INICIAR SESIÓNA manhã estava fria e a chuva fina começava a embaçar o para-brisa do carro. Noah dirigia com as mãos firmes no volante, embora seu peito subisse e descesse em um ritmo acelerado. Ela conhecia os antigos esconderijos de Jonathan; sabia que, apesar do poder que ele agora ostentava, o lado paranoico dele o faria procurar o lugar mais isolado possível.Ela parou em frente a um galpão abandonado na zona portuária da cidade — o mesmo lugar onde, anos atrás, eles costumavam se esconder para dividir um maço de cigarros e planejar uma fuga que nunca aconteceu por completo.Noah desligou o motor. Ela empurrou a porta pesada de metal do galpão, que rangeu alto. O interior estava na penumbra, iluminado apenas pelos faróis dos carros estacionados lá dentro e pela luz fraca de um notebook sobre uma mesa de ferro.— Eu sabia que você viria — a voz ecoou das sombras.Jonathan deu um passo à frente. Ele vestia um terno sob medida, caro e impecável, mas a postura ainda guardava resquícios do garoto qu
Noah deu um passo à frente, os olhos fixos nos de Elói, brilhando com uma mistura de fúria e decepção.— Quando você perceber que não existe passado nenhum com Jonathan, será o seu maior erro. Aí sim, eu não darei uma única chance a você. Ele está te manipulando e eu não sabia que o meu melhor amigo se tornaria um homem tão cruel. Jonathan nunca foi assim.As palavras dela cortaram o ar do quarto como uma lâmina. Elói piscou, momentaneamente desarmado. A certeza implacável que ele carregava no olhar vacilou.— Melhor amigo? — Elói repetiu, a voz mais baixa, quase áspera. — Noah, o Jonathan que eu conheço...— O Jonathan que você conhece é o monstro que o seu pai criou! — ela o interrompeu, a voz embargada, mas firme. — O Jonathan que eu conheci era a única pessoa que me protegia quando o mundo estava desmoronando. Se ele mudou, se ele se tornou essa criatura fria que trabalha para o seu pai e faz ameaças por telefone, a culpa é sua. Da sua família. Do inferno em que vocês vivem e que
Elói estava acordado, apoiado em um dos braços, observando-a.— Eu não estava fugindo — Noah disse.— Parece muito com uma fuga.Ela soltou um pequeno sorriso. — Você tem um conceito muito dramático sobre tudo.— E você tem um talento impressionante para desaparecer quando as coisas começam a ficar reais.A frase a atingiu mais do que deveria. Noah pegou uma peça de roupa e vestiu-se lentamente. — Talvez porque coisas reais costumem machucar.O sorriso dele desapareceu. Elói sentou-se na cama. — Noah...— Não. — Ela ergueu a mão, impedindo-o de continuar. — Não transforma isso em uma conversa sobre a noite passada. Eu não me arrependo.— Ainda bem.— Mas também não quero acordar amanhã sendo apresentada como sua mulher. Porque eu não sou mulher de ninguém.Aquelas palavras pairaram entre os dois. E, pela primeira vez, Noah percebeu que ele realmente a escutava.— Eu sei.— Sabe mesmo?— Estou aprendendo.Ela respirou fundo. — Porque estar com você não pode significar desaparecer dentr
Maria apenas assentiu, compreensiva, e desapareceu discretamente pelo corredor. O silêncio que ficou entre eles era denso, quase palpável. Elói fechou a porta com calma e se virou para Noah.— Vem comigo — disse apenas.Ela seguiu os passos dele pela casa que, apesar do luxo evidente, tinha algo de melancólico nos detalhes. Cada quadro bem posicionado, cada móvel escolhido a dedo... Parecia tudo montado para impressionar, mas vazio de calor. Como ele era por dentro.Subimos a escada sem trocar uma palavra. Noah sentia o peso do dia nos ombros, mas também algo elétrico correndo por suas veias. A tensão entre eles não era nova. Era antiga, abafada por deveres, códigos de conduta e o medo de quebrar barreiras. Mas ali, naquele momento, não havia mais desculpas. Não havia mais ninguém.Ao chegarem ao quarto, Elói parou diante da porta, encarando-a como se pedisse permissão para algo mais que entrar.— Noah — ele começou, a voz baixa — eu sei que ainda estou longe de ser o homem que você m
Não sou mulher de ninguém — Senhor Riveira — ela começou, séria — há acusações de uso indevido de dados pessoais, manipulação de processos seletivos e relação imprópria com uma funcionária. Deseja se manifestar? Elói se levantou. Me olhou por um segundo, como quem diz “confia em mim”. — Sim, desejo. E então, com a voz firme e sem rodeios, disse: — Todas as acusações têm fundo de verdade. Eu cometi erros. Obsessivos. Perigosos. Mas não usei minha posição para forçar ninguém a força , e estou disposto a abrir mão do meu cargo se for o preço da verdade. Um murmúrio se espalhou. A Sra. Cho o observou em silêncio, depois virou-se para mim. — E você, Srta. Noah? Foi coagida? Há algo que queira relatar? Me levantei, sentindo cada olhar me perfurar. — Fui observada. E isso me feriu. Mas hoje estou aqui por escolha. E escolho não me calar, mas também não fugir. Elói errou. Mas também teve coragem de parar. De se despir do poder por algo maior. Houve uma pausa pesada, até que Ál
Não sou mulher de ninguém Ficamos em silêncio por um tempo. O vento soprava leve, balançando as folhas ao nosso redor, e eu podia sentir a dor dele pairando entre nós como uma sombra que ainda não havia se dissipado. Mas não era uma sombra que assustava… era humana. Real. Elói apertou meus dedos com delicadeza, como se aquele simples toque fosse um pedido de permissão para continuar. — Marina era meu oposto — ele começou, a voz rouca. — Sonhadora, intensa… fazia questão de viver cada dia como se fosse o último. E talvez por isso tenha partido tão cedo. Ele desviou o olhar para o lago, como se ainda visse algo — ou alguém — ali. — Ela morreu num acidente de carro. Chovia muito. Eu deveria estar com ela naquela noite, mas cancelei de última hora por causa de uma reunião. — Fechou os olhos por um instante. — Passei anos tentando me perdoar por isso. Senti um aperto no peito. A vulnerabilidade dele me tocava de um jeito que poucas verdades tocam: aquela que vem de uma dor transf







