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A voz dos anciões

last update publish date: 2026-10-07 05:54:08

Anne Scarlate

Foi tão rápido que eu não vi como Salen foi parar dentro daquela parede.

Arregalei os olhos, olhando dele para Conan. Sua respiração estava pesada, e seus olhos ainda se mantinham foscos.

— Você ficou maluco?! — falei alto.

Fui correr para ajudar Salen a sair, mas uma mão agarrou meu pulso.

Girei, lançando minha mão contra seu peito. Conan deu alguns passos para trás.

Sua cabeça se abaixou devagar para olhar onde eu havia tocado.

Eu ainda sou uma alfa.

Consigo lutar contra ele, mas parecia que ele não queria isso. Começou a caminhar, olhando fixamente para Salen.

Segurei sua camisa, olhando em seus olhos.

O olhar fosco deu lugar ao olhar humano.

— Para! — falei entre dentes, segurando-o com todas as minhas forças.

Seus olhos percorreram meu rosto devagar. Engoli em seco quando um frio começou na minha barriga e subiu pelo meu corpo.

Seus olhos voltaram a ficar foscos assim que ele olhou por cima dos meus ombros, soltando um sorriso ralo.

— Conan! — gritei.

Seus olhos desceram para mim.

— Conan! — apertei sua gola. — Para, seu desgraçado!

Eu sabia que esse filho da puta me atravessaria por todas as paredes, mas, por algum motivo, ele ficou parado me olhando.

Fera maldita e irracional. Ele não sabia que esse idiota me rejeitou há anos?

Pisquei quando seu olhar suavizou, ainda fosco.

Seu dedo tocou minha bochecha. Aquilo queimou minha pele.

Soltei-o, empurrando-o.

— O que você está fazendo?! — gritei.

A raiva me invadiu.

Meu sangue parecia lava em minhas veias.

Minhas mãos se fecharam em punhos, minhas garras entrando em minha pele.

Ele estava... Em volta dele havia vermelho. O sangue dos meus lábios, cravados pelos meus caninos...

Avancei para cima dele...

— Mamãe!!

Parei.

Meus pés deslizaram pelo chão. Olhei para Luna correndo em nossa direção.

Soltei o ar, meus ombros caindo.

— Papai!

Ela parou perto de mim e olhou para Salen, parado perto do buraco na parede. Depois para mim e, por fim, para seu pai, com um sorriso imbecil no rosto.

Mas ele ainda não estava racional.

Seus olhos estavam foscos.

Ele se abaixou, abrindo os braços para minha filha.

Luna foi correr na sua direção, mas segurei seu ombro.

Ela me olhou com confusão...

Mas aquele não era o Conan.

Era a sua maldita... sua fera, sua parte lobisomem. E eu não sabia mais o quanto aquilo o dominava.

— Papai, mamãe.

Luna soltou minha mão.

Travei quando ela começou a correr até ele.

Salen estava com as garras saltadas. Ele parecia pronto para nos defender.

Mesmo sabendo que eu não precisava.

Olhei para ver Conan segurando sua filha nos braços, parado enquanto a farejava.

Ele...

Seus olhos se abriram com o brilho humano.

Ele a reconheceu.

Sua fera reconheceu a filha.

Soltei o ar pesadamente. Eu não pensei que isso iria acontecer.

Ele a abraçou de novo, mais humano e apertado, e minha filha fez o mesmo.

Oh! Merda.

As malditas lágrimas invadiram meus olhos. Virei-me para perguntar se Salen estava bem.

— Estou, não se preocupe — murmurou. — Eu sei que você não está bem.

— Desculpa por esse babaca! — ajeitei o termo dele, tirando a poeira de sua roupa.

Ele sorriu.

— O que os amigos não passam! Ainda bem que você não é dessas. Tira uma foto comigo para fazer ciúmes a ele — sussurrou, e eu ri baixo. — Eu estaria morto agora.

— Vamos fazer o que temos que fazer e voltar para a capital — falei.

