LOGINDarian apagou a luz mais próxima da janela.
Íris continuou segurando o documento. A voz do lado de fora não lhe era familiar, mas o homem sabia seu nome. Soren permaneceu diante da porta, com o pelo do dorso eriçado. — Quantos? — perguntou Darian, baixo. O lobo virou uma das orelhas. Por um instante, Darian pareceu esperar outra resposta. Então fechou a mão junto ao corpo, lembrando-se de que já não compartilhavam a mesma consciência. Íris viu a frustração passar por seu rosto. As batidas se repetiram. — Precisamos que abra a porta. Darian indicou a passagem para os fundos. — Há outra saída? Íris assentiu. — Dá para o quintal da vizinha. — Se houver alguém lá, não avance. Ela dobrou o documento e o guardou junto ao anel. — Não vou deixar minha oficina para quem acabou de roubá-la. — Podemos recuperá-la depois. — O caderno não estava aqui por acaso. Quem veio sabia o que procurar. Darian olhou para a gaveta aberta. Ela percebeu que ele também tentava ligar o roubo à ordem de custódia. Do lado de fora, ouviram passos descendo o degrau. Darian aproximou-se da porta. — Identifique-se. Houve uma pausa. — Alfa? — Nome e função. — Caio Mendes. Guarda da divisão de fronteira. — Quantos homens estão com você? — Dois, senhor. Darian afastou o ferrolho, mas manteve a porta entreaberta. Íris ficou perto da mesa. Dali, conseguia ver parte do uniforme do guarda e a faixa cinza que identificava sua divisão. Caio olhou para Darian, depois para o lobo atrás dele. Seu rosto mudou. — Recebemos uma ordem para acompanhar a restauradora. — Eu vi a ordem. O guarda umedeceu os lábios. — Então sabe para onde devemos levá-la. — Sei que ela traz uma assinatura falsificada. Caio baixou os olhos para uma pasta presa sob o braço. Atrás dele, um dos homens se afastou na direção da janela. Íris puxou a cortina antes que ele pudesse olhar para dentro. — Mande seus homens voltarem para a rua — disse Darian. Caio ergueu a mão. O guarda recuou, mas não parecia satisfeito. — Não podemos cancelar uma transferência por conta própria. — Podem quando o Alfa responsável não a autorizou. Íris examinou a pasta. Uma das bordas estava rasgada. O papel encontrado sob a mesa também tinha um corte irregular na parte superior. — Você esteve aqui antes — disse ela. Caio olhou em sua direção. — Vim entregar a notificação. — E levou um caderno? — Não toquei em caderno nenhum. — Mas entrou. O guarda hesitou. — A porta estava aberta quando cheguei. Íris sentiu o estômago contrair. Alguém havia passado pela oficina antes dele. — Deixei uma via sobre a mesa, perto da borda — acrescentou Caio. — Depois fechei a porta e voltei à divisão para buscar a escolta. — A via estava no chão, debaixo do móvel. Caio olhou para a mesa. — A porta e a janela estavam abertas quando entrei. Havia vento atravessando a sala. Não prendi a folha nem conferi onde ficou depois que saí. Darian abriu mais a porta. — Entregue a documentação que recebeu. Caio apertou a pasta contra o corpo. O outro guarda subiu um degrau. — Senhor, precisamos cumprir o procedimento. Soren avançou. O homem puxou uma arma curta do coldre. Íris viu o cilindro transparente preso à lateral. Não era uma pistola comum. — Abaixe isso! — Darian ordenou. O guarda manteve o braço estendido. Caio se colocou parcialmente à frente dele. — Ninguém precisa usar contenção. Soren rosnou, e o som pareceu vibrar no assoalho. Íris atravessou a oficina. Darian ergueu o braço para detê-la, mas ela parou antes da porta e tocou de leve o dorso do lobo. — Fique comigo. A criatura recuou até sua perna. O guarda acompanhou o movimento com a arma. — Ela está controlando o animal — murmurou. — Estou impedindo que ele ataque você — respondeu Íris. — Agora guarde isso. Caio segurou o pulso do homem e o empurrou para baixo. Íris percebeu que o lobo respirava mais depressa. Retirou a mão do pelo, lembrando-se da memória que