Mag-log inÍris manteve a folha aberta entre os dedos.
A instrução sobre Soren havia sido escrita antes da cerimônia. Enquanto ela trabalhava na oficina, alguém preparava uma escolta para levá-la a um lugar do qual Elisa não voltara. Darian releu o documento. — Você mostrou esta página aos seus homens? — perguntou a Caio. — Eles sabem que devemos transportar a mulher e o animal. — Não foi isso que perguntei. O guarda olhou para os companheiros. — Não mostrei a observação. Recebi o envelope fechado, com instruções para abrir aqui. Íris observou a pasta. A folha menor não tinha assinatura nem brasão, apenas as ordens de transporte. — E você não achou estranho? Caio encontrou seu olhar. — Achei que fossem instruções para algum animal sob os cuidados da oficina. Só entendi quando vi o lobo. A resposta era possível. Isso não a tornava necessariamente verdadeira. Darian recolheu a primeira via, deixando a folha menor com Íris. — A transferência está suspensa. Vocês vão registrar quem retirou esse envelope da secretaria e preservar os documentos da divisão. O guarda armado moveu os pés. — E se recebermos uma ordem diferente? Darian encarou-o. — Tragam para mim antes de executá-la. Caio fechou a pasta vazia. — Podemos ir? — Deixem a arma de contenção — disse Íris. Os três olharam para ela. Soren continuava ao seu lado, atento. — Vocês vieram me buscar com uma assinatura que Darian diz não reconhecer — acrescentou. — Não quero essa arma apontada para minhas costas quando eu sair. O guarda segurou o coldre. — É equipamento da divisão. — Que será devolvido — respondeu Darian. Caio estendeu a mão para o companheiro. Depois de uma hesitação, o homem entregou a arma. Darian a recebeu e retirou o cilindro, mantendo as duas peças separadas. Íris esperou até os guardas desaparecerem na esquina. Só então fechou a porta. A oficina pareceu menor sem ninguém do lado de fora. Íris colocou a instrução operacional sobre a mesa e retirou do bolso a cópia encontrada no chão. Darian acrescentou a primeira via. Três papéis. Nenhum explicava quem levara o caderno. — Precisamos guardar isso em algum lugar seguro — disse ele. — Minha oficina era um lugar seguro até hoje. Darian não respondeu. Ela passou o dedo pela borda da cópia, sem procurar uma memória. Precisava de concentração para distinguir uma lembrança das próprias expectativas; naquela noite, já estava exausta. Com Soren, fora diferente. A visão a atingira antes que pudesse escolher. Aquilo a assustava quase tanto quanto os guardas. O lobo se deitou perto da porta, mas manteve a cabeça erguida. — Você vai tentar tocá-lo de novo? — perguntou Darian. — Não agora. Ele assentiu. Íris examinou o ferrolho. Não poderia dormir ali. Quem roubara o caderno sabia como entrar, e quem enviara os guardas sabia onde encontrá-la. — Na sua casa há algum lugar em que possa guardar estes documentos sem que seu tio tenha acesso? — Meu escritório tem um cofre. — Augusto conhece a combinação? — Não. Íris ergueu os olhos. — Você tem certeza ou só acredita nisso? Darian levou alguns segundos para responder. — Vou trocar a combinação na sua frente. Ela considerou a proposta. A residência dos Voss estava expressamente proibida na ordem. Talvez alguém quisesse mantê-la longe de alguma coisa que havia lá. Ou o lugar fosse perigoso por outro motivo. — Quero ficar com uma cópia de tudo — disse. — Certo. — E não vou entregar o anel. Darian olhou para o bolso de seu vestido. — Eu dei a você para examinar. — Seu tio parece discordar. — Meu tio não vai decidir isso. Íris recolheu os papéis. — Então vamos. Durante o caminho, o frio aumentou. Darian caminhava ao lado dela, mantendo espaço suficiente para Soren passar entre os dois quando desejasse. Íris rompeu o silêncio: — Você sabia que eu estaria na cerimônia? — Toda a alcateia foi convocada. — Sabia quem eu era antes de perguntar meu nome? Ele olhou para ela. — Conhecia seu trabalho. Já li relatórios seus nos arquivos. Nunca tinha conversado com você. Íris procurou alguma hesitação