LOGINÍris consegue recuperar memórias escondidas em objetos antigos, mas nunca descobriu a verdade sobre a morte da própria irmã. Quando Darian Voss, o novo Alfa, a reconhece como sua companheira destinada, ela acredita que poderá construir um futuro longe dessa perda. Darian, porém, rejeita-a diante de toda a alcateia para preservar uma aliança com outra mulher. Sua decisão provoca algo impossível: o lobo se separa do corpo dele e escolhe ficar ao lado de Íris, levando consigo a força que sustentava a autoridade do Alfa. A ligação transforma Íris no centro de uma disputa entre alcateias. Enquanto Darian tenta recuperar seu poder e os outros líderes procuram uma maneira de controlar o fenômeno, ela descobre que o lobo guarda lembranças ligadas à morte de sua irmã. Determinada a investigar, Íris negocia sua volta à casa de Darian. A convivência aproxima os dois, mas cada descoberta coloca em dúvida as intenções do homem que a rejeitou — e revela o perigo que corre ao confiar nele. Entre alianças ameaçadas, memórias ocultas e uma atração que sobreviveu à rejeição, Íris terá de aprender a exercer uma autoridade que nenhum Alfa está disposto a reconhecer. O destino que antes a ligava a Darian como companheira agora pode colocá-la acima dele.
View MoreA primeira coisa que Íris sentiu ao tocar o broche foi medo.
Não o seu. Uma mulher corria por um corredor estreito, segurando a joia contra o peito. Havia passos atrás dela e uma porta que não abria. A lembrança terminou antes que Íris pudesse ver o rosto de quem a perseguia. Ela soltou o broche sobre o veludo. — Conseguiu recuperar alguma coisa? — perguntou a criada. Íris olhou para a pequena peça de prata. Uma das pontas havia sido consertada recentemente, mas a memória era antiga. Os objetos guardavam acontecimentos sem explicar por que os haviam conservado. — Ainda não o suficiente para entregar um relatório. A criada apertou os lábios. — A senhora Celina quer usá-lo esta noite. — Então diga a ela que o fecho está seguro. Vou precisar examiná-lo novamente amanhã. Assim que a mulher saiu, Íris cobriu a joia com um pano. Aquela lembrança teria de esperar. A convocação para a cerimônia estava aberta sobre sua mesa, com o selo do novo Alfa marcado em cera preta. Todos deveriam comparecer. Íris preferia ficar na oficina. Ela era humana. Seu dom lhe permitia trabalhar com as memórias da alcateia, mas ela não possuía uma consciência animal nem podia se transformar. Conhecia as regras dos lobisomens por viver entre eles, não por compartilhá-las no próprio corpo. Desde a morte de Elisa, as reuniões da alcateia haviam se tornado um exercício de paciência. Sempre havia alguém disposto a mencionar sua irmã e, logo depois, recomendar que ela deixasse o passado descansar. Como se uma mulher encontrada morta perto da fronteira pudesse explicar o que lhe acontecera. Íris guardou a convocação e vestiu o único vestido adequado que possuía. Ao fechar os botões, seus dedos procuraram o pequeno pingente sob o tecido. Elisa o havia comprado numa feira. Nenhuma lembrança permanecera nele. Íris tentara recuperá-las tantas vezes que já conhecia cada irregularidade do metal. --- O salão da residência dos Voss estava cheio quando ela chegou. Íris reconheceu famílias para quem trabalhava, guardas da fronteira e representantes de outras alcateias. Sobre a mesa principal, taças intocadas refletiam a luz dos lustres. Darian permanecia perto das janelas, conversando com um homem grisalho. Vestia preto, sem os adornos que seu pai costumava usar. A postura era firme, mas ele mantinha uma das mãos fechada junto ao corpo. Íris conhecia seu rosto. Já o vira atravessar o pátio, receber mensageiros e acompanhar patrulhas. Nunca estivera tão perto. Ao passar entre dois convidados, sentiu um calor repentino subir pelo peito. Parou. O cheiro de madeira molhada e resina chegou até ela, nítido demais para pertencer ao salão. Seus olhos encontraram Darian antes que entendesse o que estava acontecendo. Ele interrompeu a conversa. A mão fechada se abriu. Por alguns segundos, ninguém pareceu existir entre os dois. Íris já ouvira descrições daquele reconhecimento. Sabia que um lobisomem podia reconhecer uma pessoa humana como companheira, embora fosse incomum. Nunca imaginara que isso aconteceria com