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Capítulo 4 - A Segunda ordem

last update publish date: 2026-10-09 04:49:39

Darian apagou a luz mais próxima da janela.

Íris continuou segurando o documento. A voz do lado de fora não lhe era familiar, mas o homem sabia seu nome.

Soren permaneceu diante da porta, com o pelo do dorso eriçado.

— Quantos? — perguntou Darian, baixo.

O lobo virou uma das orelhas.

Por um instante, Darian pareceu esperar outra resposta. Então fechou a mão junto ao corpo, lembrando-se de que já não compartilhavam a mesma consciência.

Íris viu a frustração passar por seu rosto.

As batidas se repetiram.

— Precisamos que abra a porta.

Darian indicou a passagem para os fundos.

— Há outra saída?

Íris assentiu.

— Dá para o quintal da vizinha.

— Se houver alguém lá, não avance.

Ela dobrou o documento e o guardou junto ao anel.

— Não vou deixar minha oficina para quem acabou de roubá-la.

— Podemos recuperá-la depois.

— O caderno não estava aqui por acaso. Quem veio sabia o que procurar.

Darian olhou para a gaveta aberta. Ela percebeu que ele também tentava ligar o roubo à ordem de custódia.

Do lado de fora, ouviram passos descendo o degrau.

Darian aproximou-se da porta.

— Identifique-se.

Houve uma pausa.

— Alfa?

— Nome e função.

— Caio Mendes. Guarda da divisão de fronteira.

— Quantos homens estão com você?

— Dois, senhor.

Darian afastou o ferrolho, mas manteve a porta entreaberta.

Íris ficou perto da mesa. Dali, conseguia ver parte do uniforme do guarda e a faixa cinza que identificava sua divisão.

Caio olhou para Darian, depois para o lobo atrás dele.

Seu rosto mudou.

— Recebemos uma ordem para acompanhar a restauradora.

— Eu vi a ordem.

O guarda umedeceu os lábios.

— Então sabe para onde devemos levá-la.

— Sei que ela traz uma assinatura falsificada.

Caio baixou os olhos para uma pasta presa sob o braço.

Atrás dele, um dos homens se afastou na direção da janela.

Íris puxou a cortina antes que ele pudesse olhar para dentro.

— Mande seus homens voltarem para a rua — disse Darian.

Caio ergueu a mão. O guarda recuou, mas não parecia satisfeito.

— Não podemos cancelar uma transferência por conta própria.

— Podem quando o Alfa responsável não a autorizou.

Íris examinou a pasta.

Uma das bordas estava rasgada. O papel encontrado sob a mesa também tinha um corte irregular na parte superior.

— Você esteve aqui antes — disse ela.

Caio olhou em sua direção.

— Vim entregar a notificação.

— E levou um caderno?

— Não toquei em caderno nenhum.

— Mas entrou.

O guarda hesitou.

— A porta estava aberta quando cheguei.

Íris sentiu o estômago contrair.

Alguém havia passado pela oficina antes dele.

— Deixei uma via sobre a mesa, perto da borda — acrescentou Caio. — Depois fechei a porta e voltei à divisão para buscar a escolta.

— A via estava no chão, debaixo do móvel.

Caio olhou para a mesa.

— A porta e a janela estavam abertas quando entrei. Havia vento atravessando a sala. Não prendi a folha nem conferi onde ficou depois que saí.

Darian abriu mais a porta.

— Entregue a documentação que recebeu.

Caio apertou a pasta contra o corpo.

O outro guarda subiu um degrau.

— Senhor, precisamos cumprir o procedimento.

Soren avançou.

O homem puxou uma arma curta do coldre.

Íris viu o cilindro transparente preso à lateral. Não era uma pistola comum.

— Abaixe isso! — Darian ordenou.

O guarda manteve o braço estendido.

Caio se colocou parcialmente à frente dele.

— Ninguém precisa usar contenção.

Soren rosnou, e o som pareceu vibrar no assoalho.

Íris atravessou a oficina.

Darian ergueu o braço para detê-la, mas ela parou antes da porta e tocou de leve o dorso do lobo.

— Fique comigo.

A criatura recuou até sua perna.

O guarda acompanhou o movimento com a arma.

— Ela está controlando o animal — murmurou.

— Estou impedindo que ele ataque você — respondeu Íris. — Agora guarde isso.

Caio segurou o pulso do homem e o empurrou para baixo.

Íris percebeu que o lobo respirava mais depressa. Retirou a mão do pelo, lembrando-se da memória que o contato provocara no salão.

Não podia arriscar outra visão naquele momento.

Darian apontou para a pasta.

— Se essa ordem é legítima, não há motivo para escondê-la de mim.

Caio o observou por alguns segundos. Depois soltou a presilha.

Dentro, havia a primeira via da ordem e uma folha menor, presa por um clipe.

Darian retirou as duas.

O guarda tentou segurar a segunda.

— Essa é uma instrução operacional.

Darian afastou os papéis.

— Para meus guardas.

Caio deixou a mão cair.

Íris estendeu o braço.

— Quero ler também.

Darian entregou-lhe a ordem principal. Comparada à cópia que encontrara, era idêntica, inclusive na assinatura.

Ela não sabia como alguém conseguira reproduzi-la. Precisaria examiná-la com calma.

Antes que pudesse perguntar, Darian falou:

— Quem entregou isto?

— Estava no envelope de serviço da divisão.

— Quem preparou o envelope?

— A secretaria. Não veio com nome de remetente.

Darian olhou novamente para a folha menor.

Íris percebeu seus dedos se apertarem ao redor do papel.

— O que diz aí?

Ele não respondeu imediatamente.

Do lado de fora, Caio olhou para Soren e deu um passo para trás.

Íris retirou a folha da mão de Darian.

Havia apenas quatro instruções.

A primeira exigia que a transferência acontecesse antes do amanhecer. A segunda proibia o uso de rádio durante o trajeto. A terceira mandava evitar as ruas principais.

Ela chegou à última linha.

Leu uma vez.

Depois outra.

— Você recebeu isto quando? — perguntou a Caio.

— Pouco depois do meio-dia.

A cerimônia começara à noite.

Até aquele momento, Íris imaginara que alguém planejara prendê-la e que a rejeição apenas havia complicado seus planos.

Olhou para Darian.

Ele encarava o papel com a mesma incredulidade.

Sob as instruções de transporte, alguém havia escrito:

“Se o lobo estiver separado do Alfa, levem-no com Íris para a Casa de Custódia Sete. Nenhum dos dois poderá retornar à residência dos Voss.”

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