o contato provocara no salão. Não podia arriscar outra visão naquele momento. Darian apontou para a pasta. — Se essa ordem é legítima, não há motivo para escondê-la de mim. Caio o observou por alguns segundos. Depois soltou a presilha. Dentro, havia a primeira via da ordem e uma folha menor, presa por um clipe. Darian retirou as duas. O guarda tentou segurar a segunda. — Essa é uma instrução operacional. Darian afastou os papéis. — Para meus guardas. Caio deixou a mão cair. Íris estendeu o braço. — Quero ler também. Darian entregou-lhe a ordem principal. Comparada à cópia que encontrara, era idêntica, inclusive na assinatura. Ela não sabia como alguém conseguira reproduzi-la. Precisaria examiná-la com calma. Antes que pudesse perguntar, Darian falou: — Quem entregou isto? — Estava no envelope de serviço da divisão. — Quem preparou o envelope? — A secretaria. Não veio com nome de remetente. Darian olhou novamente para a folha menor. Íris percebeu seus dedos se apertarem ao redor do papel. — O que diz aí? Ele não respondeu imediatamente. Do lado de fora, Caio olhou para Soren e deu um passo para trás. Íris retirou a folha da mão de Darian. Havia apenas quatro instruções. A primeira exigia que a transferência acontecesse antes do amanhecer. A segunda proibia o uso de rádio durante o trajeto. A terceira mandava evitar as ruas principais. Ela chegou à última linha. Leu uma vez. Depois outra. — Você recebeu isto quando? — perguntou a Caio. — Pouco depois do meio-dia. A cerimônia começara à noite. Até aquele momento, Íris imaginara que alguém planejara prendê-la e que a rejeição apenas havia complicado seus planos. Olhou para Darian. Ele encarava o papel com a mesma incredulidade. Sob as instruções de transporte, alguém havia escrito: “Se o lobo estiver separado do Alfa, levem-no com Íris para a Casa de Custódia Sete. Nenhum dos dois poderá retornar à residência dos Voss.”Darian leu o nome indicado por Íris. — Silas. Ela manteve o relatório aberto. — Você conhece? — É um guarda da divisão de fronteira. Já participou de patrulhas comigo. Íris procurou a cópia do relatório sobre a morte de Elisa na pasta em que guardava os documentos pessoais. Conservava aquele papel desde que o recebera, embora quase nunca suportasse relê-lo inteiro. Colocou as duas folhas lado a lado. A mesma assinatura aparecia em ambas. Darian aproximou a luminária. — Aqui ele assina como integrante da equipe que encontrou Elisa. Não como alguém que presenciou o ataque. Íris leu novamente. O relatório atribuía a morte à passagem de uma patrulha de fora. Mas não indicava que Silas tivesse visto essa patrulha atacar sua irmã. Ela passara meses tratando aquelas duas informações como uma só. — Quero ouvir o que ele realmente viu. Darian assentiu. — Vamos pedir que seja chamado. Caio enviou as informações a Amélia antes de partirem. A conselheira confirmo
Darian aproximou-se da prateleira. — Precisamos conferir o registro completo. Íris manteve a pasta aberta. A data da devolução da chave era a mesma em que encontraram Elisa, mas ainda não dizia quando a vistoria acontecera. Ele tinha razão. Ela procurou o número de referência e chamou Amélia. A conselheira veio acompanhada pelo funcionário responsável pelo inventário. Ninguém retiraria aquele documento sem registrar sua origem. — A chave foi devolvida a quem? — perguntou Íris. O funcionário examinou o campo seguinte. — À administração da casa. Não há recibo da proprietária da oficina. Íris olhou para Darian. — Nunca devolveram para mim. Amélia pediu que localizassem o relatório da vistoria. Enquanto aguardavam, Íris observou a cadeira presa ao chão. Aquele lugar havia mantido Darian imóvel e impedido Elisa de sair quando quis. Agora pretendiam apresentar tudo como procedimentos administrativos. Ela fechou a pasta com cuidado. Não lhes daria a possibilidad
