquela noite, porém, Max sonhou. Ele viu uma garota de cabelos dourados cercada por sombras que a chicoteavam com intenção assassina. Viu olhos claros cheios de um medo antigo e profundo. Acordou com uma sensação de inquietação que sua espada não conseguia resolver.

Quando finalmente chegou ao palácio dos Wil, o ambiente o enojou. Era quente demais, barulhento demais, hipócrita demais. E então, ele sentiu: uma Aura hostil explodindo em um salão próximo. Era uma energia descontrolada, usada para subjugar e humilhar.

Max entrou no salão e a visão parou.

Lá estava ela. Pequena, encolhida, o rosto pálido e os lábios manchados de sangue pelo esforço de resistir à pressão espiritual de outro cavaleiro. Aquilo não era um treinamento; era tortura.

— Basta — sua voz cortou o ar como um trovão.

Max liberou sua própria Aura de Gelo. O frio absoluto de sua alma inundou a sala, esmagando a pressão do outro alfa como se fosse vidro. Ele avançou sem olhar para os nobres chocados.

Ao tocar Noara, sentiu o quanto ela era leve. Leve demais para alguém que deveria ser a herdeira de uma grande casa. A fúria de Max, antes controlada, tornou-se algo mortal e silencioso.

— Chame os guardas — ordenou aos seus próprios homens, sem desviar os olhos da garota em seus braços. — Quero os nomes de todos que liberaram sua Aura nesta sala.

Enquanto saía com ela, sentiu Noara se aninhar contra seu peito, buscando o frio de sua aura para acalmar a febre do trauma.

— Você está segura agora — murmurou ele, uma promessa que não era para os outros ouvirem, mas para o seu próprio espírito de cavaleiro gravar.

Max compreendeu naquele momento: o destino não o enviará para Solaria para assinar um papel. O destino o enviara para ser a muralha de alguém que o mundo tentou destruir. E ele era o senhor das tempestades; ninguém passaria por ele.

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