LOGINAnne Scarlate.
— Minha filha? — Conan murmurou. Sua voz parecia confusa. Eu nunca vi esse homem confuso, era até engraçado. Ele olhava de mim para Luna várias vezes, parecia procurar semelhança. Por um segundo, senti que o cérebro dele iria explodir. — Não é o meu papai, mamãe? Olhei para Luna e os olhinhos dela brilhavam. Meu peito se apertou e eu forcei um sorriso. Porque eu senti o desespero da minha irmã e o nojo da minha mãe. — Salen — chamei ele e voltei minha atenção à minha pequena. — É, filha, mas vai com o tio Salen para a mamãe conversar com ele um pouquinho. Ela assentiu com seus olhinhos ainda mais alegres e brilhantes. — Tá, mãe. — Ela abriu os braços para o Salen, enquanto olhava para o Conan. — Isso não é possível, Conan. Ela está mentindo. Respirei fundo, olhando para Lianna. Eu quis socar ela por um segundo. — O que você ainda está fazendo aqui? — Conan falou tão baixo que até mesmo eu dei um passo, me afastando dele. Sua fera estava tão perto que seus olhos estavam foscos... mel fosco, sem brilho e sem vida. Era estranho, mas eu sentia a presença daquele monstro, e eu pensei que nunca mais sentiria isso. Acho que as coisas não estão saindo como eu planejei. Os olhos de Lianna se arregalaram, ela pegou na mão da mãe e saiu sem falar nada. Espera... a Luna dele tem medo dele? Depois que elas saíram, olhei para ele, passando as mãos pelos cabelos. Seus dedos eram completamente tampados pelos fios. O que estava acontecendo com esse povo? — Não vou duvidar de você, Anne — ele começou, e o meu coração deu um salto errado. Não era para acontecer isso. — Mas por que me escondeu ela? Ri. — Eu não escondi. — Deixei os documentos sobre sua mesa. Me virei para ter o homem tão perto que seu cheiro parecia mais intenso do que eu havia lembrado. — Eu não sabia que tínhamos uma filha — murmurou. Respirei fundo. — Eu não precisava voltar correndo para te informar que estava grávida. A gente não tinha mais nada. Seus ombros caíram. Ele me olhou completamente chocado. — A gente tinha uma filha! — ele falou mais alto. Fechei minhas mãos em punhos. — Você foi uma desgraça na minha vida, acha mesmo que eu ia voltar para te implorar afeto ou a minha filha? — Minhas garras cravaram em minha pele. — Eu tinha que dar uma vida a ela e, mesmo assim, ela queria um pai... — E você arrumou qualquer um no meu lugar... Ele gritou. Quando eu vi, já tinha lançado um tapa na cara dele. A mão dele tocou sua própria pele, rasgada por minhas garras. Estava se curando rápido, mas ele me olhou por baixo dos cílios, grunhindo baixo. Eu não posso negar que o arrepio foi profundo, mas não abaixei minha cabeça. — Você nunca mais ouse dizer que eu procurei outro homem para substituir você — apontei para ele. Meu sangue corria quente em minhas veias. — Eu nunca precisei de homem nenhum para cuidar da minha filha. — Puxei os documentos de cima da mesa. — Foi uma péssima ideia vir a esse maldito lugar. Passei por ele, parando depois que sua mão agarrou meu braço. Apenas olhei por cima dos meus ombros. — Você pode ser alfa Conan, mas não é o meu e eu não devo respeito a você — cuspi. — Anne — murmurou com a voz baixa. — Desculpa. Pisquei, dando um passo para trás. — Eu não quero suas desculpas. Ele coçou sua nuca. — Eu sei, mas temos uma filha... — Ele me parecia confuso, estranho, sei lá. — Não me afaste dela, deixa eu conhecê-la. — Eu não quero você perto de mim, mas, se eu fosse esse tipo de mulher, não teria trazido a Luna aqui. Ela merece conhecer o pai. — Ele parecia aliviado. — Ela não tem culpa das merdas que fiz. A boca dele abriu, mas nada saiu. — Vou fazer o comunicado e, em seguida, sairei das suas terras. — Não — ele exclamou. — Se você for embora, como pretende me deixar me aproximar dela? Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Eu não ia deixar minha filha com ele em hipótese alguma. Minha irmã me odeia, e ela e minha mãe seriam, sim, capazes de fazer mal a ela para me atingir. — Eu preciso voltar para a capital de qualquer forma. — Ele bufou. — Mas mantenho contato e... — Respirei fundo, não acreditando no que eu mesma ia falar. — Trago ela para vocês passarem mais tempo juntos. — Você vai pelo menos me deixar seu número? — ele perguntou. — Não. Respirei fundo, tentando engolir o nó que estava na minha garganta. Desgraçado. Me virei para sair, sentindo as malditas lágrimas invadindo meus olhos. — Com licença, alfa Conan. Saí, deixando ele ali. Eu não queria parecer dramática. Longe de mim. O que eu não sabia era que aquele homem ainda doía, que o simples fato de estar perto dele me dava vontade de chorar. Olhei para o sangue dele nas pontas dos meus dedos. Anos atrás, eu quis rasgar ele. Hoje, ver que isso ainda dói me deixou sem reação. Se eu soubesse que não estava tão preparada assim, teria enrolado mais para chegar em sua matilha. — Anne, você falou sobre as novas ordens dos Anciões com o alfa? Olhei para Salen, meu fiel e leal amigo, e senti as lágrimas escorrendo. — Eu não consegui. — Abracei ele. Sua mão acariciou minhas costas. — Tudo bem! Eu faço isso. Não se force muito aqui. Assenti. — Cadê a Luna? — perguntei, descansando minha cabeça em seu ombro. De olhos fechados, ouvi: — Brincando com algumas crianças desse bando — murmurou. Um pigarro profundo me fez abrir os olhos. Eu sabia quem era. Seu cheiro o denunciava antes mesmo de ele falar. Soltei Salen para ver Conan parado ali, nos olhando com as duas mãos nos bolsos. Bom, não era exatamente o Conan racional. Seus olhos estavam foscos, sem brilho humano. Era sua fera e parecia, por um segundo, que ele estava pronto para atacar. — Senhor Alfa Conan. Irei fazer a leitura para o senhor. — Salen estendeu a mão para ele. Eu sabia que Salen queria me ajudar, mas Conan... engoli em seco quando sua mandíbula travou. Suas mãos saíram dos bolsos fechadas, ao ponto de as veias das costas delas estarem saltadas. O olhar fosco dele desceu devagar até a mão de Salen, voltando devagar para mim, parada ao lado dele.Anne Scarlate — Acha que, voltando com uma bastarda, você vai tomá-lo de mim?Ri, olhando bem no fundo dos olhos da minha irmã.A irmã que deveria me proteger, aquela mais velha com quem as mais novas sempre sonharam.Ridícula.Uma sobrancelha dela se arqueou. Por um segundo, quis bater a cabeça dela contra a parede, mas encontrei uma forma melhor de lidar com aquilo.— Lianna, você tem um filho com ele e, mesmo assim, conseguiu o amor dele?Ela se afastou da parede e veio para cima de mim.Segurei seus dois braços, encarando aquela maldita.— Eu não quero seu macho, não me importo com ele... — Ela tentou se soltar com um grunhido, mas a segurei com firmeza. — Por mim, quero que você e ele pulem dentro de um vulcão e que ele entre em erupção no minuto seguinte.Seu olhar se assustou, e ela olhou por cima do meu ombro.— Tudo bem, Anne. Sei que você me odeia — murmurou, olhando para baixo. — Perdão, irmã. Mas Nicolay também é seu sobrinho, e eu ainda sou sua irmã.— O quê?