ela. Achava que eram exageros de quem desejava dar um sentido bonito ao próprio casamento. Agora precisava apoiar os dedos no encosto de uma cadeira para não caminhar até ele. Darian veio primeiro. Os convidados se afastaram à sua passagem. Quando parou diante dela, Íris percebeu uma pequena cicatriz perto de sua sobrancelha e a respiração contida. — Qual é o seu nome? A pergunta a surpreendeu mais do que deveria. — Íris. Ele olhou para o pingente que aparecia junto ao decote. — Você é a restauradora dos arquivos. Ela assentiu. A expressão dele mudou. O reconhecimento continuava ali, mas alguma coisa o fez recuar meio passo. — Venha comigo — disse Darian. Antes que Íris respondesse, uma mulher se aproximou. Celina usava o broche de prata. — Estão esperando por você — avisou, tocando o braço dele. Darian não desviou os olhos de Íris. — Preciso resolver uma coisa. Celina acompanhou seu olhar. Sua mão permaneceu no braço dele, embora o sorriso desaparecesse. Íris compreendeu então por que os representantes de outra alcateia ocupavam os melhores lugares. Por que as flores traziam duas cores. Por que Celina usava uma joia dos Voss. Aquela cerimônia incluía uma aliança. — Ela? — perguntou Celina, quase sem voz. Darian soltou o braço. — Espere perto da mesa. Celina hesitou, mas obedeceu. O silêncio começou a se espalhar pelo salão. Íris sentiu o rosto aquecer sob a atenção dos convidados. — Podemos conversar em outro lugar — sugeriu. Darian observou as portas, depois o homem grisalho junto à janela. O homem fez um movimento discreto com a cabeça. — Não — respondeu o Alfa. — Precisam ouvir. O calor no peito de Íris se tornou desconfortável. — Ouvir o quê? Ele demorou a responder. Aquela demora lhe deu esperança. Talvez fosse anunciar o reconhecimento. Talvez precisasse explicar a Celina que nenhum acordo poderia prever a escolha de um companheiro destinado. Então Darian endireitou os ombros. — A alcateia depende da aliança que será formalizada esta noite. Íris retirou a mão da cadeira. — Eu não pedi que você rompesse acordo nenhum. — Existem consequências que você desconhece. — Então me explique. Algo se moveu sob a pele do pescoço dele. Darian fechou os olhos por um instante. Quando voltou a abri-los, havia um reflexo dourado em suas íris. — Não posso aceitar esse vínculo. Ao redor deles, alguém puxou o ar. Íris ouviu a frase, mas seu corpo continuou inclinado na direção dele, esperando uma proximidade que sua cabeça já compreendia que não viria. — Você acabou de perguntar meu nome. Darian engoliu em seco. — Íris… — É tudo o que sabe sobre mim. Ele baixou os olhos. Por um momento, ela pensou que tivesse conseguido detê-lo. — Eu, Darian Voss, rejeito você como minha companheira. A dor a dobrou antes que pudesse responder. Íris segurou o encosto da cadeira, derrubando uma taça. O vidro se partiu perto de seus pés. Tentou respirar, mas o peito parecia incapaz de abrir. Ninguém se aproximou. Ela ergueu a cabeça, procurando Darian entre as manchas que escureciam sua visão. Ele também havia perdido a cor. Uma voz grave atravessou o salão. — Não. Íris viu a boca de Darian permanecer fechada. O Alfa levou a mão ao peito. — Fique — ordenou, dessa vez com a própria voz. Uma sombra escura se abriu atrás dele. As pessoas recuaram. Celina gritou quando Darian caiu de joelhos e a sombra ganhou volume, patas e um corpo coberto de pelos negros. Íris se agarrou à cadeira. O lobo saiu completamente do corpo do Alfa. Era enorme. Seus olhos dourados passaram pelos convidados antes de encontrá-la. Darian estendeu a mão. — Volte. A criatura atravessou o espaço entre os dois. Íris não conseguiu se mover quando o focinho se aproximou de seus dedos. O calor em seu peito mudou. A dor cedeu o suficiente para que ela respirasse. Atrás do animal, Darian tentou se levantar. O lobo mostrou os dentes, obrigando-o a ficar onde estava. Depois voltou o focinho para Íris e encostou-o em seus dedos. O contato trouxe uma lembrança. Elisa estava ajoelhada no chão de um quarto. Havia sangue na manga de sua blusa e alguém diante dela, perto demais para que Íris conseguisse ver seu rosto. Sua irmã ergueu a cabeça. — Ela não sabe de nada. Eu juro. Uma mão entrou em seu campo de visão e segurou o queixo de Elisa. No dedo, um anel de prata exibia o brasão dos