MasukVicente Ardan chegou à propriedade Draven pouco depois das dez horas da manhã.Não veio sozinho.Dois homens o acompanhavam, ambos antigos funcionários da administração de Augusto Draven. Carregavam uma pasta de documentos e insistiram em permanecer na sala durante o depoimento.Kael observou os três da cabeceira da mesa.Elara estava à sua direita, enquanto Aldren organizava os registros recuperados.— Solicitei a presença de Vicente — disse Kael. — Não uma reunião com representantes da antiga administração.Um dos acompanhantes se adiantou.— Somos testemunhas da conduta profissional dele.— Então poderão prestar seus próprios depoimentos, separadamente, caso tenham informações relevantes.Vicente ergueu a mão, interrompendo o homem.— Não será necessário, Alfa Supremo.Ele retirou as luvas e sentou-se.Tinha pouco mais de sessenta anos, cabelos grisalhos cuidadosamente penteados e uma expressão que Kael conhecia desde a infância.Vicente fora secretário particular de Augusto durant
A chuva começou quando Kael e Elara alcançaram a propriedade Draven.Os guardas recolheram os cavalos, enquanto Aldren seguiu diretamente para a sala de arquivos. Precisava organizar o depoimento de Rafael Varyn e encaminhar a busca por Vicente Ardan.Kael, porém, permaneceu junto à entrada, observando a água escorrer pelos degraus.Elara percebeu seu silêncio.— Você não precisa voltar aos documentos esta noite.Ele olhou para ela.— Há muita coisa que precisamos resolver.— E continuará existindo amanhã.Kael soltou um suspiro.— Não consigo parar de pensar na minha mãe.Elara se aproximou.— Então venha comigo.— Para onde?Ela segurou sua mão.— Para algum lugar onde possamos conversar sem mapas, relatórios ou pessoas esperando decisões suas.Kael sorriu discretamente.— Está sequestrando o Alfa Supremo?— Apenas por algumas horas.— E se eu resistir?Elara ergueu uma sobrancelha.— Vou considerar uma demonstração de péssimo julgamento.Kael riu.O som surpreendeu os dois.Depois
Rafael Varyn recebeu Kael, Elara e Aldren em uma pequena enfermaria ao sul do território Draven.O médico tinha cabelos grisalhos e mãos firmes, apesar da idade. Sobre sua mesa estavam dois documentos que Kael reconheceu imediatamente: o relatório de atendimento de Helena e a declaração complementar que Augusto impedira de anexar.— Antes de começarmos — disse Rafael —, preciso esclarecer uma coisa. Não posso afirmar que sua mãe foi assassinada. O que posso demonstrar é que havia indícios de uma exposição química e que fui impedido de investigá-los.Kael puxou uma cadeira.— É exatamente isso que quero saber. O que encontrou e por que não aparece no relatório oficial?Rafael abriu uma pasta.— Porque a terceira página foi retirada antes de o documento ser arquivado.Elara se inclinou.— O senhor guardou uma cópia?— Guardei minhas anotações clínicas e a segunda via do pedido de exame. A página original foi entregue à administração Draven.Aldren aproximou-se.— Então podemos reconstru
Tomás Varyn colocou três documentos sobre a mesa do laboratório.Kael observou o conjunto com atenção. Desde que descobrira a presença de Augusto Draven no corredor de serviço, uma pergunta o incomodava: como um registro tão antigo havia sobrevivido, enquanto tantos arquivos de Helena desapareceram?— Quero saber exatamente de onde veio essa informação — disse. — Quem a produziu, onde foi guardada e por que ninguém a encontrou antes.Tomás assentiu.— O registro não veio da biblioteca de Helena. Foi recuperado do arquivo administrativo da propriedade Draven.Aldren cruzou os braços.— Mas Otávio disse que o sistema de controle de acesso foi removido depois da morte dela.— Foi removido — confirmou Tomás. — O equipamento original não existe mais. O que encontramos é uma cópia impressa, produzida antes da retirada.Elara aproximou-se.— Quem fez a cópia?Tomás apontou para a última página.— O antigo encarregado da segurança, Artur Valen.Kael reconheceu o nome.Artur servira à família
Kael deixou a propriedade de Artur Valen sem dizer uma palavra.Elara caminhava ao seu lado, enquanto Aldren seguia alguns passos atrás. O depoimento do antigo encarregado da segurança ainda parecia ecoar entre eles.Augusto Draven estivera no corredor de serviço na noite da morte de Helena. Ordenara a retirada dos equipamentos de controle e recolhera uma das cópias do relatório de acesso.Não era mais possível tratar aquelas decisões como simples coincidências.Kael parou junto aos cavalos.Apoiou uma das mãos na sela, mas não montou.— Ele sabia — murmurou.Elara aproximou-se.— Sabia que havia informações que precisavam ser investigadas.Kael balançou a cabeça.— Meu pai sabia que minha mãe havia contestado o desligamento. Sabia que existiam dúvidas sobre a morte dela. Mesmo assim, mandou retirar o sistema que poderia esclarecer o que aconteceu.A voz dele começou a se alterar.— E depois olhou nos meus olhos durante anos, dizendo que eu precisava aceitar a vontade dos ancestrais.
Kael permaneceu diante do registro de acesso, observando o nome do pai.Augusto Draven.Às vinte e uma horas e vinte e três minutos, enquanto a gravação de Helena permanecia interrompida, ele havia utilizado a escada de serviço próxima à biblioteca.O dado não provava que Augusto tivesse ferido a esposa.Mas destruía a versão que Kael ouvira durante anos.Seu pai afirmara que estava reunido com os comandantes da guarda quando Helena passou mal. Segundo ele, só soubera do ocorrido depois que um empregado encontrara o corpo.Agora havia uma prova de que estivera perto da biblioteca minutos antes do fim da interrupção.— Quero o relatório daquela reunião — disse Kael.Tomás consultou os arquivos.— Encontrei a lista de presença. A reunião começou às vinte horas e terminou às vinte e duas.Aldren aproximou-se.— Isso não significa que Augusto tenha permanecido lá durante todo o período.— Exatamente — respondeu Kael. — Precisamos saber quando saiu.Tomás abriu outro documento.— Há uma an