A Casa de Custódia apareceu depois de uma curva estreita, cercada por árvores e um muro baixo. Íris reconheceu a fachada pelas descrições dos arquivos. Até então, nunca tivera motivo para entrar. Darian estava sentado ao seu lado. Quando o veículo parou, ele permaneceu imóvel por um instante. Íris olhou para sua mão fechada sobre o joelho. — Não precisa entrar antes de estar pronto. Ele voltou os olhos para ela. — Preciso entrar sabendo que posso sair. Íris assentiu. Dessa vez, ninguém os levara até ali sob o efeito de uma dose. Amélia desceu do primeiro veículo com a determinação assinada pelos conselheiros. Caio e os guardas se posicionaram junto à equipe que aguardava no portão. Augusto permaneceu diante da entrada. Atrás dele, a porta traseira de um veículo estava aberta. Duas caixas de arquivo já haviam sido carregadas. — Esses documentos seriam levados para conferência — disse. Amélia mostrou a determinação. — A conferência será feita aqui. Nenhuma caixa sai antes
Darian puxou uma cadeira, mas não se sentou. — Quando me examinou depois da patrulha, você disse que poderia ser envenenamento. — Era uma hipótese — respondeu o médico. — A febre e os tremores já estavam presentes. Eu não identifiquei a causa antes de encaminhá-lo. — E, mesmo assim, me deu algo para enfraquecer Soren. O homem baixou os olhos. — Disseram que a reação do seu lobo estava agravando seu estado. Íris colocou a bolsa sobre a mesa. — Quem disse? — Augusto. Amélia pediu que o funcionário registrasse o nome. O médico da enfermaria aproximou a autorização da arena. — Esta dose tinha a mesma finalidade? — Tinha. Reduzir a comunicação entre a pessoa e seu lobo por algum tempo. — Henrique não estava doente — observou Íris. O homem apertou os dedos contra o joelho. — A solicitação dizia que ele resistia a participar do teste. Que precisavam evitar interferência da consciência animal. Darian soltou uma respiração curta. — Queriam que o lobo respondesse a Íris, mas de
Darian não tentou diminuir o que acabara de admitir. — Eu prometi preservar a aliança, mesmo que reconhecesse outra companheira. Íris segurou a alça da bolsa. — E, quando me encontrou, cumpriu a promessa. — Sim. Celina permaneceu perto da parede. A confissão não a deixara mais tranquila; parecia apenas ter retirado uma proteção atrás da qual se escondera. Íris olhou para ela. — Você sabia que meu nome estava ligado à avaliação. Ele também sabia? — Não contei — respondeu Celina. — Pedi uma garantia sobre o casamento. Não mencionei você. Darian sustentou o olhar de Íris. — Eu não sabia quem seria. Mas isso não torna a decisão melhor. Ela assentiu lentamente. Não precisava transformar a omissão de Celina numa desculpa para ele. — Quero ficar sozinha. Darian afastou-se da passagem. Soren acompanhou Íris até o quarto. Ela fechou a porta e colocou a bolsa sobre a mesa. Tinha conseguido respostas naquela manhã. O pedido de avaliação existia. Augusto o recebe
Leôncio aproximou-se da mesa. Íris manteve a mão sobre a cópia da ordem. Depois de tantas respostas incompletas, finalmente alguém se dispunha a assumir uma parte do que acontecera. — O senhor solicitou minha transferência? — Solicitei uma avaliação do seu dom. — Na Casa de Custódia. — É onde temos instalações adequadas. Amélia indicou a cadeira diante dos conselheiros. — Sente-se. Essa solicitação foi feita a quem? Leôncio olhou para Augusto. — À administração da casa. O funcionário registrou a resposta. Íris sentiu Darian ficar imóvel ao seu lado. — E quem autorizou? — perguntou Amélia. — Disseram que seria providenciado. — Isso não responde à pergunta. Leôncio sentou-se, ajeitando o casaco. — Não acompanhei a emissão do documento. Íris retirou a folha menor da bolsa. — A avaliação incluía levar Soren comigo? Ele observou o papel. Pela primeira vez, sua segurança pareceu diminuir. — Essa instrução não estava no pedido que fiz. — Mas o senh