Voss. Íris recuou, rompendo o contato. A memória desapareceu. O salão voltou ao seu redor, mas ela mal ouviu as vozes dos convidados. Darian olhava para sua mão. Usava o mesmo anel. — O que você viu? — perguntou ele. Íris abriu a boca, sem conseguir responder. Darian deu um passo em sua direção. — Íris, escute. Sua irmã…Darian aproximou-se da prateleira. — Precisamos conferir o registro completo. Íris manteve a pasta aberta. A data da devolução da chave era a mesma em que encontraram Elisa, mas ainda não dizia quando a vistoria acontecera. Ele tinha razão. Ela procurou o número de referência e chamou Amélia. A conselheira veio acompanhada pelo funcionário responsável pelo inventário. Ninguém retiraria aquele documento sem registrar sua origem. — A chave foi devolvida a quem? — perguntou Íris. O funcionário examinou o campo seguinte. — À administração da casa. Não há recibo da proprietária da oficina. Íris olhou para Darian. — Nunca devolveram para mim. Amélia pediu que localizassem o relatório da vistoria. Enquanto aguardavam, Íris observou a cadeira presa ao chão. Aquele lugar havia mantido Darian imóvel e impedido Elisa de sair quando quis. Agora pretendiam apresentar tudo como procedimentos administrativos. Ela fechou a pasta com cuidado. Não lhes daria a possibilidad
A Casa de Custódia apareceu depois de uma curva estreita, cercada por árvores e um muro baixo. Íris reconheceu a fachada pelas descrições dos arquivos. Até então, nunca tivera motivo para entrar. Darian estava sentado ao seu lado. Quando o veículo parou, ele permaneceu imóvel por um instante. Íris olhou para sua mão fechada sobre o joelho. — Não precisa entrar antes de estar pronto. Ele voltou os olhos para ela. — Preciso entrar sabendo que posso sair. Íris assentiu. Dessa vez, ninguém os levara até ali sob o efeito de uma dose. Amélia desceu do primeiro veículo com a determinação assinada pelos conselheiros. Caio e os guardas se posicionaram junto à equipe que aguardava no portão. Augusto permaneceu diante da entrada. Atrás dele, a porta traseira de um veículo estava aberta. Duas caixas de arquivo já haviam sido carregadas. — Esses documentos seriam levados para conferência — disse. Amélia mostrou a determinação. — A conferência será feita aqui. Nenhuma caixa sai antes
Darian puxou uma cadeira, mas não se sentou. — Quando me examinou depois da patrulha, você disse que poderia ser envenenamento. — Era uma hipótese — respondeu o médico. — A febre e os tremores já estavam presentes. Eu não identifiquei a causa antes de encaminhá-lo. — E, mesmo assim, me deu algo para enfraquecer Soren. O homem baixou os olhos. — Disseram que a reação do seu lobo estava agravando seu estado. Íris colocou a bolsa sobre a mesa. — Quem disse? — Augusto. Amélia pediu que o funcionário registrasse o nome. O médico da enfermaria aproximou a autorização da arena. — Esta dose tinha a mesma finalidade? — Tinha. Reduzir a comunicação entre a pessoa e seu lobo por algum tempo. — Henrique não estava doente — observou Íris. O homem apertou os dedos contra o joelho. — A solicitação dizia que ele resistia a participar do teste. Que precisavam evitar interferência da consciência animal. Darian soltou uma respiração curta. — Queriam que o lobo respondesse a Íris, mas de
Darian não tentou diminuir o que acabara de admitir. — Eu prometi preservar a aliança, mesmo que reconhecesse outra companheira. Íris segurou a alça da bolsa. — E, quando me encontrou, cumpriu a promessa. — Sim. Celina permaneceu perto da parede. A confissão não a deixara mais tranquila; parecia apenas ter retirado uma proteção atrás da qual se escondera. Íris olhou para ela. — Você sabia que meu nome estava ligado à avaliação. Ele também sabia? — Não contei — respondeu Celina. — Pedi uma garantia sobre o casamento. Não mencionei você. Darian sustentou o olhar de Íris. — Eu não sabia quem seria. Mas isso não torna a decisão melhor. Ela assentiu lentamente. Não precisava transformar a omissão de Celina numa desculpa para ele. — Quero ficar sozinha. Darian afastou-se da passagem. Soren acompanhou Íris até o quarto. Ela fechou a porta e colocou a bolsa sobre a mesa. Tinha conseguido respostas naquela manhã. O pedido de avaliação existia. Augusto o recebe






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