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Capítulo 6 — A Imagem do Casal

Author: Meih H
last update publish date: 2026-02-01 11:44:21

O trajeto até a casa de Vitória aconteceu em silêncio.

Rafael dirigia com atenção tranquila, como se aquele fosse apenas mais um compromisso a cumprir. Não era comum — Vitória tinha motorista, segurança, toda a logística que acompanhava o sobrenome Alencar. Mas, naquela noite, a decisão havia sido estratégica. Fotos demais, olhares demais. O gesto precisava parecer simples, quase íntimo.

Para quem observasse de fora, era apenas o noivo atencioso levando a futura esposa para casa.

Dentro do carro, no entanto, nada parecia natural.

Vitória manteve o olhar fixo na janela, observando as luzes da cidade se misturarem em reflexos difusos. O vestido agora incomodava. O colar de água-marinha repousava frio sobre a pele, lembrando-a de tudo o que aquele evento representava: encenação, controle, expectativa.

— Chegamos — disse Rafael, estacionando diante do portão da casa Alencar.

Ela assentiu, já abrindo a porta.

— Obrigada — falou, neutra.

— Faz parte — respondeu ele, sem olhá-la.

Vitória fechou a porta com mais força do que pretendia e seguiu até a entrada principal.

 O pai a aguardava na sala, sentado no sofá, lendo algo no tablet. Levantou o olhar assim que ela apareceu.

— Chegou — comentou. — Como foi o evento?

Vitória respirou fundo.

— Foi… intenso — respondeu, escolhendo as palavras. — Muitas pessoas. Muitas expectativas.

Ele assentiu, satisfeito.

— Era o esperado.

 Nada mais foi dito. Não havia necessidade.

Vitória subiu as escadas sentindo o corpo finalmente cobrar o desgaste do dia. Ao entrar no quarto, fechou a porta com cuidado e ficou parada por alguns segundos, como se precisasse se convencer de que estava, de fato, sozinha.

Começou a tirar o vestido devagar. O tecido deslizou pelo corpo e caiu no chão como algo descartável. Depois vieram os sapatos, as joias, cada peça deixando para trás um pouco do peso daquela noite.

Só então seguiu para o banheiro. 

Entrou no box e fechou os olhos deixando a água quente cair sobre os ombros tensos. As imagens voltaram sem pedir permissão — os sorrisos calculados, os comentários, a mão de Rafael em sua cintura, firme demais para ser íntima, correta demais para ser confortável.

Quando desligou o chuveiro e saiu do box, envolveu-se na toalha e caminhou até o espelho. O reflexo devolveu uma Vitória diferente: cabelos molhados, rosto limpo, olhos cansados. Sem máscaras.

Vestiu um baby-doll simples, de tecido leve, confortável demais para alguém acostumada a sempre parecer impecável. Era quase um alívio sentir algo que não apertasse, que não exigisse postura.

Deitou-se na cama e puxou o lençol até a cintura.

Respirou fundo.

Por um instante, desejou que tudo acabasse logo. Não o dia, mas o processo inteiro. Como se o mundo pudesse avançar rápido até depois do casamento — até qualquer coisa que não fosse aquela espera sufocante.

 Fechou os olhos.

O corpo cedeu aos poucos. A sensação era estranha, como se estivesse afundando lentamente, não em um sonho, mas em um vazio silencioso. E, antes que pudesse organizar mais um pensamento, adormeceu. 

____________________

O despertador tocou cedo demais.

Vitória abriu os olhos lentamente, demorando alguns segundos para se situar. As lembranças da noite anterior vieram em blocos — o evento, Rafael, os olhares, as expectativas. Mais um dia começava. Mais um dia cansativo. Pelo menos até o casamento. Depois dele, talvez pudesse finalmente parar de parecer feliz. Diziam que, depois de um tempo, a felicidade no casamento se esvaía aos poucos — e essa ideia lhe trazia um estranho conforto. Ao menos, não seria mais obrigada a fingir nada.

 Suspirou.

Levantou-se devagar, sentindo o corpo pesado demais e a mente ainda mais cansada. Depois do banho, vestiu-se com cuidado e desceu para o café da manhã. Não eram uma família afetuosa, mas aquela refeição era quase uma regra silenciosa: todos à mesa, todos presentes.

