MasukParte 1A mais de cinquenta quilômetros da calmaria do interior, cortando as estradas de terra secundárias que interligavam os municípios, a motocicleta cinza-escura avançava levantando uma nuvem de poeira sufocante. Jonathan pilotava de forma agressiva, com os dentes cravados no lábio inferior. Cada solavanco da pista de piçarra fazia sua costela fraturada gritar de dor, mas a fúria em seu peito agia como uma anestesia temporária. Ele descontava o próprio desespero diretamente no acelerador.Na garupa, Marina segurava a cintura dele com força cega. O corpo inteiro dela tremia, não apenas pelo vento cortante da velocidade, mas por um terror psicológico avassalador. O sobretudo de grife, antes impecável, agora exibia manchas de lama e poeira. A cada quilômetro que avançavam em direção ao isolamento do campo, uma percepção dolorosa e tardia começava a se fixar em sua mente: ela havia se aliado a um homem completamente instável, um psicopata à beira do colapso.Quando o motor da moto tossi
Ele subiu novamente na moto e estendeu um capacete extra para Marina.— Suba. Nós vamos pegar as estradas de terra secundárias antes que o Ávila consiga cruzar as informações do seu celular. Se a Noah quer jogar o jogo dos erros, eu vou mostrar a ela o que acontece quando se deixa uma serpente ferida sem saída.O céu sobre o interior começou a ficar pesado no início da tarde, com nuvens carregadas que pintavam o horizonte de um cinza chumbo. Na fazenda, o clima de calmaria residencial havia sumido por completo. Rafael Silva cruzava o pátio central a passos largos, com um rádio comunicador preso ao cinto e uma expressão que não dava margem para hesitações.Ele reuniu os seis funcionários mais antigos e de extrema confiança perto do galpão de ferramentas. Homens nascidos e criados naquelas terras, que conheciam cada palmo de chão, cada curva de rio e cada trilha de mata fechada.— Prestem atenção — Rafael sibilou, ajeitando o chapéu na testa e olhando firme para o grupo. — O patrão Elói e
— Droga... Maldito seja você, Elói! — Marina sibilou entre dentes, sentindo o vento frio da avenida atingir seu rosto.Ela caminhou apressadamente até a esquina, o salto agulha estalando no cimento. O medo de ser caçada pela polícia agora era substituído por um terror muito pior: o medo do que Jonathan faria ao descobrir que ela não era mais útil de dentro da prisão. Marina pegou um celular pré-pago que havia escondido na bolsa e, com os dedos trêmulos, discou o único número que sabia de cor.A três quarteirões dali, escondido nos fundos de um cortiço abandonado na Zona Norte, Jonathan sentiu o aparelho vibrar no bolso da calça de operário que havia roubado. Ele soltou um gemido de dor ao se inclinar; a costela fraturada na batida do carro latejava intensamente, e o curativo improvisado em seu braço estava ensopado de sangue.Ele atendeu, a voz rouca e fraca, mas destilando puro veneno.— Marina? O que você está fazendo com um telefone? Você deveria estar na delegacia dando os endereços
O senhor Gregório bateu com a mão na mesa, emocionado.— Eu sabia! A justiça divina não falha, meu filho. Aquele papel antigo que eu guardei serviu para colocar aqueles criminosos no lugar deles — o velho homem disse com olhos brilhando. — Com certeza, senhor Gregório. O documento do senhor foi a peça-chave para o advogado — Elói agradeceu com um aceno respeitoso. — E o Ricardo Ávila já colocou todas as polícias do interior em alerta máximo. O Jonathan conseguiu escapar da capital, mas ele está ferido, sem dinheiro, sem o apoio do Arthur e sendo caçado como um fugitivo comum. Ele perdeu o poder.Noah respirou fundo, soltando o ar que parecia preso em seu peito desde o confronto no estacionamento subterrâneo. Olhando para os pais seguros à mesa, para o carinho de Maria e para a força de Elói ao seu lado, ela finalmente sentiu que o império de mentiras que Jonathan havia construído estava desmoronando de vez. O fantasma ainda andava por aí, mas eles não eram mais as marionetes de ninguém
Ao chegar na sala principal, encontrou a lareira apagada, mas o ambiente já estava aquecido pelo cheiro de café fresco que vinha da cozinha. Elói pegou o celular sobre a mesa de centro. Ele precisava continuar a conversa com o advogado e o delegado. O tabuleiro ainda estava se movendo na capital, e ele precisava de respostas.O primeiro a atender foi o advogado, Gustavo Werneck. A voz do jurista era pura adrenalina, denunciando que ele havia passado a noite em claro analisando os computadores apreendidos na holding.— Elói, bom dia. Eu não preguei o olho — Gustavo disparou, sem rodeios. — O impacto no mercado financeiro começou assim que a notícia da prisão do Arthur Junqueira vazou para a imprensa de Seul. A boa notícia é que as provas documentais que o seu sogro, o senhor Gregório, guardou foram cruciais. Os advogados do Arthur tentaram alegar que os fundos enviados para o Jonathan eram bônus de consultoria externa, mas a foto do envelope fantasma que você me mandou sepultou o argume
Elói assentiu, sentindo o peso nos ombros diminuir um pouco por saber que tinha um aliado tão leal. Ele caminhou até a cozinha, onde Noah já estava sentada à mesa de madeira maciça, segurando uma xícara fumegante que sua mãe lhe servira.Dona Cecília olhava para a filha com os olhos marejados, enquanto o senhor Gregório mantinha a mão pousada no ombro da esposa. Havia uma culpa silenciosa no olhar dos pais de Noah — a dor de saber que um segredo guardado no passado para protegê-la havia, de alguma forma, pavimentado o caminho para o monstro que Jonathan se tornara.— Noah... — Gregório começou, a voz trêmula. — Se nós soubéssemos que aquele dinheiro anos atrás faria o Jonathan criar uma obsessão dessas por você, nós teríamos passado fome, teríamos perdido tudo, mas nunca teríamos aceitado.Noah levantou os olhos da xícara, encarando o pai com doçura e firmeza.— Não sinta culpa, pai. O senhor e a mãe agiram por amor, para nos salvar. O caráter do Jonathan foi destruído pela ambição dele,