em seu rosto. — E não esperava reconhecer sua companheira esta noite? — Não. — Mas já tinha escolhido Celina. Darian reduziu o passo. — Tinha aceitado uma aliança com a família dela. — Que incluía vocês dois. — Sim. Íris continuou andando. — Não precisava me rejeitar diante de todos. Darian demorou a acompanhá-la. — Não precisava. A admissão doeu de uma forma que ela não esperava. Teria sido mais fácil ouvir uma desculpa e descartá-la. — Você me pediu uma explicação no salão — disse ele. — Eu deveria ter dado. — Ainda deveria. Darian olhou para as janelas iluminadas da residência, já visíveis adiante. — A aliança garante acesso à passagem do norte. É por onde chegam medicamentos e alimentos durante o inverno. Meu pai deixou uma disputa que eu ainda não consegui encerrar. Íris apertou o xale. — E decidiu que eu era um preço aceitável. Ele parou. Ela também, embora preferisse continuar. — Foi o que fiz — respondeu Darian. Íris sustentou seu olhar. O calor do reconhecimento havia cedido, mas seu corpo ainda reagia à proximidade dele. Detestou perceber isso. — Não confunda eu voltar à sua casa com aceitar sua escolha. — Não vou confundir. Soren encostou o focinho em sua mão. Íris desviou os olhos primeiro. A porta principal estava aberta. Henrique aguardava no vestíbulo. Ao ver o lobo, afastou-se do caminho. — Onde está Augusto? — perguntou Darian. — Na ala dos hóspedes, com os representantes. — E Celina? — Pediu para esperar no seu escritório. Darian franziu a testa. Subiram em silêncio. Íris conservou os documentos junto ao peito, enquanto Soren avançava alguns passos à frente. A porta do escritório estava entreaberta. Celina se levantou quando eles entraram. Segurava um caderno de capa verde. Íris reconheceu a mancha no canto, deixada por uma xícara que Elisa derrubara anos antes. — Onde você conseguiu isso? Celina apertou o caderno contra o corpo. — Preciso que me escute antes de chamar os guardas. Íris deu um passo em sua direção. — Isso foi roubado da minha oficina. Celina olhou para Darian, depois voltou a encará-la. — Eu sei. Fui eu que mandei buscar.Darian baixou a mão antes que alcançasse o pelo negro. Soren acompanhou o movimento, mas não recuou. Por alguns segundos, Íris ouviu apenas a respiração dos dois. A sua própria parecia presa em algum lugar do peito. — Está doendo? — perguntou. Darian levou os dedos à camisa, sobre o coração. — Não. O lobo ergueu a cabeça. Em mim também não. Íris apoiou mais peso na bancada. — Ele disse que não está sentindo dor. Darian virou-se para ela. A necessidade de ouvir aquela tradução pareceu atingi-lo depois das palavras. Tentou alguma coisa em silêncio. Íris reconheceu a espera em seu rosto. Nenhuma resposta veio. Soren caminhou até ele. As unhas fizeram um ruído baixo no chão. Darian acompanhou cada passo como se temesse que a aproximação desfizesse o que acabara de acontecer. O lobo encostou o focinho em sua mão. Dessa vez, Darian o tocou. Não houve retorno, transformação ou desaparecimento. Apenas seus dedos afundando no pelo e os olhos se fechando por um instante. Íris
Darian deixou a mão cair de sua cintura. Não se afastou, mas aquele pequeno movimento deu a Íris o espaço de que precisava para terminar a pergunta sem ter de soltá-lo à força. — Eu vou embora com a equipe — respondeu ele. — E vou sentir sua falta. Ela baixou os olhos para o casaco que ainda segurava. — Isso não responde tudo. — Eu sei. O silêncio entre eles não tinha a mesma frieza da despedida anterior. Havia desejo demais ali para que qualquer um fingisse indiferença. Darian respirou fundo. — Eu pedi aquela pausa porque estava esperando que cada encontro nos levasse para um lugar certo. Você não tinha prometido isso. Mesmo assim, quando alguma coisa dava errado, eu sentia como se estivesse perdendo o que já era meu. Íris ergueu o rosto. Ele sustentou seu olhar. — Não quero fazer isso com você. A mão dela afrouxou sobre o tecido. — E eu não quero passar cada momento bom pensando em como vou pagar por ele depois. Darian franziu a testa, ferido pela palavra. Íris contin
