FAZER LOGINHeitor e Ruth saíram da sala da presidência caminhando lado a lado, e a atmosfera pesada que costumava rondar o andar da diretoria simplesmente desapareceu, dando lugar a sorrisos sinceros. Ao passarem pela recepção, Heitor parou em frente à mesa da secretária com uma leveza inédita.— Desmarque todos os meus compromissos da tarde, Paula — ordenou ele, o tom de voz suave. — E ligue para a Dulce. Diga a ela que não se preocupe, pois nós não temos hora para chegar em casa hoje.— Sim, senhor! — respondeu Paula, abrindo um sorriso cúmplice.Ao chegarem perto dos elevadores, Heitor avistou o motorista que aguardava pacientemente.— Eduardo, você está dispensado por hoje. Daqui para frente eu cuido da minha esposa. Leve o carro dela de volta para a mansão e vá descansar.— Sim, senhor. Muito obrigado — agradeceu Eduardo, fazendo um aceno respeitoso para Ruth.— Vamos, meu amor? — perguntou Heitor, sorrindo e estendendo a mão para a esposa.— Sim — consentiu Ruth, encaixando seus dedos nos
— É meu. O capuccino é meu — disse Ruth, girando calmamente a cadeira de couro e encarando o marido com um meio sorriso.Paula quase infartou no meio da sala, prendendo a respiração. A expressão ríspida e imponente de Heitor desmoronou em uma fração de segundo. Os olhos dele se arregalaram, as pastas quase escorregaram de suas mãos e o choque deu lugar a uma emoção pura e avassaladora.— Ruth?! Amor... O que você está fazendo aqui? — gaguejou ele, completamente desarmado. Ele olhou rapidamente para a secretária, com o coração disparado. — Paula, por que você não me chamou imediatamente na sala de reuniões?— É que... — Paula tentou se justificar, com os olhos arregalados. Ela disse... eu pensei que.... — Eu que não deixei, Heitor — interrompeu Ruth, com a voz mansa, mas firme. — Eu queria te fazer uma surpresa.Um sorriso largo e iluminado, que há um tempo não visitava o rosto de Heitor, brotou em seus lábios. Ele caminhou a passos rápidos até ela, curvando-se para lhe dar um breve,
O peso no coração e na alma parecia não dar trégua para Ruth. Era a dor dilacerante do luto de uma família viva. Naquela noite, Heitor chegou mais tarde em casa, com o semblante exausto e visivelmente estressado pela rotina pesada. Ao entrar no quarto e ver Ruth ainda deitada na penumbra, o cansaço acumulado dele transbordou em frustração.— Ruth, você já comeu? — perguntou ele, a voz firme. — Vamos dar uma volta na praça?— Hoje não — respondeu ela, encolhendo-se. Heitor olhou ao redor, os olhos cansados absorvendo o ambiente.— Ruth, você precisa levantar, sair desse quarto! Olha pra mim!Com um esforço doloroso, Ruth sentou-se na cama. Ela estava visivelmente debilitada: os cabelos desgrenhados, olheiras profundas marcando o rosto pálido. Embora passasse o dia deitada, o sono nunca era completo. Ela acordava várias vezes no sobressalto de alucinações terríveis; muitas vezes ouvia a voz de Maria chamando seu nome no vazio e despertava apavorada. Mas guardava o pavor para si. Não qu
O tempo lá fora continuava a correr, mas dentro do quarto de Ruth o relógio parecia ter parado completamente. A mensagem deixada por Ana na barra de notificações foi o último eco do mundo exterior. Depois daquilo, o silêncio se instalou. Ninguém mais a procurou. A mãe e a irmã sumiram, e Ruth também não procurou ninguém. O cordão que a ligava à periferia havia sido cortado de forma abrupta, deixando em seu lugar uma ferida aberta e purulenta.Quase um mês se passou daquela mesma maneira. Trinta dias em que a vida de Ruth se resumiu ao espaço retangular daquela cama. Ela passava as manhãs e as tardes mergulhada em uma sonolência pesada, um desânimo que parecia anestesiar seus músculos. Levantar-se requeria uma energia que ela simplesmente não possuía. O dia passava arrastado sob o olhar impotente e penalizado de Dulce, que subia as escadas com bandejas intocadas. Ruth passou muitos dias sem comer quase nada. A falta de nutrientes começou a cobrar o seu preço físico: às vezes, ao tentar
O sol nasceu tímido na manhã seguinte, clareando as janelas da mansão, mas a atmosfera dentro da casa permanecia densa, carregada com os resquícios da tempestade da noite anterior. Heitor pulou da cama cedo. O sono havia sido leve, interrompido pelo vigília constante da esposa ao seu lado. Ele desceu, encontrou Dulce na cozinha e os dois tomaram café juntos, quase sem trocar palavras, apenas compartilhando a preocupação silenciosa que pairava no ar.Heitor olhava para o relógio a cada cinco minutos. Esperou que Ruth acordasse por conta própria, mas, vendo que o tempo passava rápido e o quarto permanecia no mais absoluto silêncio, ele resolveu subir. Ao abrir a porta, encontrou-a na mesma posição, encolhida.— Amor, acorda... Vem tomar café — chamou ele, aproximando-se com a voz suave.— Não quero — respondeu Ruth, a voz abafada pelo travesseiro, sem sequer abrir os olhos.— Como você está?— Cansada. Só quero dormir.Heitor respirou fundo, engolindo a vontade de insistir. Sabia que fo
As palavras firmes de Heitor ecoavam pelas paredes do quarto, cortando o ar com a força de uma tempestade. Cada grito dele doía profundamente no coração de Ruth, mas, no fundo de sua alma dilacerada, ela sabia que ele tinha total razão. Ela confiou demais. Doou-se além do limite. Abriu totalmente a guarda para quem só sabia atacar. Mesmo conhecendo perfeitamente o histórico de rejeição daquela família, por um breve e ingênuo instante, Ruth achou que algo poderia mudar. Agora, a realidade batia à sua porta da maneira mais cruel e dolorida possível: elas jamais mudariam. Simplesmente porque ali nunca existiu amor verdadeiro.Incapaz de contra-argumentar, Ruth apenas chorava, permitindo que as lágrimas lavassem o rosto enquanto ouvia Heitor esbravejar sua indignação. Foi nesse momento de pura aflição que a porta se abriu. Dulce entrou no quarto com o semblante sério, mas os olhos cheios de compaixão. Olhando fixamente para o patrão, ela ordenou com firmeza:— Saia, Heitor. Deixe-me sozin