Virei-me depois de engolir minhas lágrimas e qualquer sentimento que eu tivesse pensado em sentir.

Conan estava abaixado, conversando com Luna. Seria lindo se não fosse com ele.

Respirei fundo, e seu olhar se levantou para mim. Atrás dele, seu beta, Silas, se aproximava.

Silas era o mesmo que me trouxe à sala do alfa, mas eu realmente estava tão nervosa, além do que imaginava, que nem tinha notado nele direito.

Minha lua!

Ele tinha uma cicatriz da sobrancelha até o lábio. Seus olhos quase foram arrancados.

E eu não me lembrava de ele ter isso antes.

Conan se levantou, falando com ele, e me olhou.

— Silas irá receber a leitura hoje. Estará acompanhando o comunicado.

Assenti.

Ok. Eu tinha acabado de trocar minha função com Salen. Agora teria que fazer o comunicado com Conan na plateia.

Silas chamou Salen, e ambos seguiram para o escritório, ao lado dele a bolsa com os documentos.

— Filha, vamos! — estendi a mão para Luna.

Ela olhou para o pai, acenou e correu para mim.

Eu não iria esperar por ele para subir ao palco, mas ter seus olhos me perfurando por trás era algo terrível.

Luna ficou no cantinho, sentadinha como sempre, enquanto eu falava.

— Com o aumento dos ataques dos Ferais, os Anciões pedem que cada fronteira erga seus muros em mais dois metros de altura, redobre a atenção e aumente a guarda... Duas matilhas foram devastadas por um grupo grande de Ferais...

Parei de falar quando todos começaram a falar.

Toda vez era a mesma coisa. Nada passava de uma matilha para outra. Tudo chegava aos Anciões primeiro, e eles decidiam o que cada matilha deveria saber.

E esse é o meu trabalho.

Sou a comunicação deles com o povo.

Graças ao meu pai. Se não fosse por ele ter uma amizade de longa data com o senhor Criston, um dos Anciões, eu provavelmente estaria hoje na matilha Lua Escarlate ou sofrendo na Lua de Sangue...

Respirei fundo quando vi minha irmã em um dos cantos, perto da entrada.

Ela parecia falar rudemente com um garotinho. Ele lembrava ela. O mesmo tom claro e avermelhado de cabelo.

Olhos castanhos escuros.

Na verdade, minha mãe, Lianna e o garotinho se pareciam muito.

Meu coração deu um salto quando olhei para Luna, sentadinha e balançando os pezinhos, e depois para ele novamente.

Ele é o filho do Conan com a Lianna.

Por que diabos ela está brigando com ele lá no canto?

— O que os Anciões vão fazer com o aumento dos Ferais? Estão havendo muitos casos?

Olhei para o alfa perto de Conan. Ele sentiu que o filho estava perto, pois se virou para olhar na direção deles.

Aproximei-me do microfone, tentando pensar.

Droga, eu esqueci...

— Eles... — respirei fundo.

Não posso, em hipótese alguma, parecer confusa.

Olhei para meu pai entre as pessoas.

O velho alfa.

Meu velho pai... o único com quem mantive contato durante todos esses anos.

Nem tive tempo de dar um abraço nele ainda.

Ele sorriu, olhando para mim lá de baixo.

Fiz o mesmo para ele.

— Os Ferais estão se reproduzindo — comecei. — Há um índice grande de filhotes no sul das montanhas. Eles são seres sem humanidade, mas é contra nossa ética invadir e destruí-los. Os Anciões só pedem cautela. São raras as vezes em que eles se juntam para atacar.

— Isso não é justo! A capital é rodeada por milhares de muros. Para alcançar os Anciões, qualquer Feral morreria na terceira tentativa, e nós ficamos à mercê de ataques. Não podemos revidar matando-os desde quando nascem?

Olhei nos olhos daquele homem.

Era um alfa, pela sua postura.

— Você mataria seu irmão pelo simples fato de ele não pensar como você?

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