Amélia indicou onde deveriam deixar as caixas. Darian desviou os olhos de Íris e seguiu a orientação. Valéria conferiu os volumes que saíam do veículo, enquanto os demais integrantes da equipe organizavam a descarga. Ninguém se aproximou como convidado. Havia trabalho a fazer. Íris terminou a conversa com a família antes de olhar novamente para a entrada. Quando Darian voltou, trazia um pacote de mantas apoiado no braço. — Oi — disse. Ela sentiu o quanto esperara por aquela voz sem o ruído do telefone. — Oi. Darian olhou para sua perna, acomodada numa posição que evitava o movimento. — Está doendo muito? — Menos do que ontem. Mais do que eu gostaria. Ele assentiu. Parecia querer tocá-la, mas manteve a mão no pacote. — Vou deixar isso lá dentro. Íris indicou o espaço. Observou-o se afastar antes de conseguir voltar a prestar atenção ao que acontecia ao redor. Valéria se aproximou quando a descarga estava quase concluída. Entregou a relação dos materiais a Amélia e perg
Íris se sentou. Durante alguns segundos, olhou para Mauro sem encontrar uma resposta que não parecesse maior do que aquilo que sabia. — Eu pensei nessas palavras — disse por fim. — Antes de gritar. Ele baixou a mão da têmpora. — Foi quando consegui olhar para a margem. A lembrança voltou inteira: a corrente, a madeira se desfazendo, o rosto dele virado para a água. Íris apertou os dedos contra o assento. — Você sentiu que precisava obedecer? Mauro franziu a testa. — Eu precisava sair dali. — Não é isso que estou perguntando. Ele compreendeu antes que ela tentasse explicar outra vez. Já conhecia a diferença entre fazer uma escolha sob medo e ter a própria vontade sufocada por alguém. — Não foi como antes — respondeu. — Eu ouvi você. Vi onde estavam tentando me puxar. Quis chegar até lá. Íris respirou devagar. Não era uma explicação para o que acontecera. Mas era a experiência dele, e ela não tinha o direito de substituí-la pelo próprio receio. — Não sei por que consegui
Mauro reapareceu alguns metros abaixo da passarela. A corrente o virou de lado antes que conseguisse erguer a cabeça. Uma das mãos alcançou a madeira que ainda pendia do apoio; a outra desapareceu sob a espuma. Íris avançou um passo. O trabalhador ao seu lado segurou seu braço. — A margem está cedendo. Ela parou. Do outro lado, a família permanecia em terra. O homem apertava a criança contra o peito, enquanto a mulher tentava puxá-lo para mais longe da borda. — Subam! — gritou Íris. — Não tentem atravessar! Mauro ergueu o rosto. A madeira em sua mão se moveu. Íris sentiu o coração bater na garganta. — A corda! Precisamos levar a corda até ele! Dois trabalhadores já corriam para buscá-la. O terceiro tirou o telefone do bolso e pediu ajuda, informando a queda da passarela e a posição da família na outra margem. Íris apontou para Mauro. Não podia perdê-lo de vista. A primeira tentativa caiu longe demais. Mauro tentou estender o braço, mas a corrente atingiu seu rosto e o
Íris baixou o papel. — Você não está pedindo para ficar com o corpo de Darian, está? Soren sacudiu a cabeça imediatamente. Ela deixou os ombros relaxarem um pouco. Não porque o outro desejo fosse menos impossível, mas porque precisava compreender o pedido antes que o medo o deformasse. — Quer descobrir se pode ter uma forma humana sua. O lobo assentiu. Íris olhou para as letras espalhadas pelo chão do quarto, a horas de distância. — Eu entendi. Não sei se existe um jeito de fazer isso. Soren permaneceu diante da câmera. Depois recuou, saindo do enquadramento. Ela esperou até Darian voltar, já vestido. Ele recolheu algumas folhas antes de se sentar. Seu rosto estava sério. — Você sabia que era isso que ele queria? — perguntou Íris. — Não desse jeito. Darian apoiou os cotovelos nos joelhos. — Mas ele não quer tomar meu lugar. Disse isso antes de eu voltar. A tristeza na voz dele não desaparecera. Havia, porém, alguma coisa além do medo. Íris percebeu que ele estava tenta







