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Capítulo 2 — Dez horas antes

last update Fecha de publicación: 2026-09-02 03:00:49

Iris acordou antes do sol nascer.

O quarto era pequeno. A cama de solteiro rangia toda vez que ela se mexia, e a parede do lado da cabeceira ainda tinha a marca úmida da infiltração que a mãe tentava esconder com um quadro barato de flores. Do outro lado da porta fina, ela ouvia o pai tossindo baixinho e a mãe já na cozinha, preparando o café com o que tinha sobrado do pão de ontem.

Ela se vestiu em silêncio.

O uniforme da Academia Lobo Prateado era o mesmo de sempre: saia cinza um pouco larga demais na cintura (porque a mãe tinha comprado dois números acima “para durar mais”), blusa branca desbotada nas mangas e o blazer que já tinha sido de outra aluna. Iris puxou o cabelo castanho num rabo de cavalo torto, colocou os óculos e olhou para o espelho rachado. O rosto que aparecia era o de sempre: pálido, sem maquiagem, sem nada que chamasse atenção.

Exatamente como ela queria.

Na cozinha, a mãe empurrou um copo de café preto e uma fatia de pão com margarina na direção dela.

— Come rápido, filha. O ônibus não espera.

Iris assentiu, comeu em silêncio e saiu. O ar da manhã ainda estava frio. A casa ficava no bairro mais afastado da cidade, longe das mansões de pedra e dos condomínios fechados onde moravam as famílias nobres das alcateias. O ônibus escolar da Academia só passava na avenida principal, então ela caminhava quase vinte minutos até o ponto, com a mochila pesada batendo nas costas.

Na Academia Lobo Prateado, os filhos de Alfas e herdeiros chegavam de carros pretos com vidro fumê. Iris chegava a pé.

Quando o ônibus finalmente parou em frente aos portões altos de ferro forjado, ela desceu por último. Os outros alunos já estavam espalhados pelo pátio de pedra clara, rindo alto, trocando fofocas, exibindo jaquetas novas e celulares caros. Ninguém olhou para ela. Ninguém nunca olhava.

Iris apertou a alça da mochila e atravessou o pátio como se fosse invisível.

E era.

Naquele lugar, ser invisível era a única proteção que ela tinha.

O prédio principal da Academia era imponente: paredes de pedra cinza, janelas altas, o brasão das alcateias nobres esculpido acima da entrada. Dentro, os corredores cheiravam a madeira cara e a perfume importado. Iris se esgueirou até o fundo da sala de história, como fazia todos os dias, e se sentou na última fileira, perto da janela. Abriu o caderno e se manteve de cabeça baixa.

Dez minutos depois, a porta se abriu com força.

Luke Blackwood entrou.

O herdeiro da alcateia mais poderosa da região não precisava fazer barulho para ser notado. O silêncio se fez sozinho. Várias cabeças se viraram. Algumas meninas endireitaram a postura. Um grupo de meninos do time de combate se endireitou nas cadeiras.

Luke andava como se o chão pertencesse a ele.

Cabelo preto impecável, uniforme perfeito (o blazer cortado sob medida, o relógio de ouro no pulso), o sorriso preguiçoso de quem sabia exatamente o efeito que causava. A seu lado, como sempre, vinha Sofia Voss, loira, filha de um Beta influente, a loba que todo mundo dizia ser a futura Luna dele. Ela ria de alguma coisa que Luke tinha dito e apoiava a mão no braço dele como se fosse um direito natural.

Iris não levantou a cabeça.

Mas sentiu.

Sentiu o cheiro dele passar pelo corredor da sala, madeira, couro e algo selvagem por baixo. Sentiu as olhares das outras meninas se voltarem para ele como flores se virando para o sol. Sentiu a forma como a sala inteira se reorganizava em torno da presença de Luke.

Ele se sentou duas fileiras à frente, no centro. Sofia ocupou o lugar ao lado. Em menos de um minuto, três outras alunas já tinham se aproximado com desculpas esfarrapadas, rindo alto demais, tocando o ombro dele sem necessidade.

Luke aceitava tudo com a mesma indiferença arrogante.

Iris apertou a caneta com mais força.

Ela não era apaixonada por ele. Nunca tinha sonhado em ser a Luna de ninguém. Só queria terminar o ensino médio sem chamar atenção, sem ser lembrada, sem ser o alvo das piadas baixas que às vezes escapavam pelos corredores quando alguém notava a mochila velha ou o uniforme desbotado.

Mas naquele lugar, ser pobre era quase um crime.

Na hora do intervalo, Iris ficou na biblioteca. Era o único lugar onde quase ninguém a incomodava. Pegou um livro de história das alcateias e se sentou no canto mais afastado, perto das estantes de poeira. Do lado de fora, pelo vidro, ela via o pátio central: Luke no meio de um círculo de pessoas, rindo, com o braço casualmente jogado sobre os ombros de Sofia. Alguém tirou uma foto. Outra pessoa gritou o nome dele. Ele levantou a mão em cumprimento, como um príncipe reconhecendo súditos.

Iris baixou o olhar para o livro.

As palavras dançavam sem sentido.

Ela pensou na casa pequena, no cheiro de mofo no quarto, no jeito como a mãe contava as moedas no fim do mês. Pensou no pai, que trabalhava em turnos dobrados numa fábrica de embalagens para sustentar a família. Pensou no uniforme grande demais e nos óculos tortos.

E pensou, por um segundo apenas, como seria se alguém como Luke Blackwood um dia olhasse na direção dela.

A ideia foi tão absurda que ela quase riu sozinha.

Dez horas depois, na sala de artes semiluminada, esse pensamento ainda estaria vivo em algum canto da mente dela, pequeno, ridículo, quase morto.

Até a porta se abrir.

Até o cheiro da Bruma invadir o ar.

Até Luke Blackwood, com o corpo ainda enterrado em Sofia, erguer os olhos e fixá-los exatamente nela, enquanto gozava, a rejeitando como sua Luna.

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