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Uma escolha diferente

Author: G.Soares
last update publish date: 2026-10-04 12:35:07

O riso ecoou ao redor.

Música suave preenchia o ar, misturando-se ao tilintar de taças de cristal e ao sussurro elegante dos nobres. Vestidos rodopiavam sob a luz dourada dos candelabros, criando um cenário quase etéreo.

O Salão Real de Solaria estava exatamente como Noara se lembrava.

Bonito demais.

Vivo demais.

Vivo demais… para alguém que já havia morrido.

Noara levou a mão ao peito, os dedos pressionando o tecido delicado do vestido. Seu coração disparava, o ar parecia insuficiente, como se tivesse sido arrancada de um pesadelo profundo — mas não era um sonho.

Ela lembrava de tudo.

Da humilhação.

Da fome.

Do sangue de seu pai tingindo a praça.

Do filho que nunca chegou a nascer.

Do silêncio frio do quarto onde morreu sozinha.

— …Estou viva? — sussurrou.

Sua voz saiu leve. Jovem. Sem o peso dos anos de sofrimento.

Ela abaixou o olhar lentamente.

Suas mãos estavam perfeitas.

Sem cicatrizes.

Sem tremores.

Sem fraqueza.

Seu corpo… estava saudável.

Vestido em seda clara, adornado com jóias finas — a imagem perfeita da filha mimada dos duques Wil.

Intocada.

Inocente.

A Noara de antes da ruína.

Um arrepio percorreu sua espinha.

A memória se encaixou com precisão cruel.

O banquete.

O primeiro encontro.

O começo de tudo.

O início de sua queda.

O momento em que entregou o coração… e perdeu tudo.

Passos ecoaram atrás dela.

Firmes.

Conhecidos.

Noara fechou os olhos por um breve instante — e viu tudo outra vez.

A frieza.

O desprezo.

A execução.

A dor.

Quando abriu os olhos…

Ele estava ali.

Léo.

Mais jovem.

Impecável.

Com a mesma postura rígida, o mesmo olhar distante — o mesmo homem que pisaria em seu coração sem hesitar.

Na vida passada, seu coração teria acelerado de amor.

Agora…

Ela sentiu medo.

E algo novo.

Uma raiva silenciosa, profunda, controlada.

Os olhos dele cruzaram os dela.

Por um segundo.

O mesmo segundo que, antes, havia selado seu destino.

Léo inclinou levemente a cabeça, educado, distante.

— Senhorita Wil — disse formalmente. — É uma honra conhecê-la.

Aquela voz.

A mesma que condenou sua família.

A mesma que disse "eles merecem".

A mesma que a destruiu.

Seu estômago revirou.

Mas Noara sorriu.

Um sorriso perfeito.

Elegante.

Vazio.

— Conde Liz — respondeu com calma. — A honra é minha.

Por dentro, sua alma gritava.

Não.

Desta vez, não.

Ela entendeu naquele instante.

Aquilo era uma segunda chance.

Não para amar.

Mas para sobreviver.

Para mudar tudo.

Para proteger sua família.

E, principalmente…

A si mesma.

A decisão foi imediata.

Nesta vida…

Ela não o amaria.

Jamais.

Noara desviou o olhar primeiro.

Na vida passada, teria seguido cada movimento dele, presa em uma devoção cega.

Agora, deu um passo para trás.

E desapareceu entre a multidão dourada.

—

Léo franziu levemente o cenho.

Algo estava errado.

A jovem que deveria estar encantada… não estava.

Havia algo diferente nela.

E isso o incomodou mais do que deveria.

Há algum tempo, ele vinha tendo sonhos estranhos.

Sonhos com uma figura vaga — alguém de olhar intenso, carregado de sentimentos que ele não compreendia completamente.

Afeto.

Dor.

Devoção.

Mas nunca conseguia ver o rosto com clareza.

Até agora.

Naquele salão…

Ele reconheceu aqueles olhos.

Os olhos de Noara.

Mas havia algo errado.

Eles não estavam cheios de ternura.

Nem de admiração.

Havia distância.

Frieza.

E algo que parecia… medo.

Ele desviou o olhar, inquieto.

Sem entender por quê.

—

Noara caminhava apressada pelo salão tentando manter a compostura.

As lágrimas ameaçavam cair.

Mas ela não permitiria.

Não ali.

Não novamente.

"Eu morri por amar você…"

O pensamento surgiu silencioso.

"…mas desta vez, eu vou viver longe de você."

Ela respirou fundo.

E seguiu em frente.

—

Horas depois, longe do salão principal, Noara foi conduzida a uma sala reservada.

Seus pais já a aguardavam.

O duque e sua consorte estavam em uma conversa baixa, que cessou imediatamente ao vê-la entrar.

— Noara — disse sua mãe, com suavidade —, precisamos conversar.

Na vida passada, ela teria interrompido.

Reclamado.

Exigido.

Agora…

Apenas assentiu.

Calma.

Controlada.

Madura.

Seu pai pigarreou.

— Recebemos uma proposta formal de noivado — começou. — Do Arquiduque do Extremo Norte.

O coração dela apertou.

Mas não de medo.

De memória.

Ela se lembrava.

O Norte.

Frio.

Distante.

Poderoso.

O noivado que ela rejeitou na vida passada… por causa de Léo.

Um erro.

O maior de todos.

— Ele possui vastas terras, exércitos próprios e grande influência — continuou o duque. — Mas é um homem reservado. Pouco se sabe sobre ele.

Sua mãe segurou suas mãos com carinho.

— Não queremos forçá-la, querida. A decisão é sua.

Noara abaixou o olhar.

E viu tudo outra vez.

O sangue.

A perda.

A dor.

A morte.

Preferia o frio do Norte.

Preferia um casamento sem amor.

Preferia distância…

Do que repetir aquela vida.

Quando ergueu o rosto, seus olhos estavam firmes.

Decididos.

— Eu aceito.

O silêncio tomou conta da sala.

— Aceita…? — sua mãe repetiu, surpresa.

— Sim — disse Noara. — Aceito o noivado com o Arquiduque do Extremo Norte.

Seu pai a observou com atenção.

— Tem certeza? Você sempre rejeitou essa ideia.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

Triste.

Mas verdadeiro.

— Eu cresci… e entendi que nem todo casamento precisa começar com amor… desde que não termine em tragédia.

Seus pais trocaram um olhar.

Havia alívio.

E orgulho.

— Então assim será — declarou o duque.

—

Do outro lado do palácio…

Léo observava o salão.

Inquieto.

Ele a procurava.

Sem motivo.

Sem explicação.

Mas ela não estava lá.

A jovem que deveria estar ao seu redor…

Havia desaparecido.

Ele pressionou a têmpora, irritado consigo mesmo.

— O que há de errado comigo…?

Então veio a notícia.

O noivado.

Noara Wil.

E o Arquiduque do Norte.

Algo apertou em seu peito.

Rápido.

Inesperado.

Incômodo.

Não era ciúme.

Não podia ser.

Ele já amava outra pessoa.

Ainda assim…

A sensação permaneceu.

Silenciosa.

Persistente.

—

Enquanto o reino celebrava a nova aliança…

Noara olhava além das janelas do palácio.

Para o horizonte invisível.

Para o Norte.

Para o futuro.

E fez um juramento silencioso:

Nesta vida…

Eu não morrerei por amor.

Se for para casar…

Será por poder.

Por proteção.

Por sobrevivência.

E, pela primeira vez…

Ela escolheu a si mesma.

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