O pai lia algo no tablet enquanto a mãe mexia distraída na xícara.

— Algumas fotos do evento já estão circulando — comentou ele. — Em algumas, você parece séria demais.

Vitória manteve a calma.

— Eu dei o meu melhor para sorrir para todos — respondeu. — Nem sempre é suficiente para agradar.

Ele fez um leve gesto com a cabeça, como se aceitasse, mas não completamente.

— As pessoas precisam enxergar entusiasmo. Felicidade. Principalmente agora.

Ela permaneceu em silêncio.

— Depois da faculdade — continuou ele — você vai à empresa do Rafael. Saiam para jantar. Quero imagens, comentários positivos. Precisamos reforçar a ideia de um casal alinhado e satisfeito.

— Entendi — disse Vitória, sem emoção. 

____________________

A empresa do grupo Herculano era exatamente como ela imaginava: imponente, silenciosa, moderna. Vidros por todos os lados, tons neutros, tudo calculado para transmitir poder e controle.

Foi recebida pela secretária de Rafael, Jane, uma jovem muito gentil. Ela claramente já havia sido instruída a tratar bem a futura nora do Sr. Herculano. Conduziu Vitória até a sala de Rafael com profissionalismo cuidadoso.

— O senhor Rafael ainda está em reunião — informou. — Pediu que aguardasse aqui na sala dele. A senhorita deseja beber ou comer algo?

—  Não, muito obrigada. - Respondeu Vitória com neutralidade

 — Fique à vontade para me chamar se precisar de algo.

Vitória assentiu e ficou sozinha.

O escritório era amplo, organizado com precisão quase excessiva. Mesa grande, cadeiras de couro, janelas que emolduravam a cidade lá embaixo. Mas foi a estante que capturou sua atenção.

Livros.

Muitos livros.

Aproximou-se devagar, percorrendo os títulos com os olhos. Filosofia, estratégia, economia, literatura clássica. Leu as capas em silêncio, sem tocá-las, surpresa por gostar daquele detalhe mais do que gostaria de admitir. Pegou o livro que mais lhe chamou a atenção — um romance de época. Já o havia lido uma vez, ainda na adolescência.

Estava tão concentrada que não percebeu a porta se abrindo.

— Veio analisar meu gosto literário? — a voz de Rafael soou atrás dela. 

Vitória se virou, levemente sobressaltada.

— Não sabia que era proibido observar livros.

— Geralmente, ninguém observa — respondeu ele, aproximando-se. — Vêm pelo que precisam e vão embora na mesma rapidez com que entram.

 — Eu não sou como os outros. Mas tanto faz — disse ela, simples.

O silêncio entre eles se estendeu por um segundo a mais do que o necessário.

— Por que está aqui? — perguntou ele, retomando o tom frio. 

— Obrigações — respondeu. — Imagino que você entenda.

— Entendo.

Antes que pudesse dizer mais, a secretária entrou.

 — Senhor Rafael, sobre o jantar de hoje, já reservei de acordo com o que o Sr Herculano planejou…

O tom dele mudou imediatamente, suavizando ao falar com ela.

— Sim — disse, lançando um olhar rápido para Vitória. — Pelo jeito jantaremos juntos.

Ela sustentou o olhar.

— Parece que sim.

Quando ficaram sozinhos novamente, o silêncio voltou a se instalar.

 — Então — disse Rafael, ajeitando alguns papéis sobre a mesa — vamos continuar encenando.

Vitória cruzou os braços.

— Como sempre.

— Ainda está um pouco cedo — acrescentou ele. — Quer esperar aqui enquanto termino esses documentos ou prefere me esperar no carro? 

— Ficarei aqui. Seria estranho sair sem você.

 — Tanto faz. Quando eu terminar, vamos sair — disse ele, sentando-se na cadeira atrás da mesa.

Vitória, por outro lado, voltou a pegar o livro e sentou-se no sofá próximo à estante. Retomou a leitura e, por alguns minutos, esqueceu onde estava. As páginas a absorveram completamente.

Nem percebeu o tempo passar.

Foi obrigada a voltar à realidade quando ouviu alguém lhe chamando. Aquela voz firme.

— Vamos, Vitória. Precisamos acabar logo com isso.

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