Anne ScarlateOlhei para mim mesma no espelho.Meu peito parecia estar sendo esmagado por uma mão invisível.O vermelho Scarlate tomou meus olhos por alguns segundos... Engoli em seco. A vontade de quebrar tudo era enorme.Minha fera não suportou ver minha mãe fazendo com minha filha o que sempre fez comigo.As lágrimas escorreram. “Mamãe, vovó não gosta de mim?” A voz da minha filha ecoou em minha mente.Mordi o lábio inferior com força. O sangue escorreu por entre meus dentes.Olhei para a porta se abrindo e vi Conan entrar.Respirei pesadamente.O problema me persegue.— Você não pode entrar no banheiro feminino! — falei.Uma das portas se abriu, e uma mulher parou, olhando para nós dois. Ela parecia assombrada. No minuto seguinte, saiu quase correndo.— Você sempre corre quando está prestes a quebrar? — ele perguntou em voz baixa.Cerrei os punhos.— Quebrar? Não vou perguntar o significado disso ao homem que dormiu com a irmã da própria companheira! — cuspi.Minhas
Anne Scarlate — Isso não é justo! Devemos nos unir e acabar com eles. — outro falou.Respirei devagar.Eu deveria pedir demissão. Toda vez havia aqueles que apoiavam e aqueles que criticavam, desejando sempre o extremo.— A capital condena qualquer ato de violência contra os Ferais. — falei, e eles me olharam com desdém.Essa matilha era difícil. Sempre foi. E, depois de tudo que aconteceu, depois de terem me visto ser humilhada aqui anos atrás e agora me verem retornando, parecia que os olhares pesavam ainda mais. Não apenas os da Lua de Sangue, mas também os da Lua Escarlate.Eu conhecia cada membro daquela matilha. Os cabelos avermelhados denunciavam os Escarlates, enquanto a postura ereta e os traços mais rígidos identificavam os da Lua de Sangue entre os presentes.— O monitoramento mostra que eles são extremamente territoriais. As invasões que acontecem geralmente são em época de acasalamento. As fêmeas partem em busca de novos machos, e os grupos deles partem em busca de
Anne ScarlateFoi tão rápido que eu não vi como Salen foi parar dentro daquela parede.Arregalei os olhos, olhando dele para Conan. Sua respiração estava pesada, e seus olhos ainda se mantinham foscos.— Você ficou maluco?! — falei alto.Fui correr para ajudar Salen a sair, mas uma mão agarrou meu pulso.Girei, lançando minha mão contra seu peito. Conan deu alguns passos para trás.Sua cabeça se abaixou devagar para olhar onde eu havia tocado.Eu ainda sou uma alfa.Consigo lutar contra ele, mas parecia que ele não queria isso. Começou a caminhar, olhando fixamente para Salen.Segurei sua camisa, olhando em seus olhos.O olhar fosco deu lugar ao olhar humano.— Para! — falei entre dentes, segurando-o com todas as minhas forças.Seus olhos percorreram meu rosto devagar. Engoli em seco quando um frio começou na minha barriga e subiu pelo meu corpo.Seus olhos voltaram a ficar foscos assim que ele olhou por cima dos meus ombros, soltando um sorriso ralo.— Conan! — gritei.
Anne Scarlate.— Minha filha? — Conan murmurou.Sua voz parecia confusa.Eu nunca vi esse homem confuso, era até engraçado.Ele olhava de mim para Luna várias vezes, parecia procurar semelhança.Por um segundo, senti que o cérebro dele iria explodir.— Não é o meu papai, mamãe?Olhei para Luna e os olhinhos dela brilhavam.Meu peito se apertou e eu forcei um sorriso.Porque eu senti o desespero da minha irmã e o nojo da minha mãe.— Salen — chamei ele e voltei minha atenção à minha pequena. — É, filha, mas vai com o tio Salen para a mamãe conversar com ele um pouquinho.Ela assentiu com seus olhinhos ainda mais alegres e brilhantes.— Tá, mãe. — Ela abriu os braços para o Salen, enquanto olhava para o Conan.— Isso não é possível, Conan. Ela está mentindo.Respirei fundo, olhando para Lianna.Eu quis socar ela por um segundo.— O que você ainda está fazendo aqui? — Conan falou tão baixo que até mesmo eu dei um passo, me afastando dele.Sua fera estava tão perto que seu
Anne Scarlate.Salen levou Luna para beber água.Eu tinha que entrar. Odiava entradas triunfais e já estava atrasada.Os guerreiros dessa matilha abriram as portas. Ajeitei meu vestido e olhei para os dois guerreiros enviados conosco pelo clã dos Anciões.Foi quando o cheiro dele chegou ao meu faro… ferro aquecido.Só assim para nos reconhecermos, perto o suficiente depois de tudo o que ele…Limpei a garganta. Levantei a cabeça e entrei.Me certifiquei de não olhar para o lado direito. Era de onde o cheiro vinha.Como eu iria dizer à minha filha que ele era seu pai, eu ainda não sabia. Mas meu estômago embrulhou ao entrar naquele lugar.Antes, quando saí, os olhares eram de pena. Hoje eram de surpresa absoluta, enquanto os guerreiros do clã dos Anciões caminhavam ao meu lado.Meu pai.Meus pés quase falharam. Sorri ao vê-lo. O único que nunca me fez mal. Era por ele que eu estava ali hoje.Ao seu lado, minha mãe soltou o copo, completamente chocada por eu ainda existir. Tal







