LOGINIris ainda estava parada no corredor quando a porta da sala de artes se fechou atrás de Sofia.
A loira saiu arrumando o cabelo, os lábios inchados e o sorriso satisfeito de quem acabara de marcar território. Quando os olhos azuis encontraram os de Iris, o sorriso se alargou. Sofia parou bem na frente dela. — Gostou do show? — perguntou, a voz baixa e doce, carregada de veneno. — Porque foi só isso que você vai ter direito de ver. Luke não toca em lixo, Iris. Você é uma ninguém. Sem família, sem prestígio, sem nada. Continua olhando de longe, tá bem? É o máximo que uma pobre como você consegue. Iris não respondeu. Não conseguiu. O corpo ainda tremia. O cheiro da Bruma ainda queimava no fundo da garganta, misturado ao cheiro de sexo que Sofia carregava como um troféu. O vínculo latejava no peito dela, dolorido, rejeitado, como se alguém tivesse arrancado um pedaço vivo e deixado o buraco aberto. Sofia riu baixinho e passou por ela, batendo o ombro de propósito. Iris ficou sozinha no corredor vazio. Só então as pernas cederam. Ela escorregou pela parede até se sentar no chão frio, os óculos tortos, o uniforme amarrotado, os livros espalhados ao redor. As mãos tremiam tanto que ela precisou apertá-las contra o próprio peito para não gritar. As lágrimas vieram quentes, pesadas, sem controle. Por que ele? De todos os lobos da Academia, de todas as alcateias, de todos os herdeiros arrogantes e bonitos… por que o destino tinha escolhido exatamente Luke Blackwood? O mesmo que a olhava como se ela fosse sujeira no chão. O mesmo que acabara de gozar dentro de outra loba enquanto segurava o olhar nela. O mesmo que disse, com a voz ainda rouca de prazer: “Você não conta. Nunca vai contar.” Iris chorou até não sobrar ar. Chorou de humilhação, de vergonha, de uma dor física que o vínculo rejeitado cravava fundo demais para ser só emocional. A loba dentro dela uivava baixinho, ferida, confusa, querendo correr até ele e ao mesmo tempo querendo desaparecer para sempre. Quando finalmente se levantou, o rosto estava inchado e o uniforme manchado de lágrimas. Ela recolheu os livros com mãos trêmulas e saiu da Academia sem olhar para ninguém. Em casa, a mãe perguntou se ela estava bem. Iris mentiu. Trancou-se no quarto pequeno, deitou na cama que rangia e chorou de novo. Chorou até a noite cair. Chorou até o corpo doer. Cada vez que fechava os olhos, via o mesmo quadro: Luke empurrando dentro de outra, os olhos escuros presos nela, o sorriso frio depois, a voz cortante. Você não conta. Nunca vai contar. No dia seguinte, Iris chegou mais cedo. Queria se esconder na biblioteca antes que os corredores enchessem. Mas já na entrada do pátio sentiu os olhares. Vários. Alunos paravam de conversar quando ela passava. Outros riam atrás da mão. Um grupo de meninas do terceiro ano apontou e cochichou alto demais para ser discrição. Iris apertou a alça da mochila e acelerou o passo. Foi só quando entrou no corredor principal que entendeu. Os cartazes estavam em toda parte. Colados nas paredes, nos armários, nas portas das salas. Fotos dela, tiradas às escondidas, ruins, com o uniforme grande e os óculos tortos, impressas em folhas A4. Embaixo, frases escritas com caneta preta grossa: **A luna pobre rejeitada** **Nunca será uma Luna** **Luke merece melhor** **Volta pro bairro de onde veio** **Lixo não tem vínculo** Alguns cartazes tinham setas desenhadas apontando para o rosto dela. Outros tinham corações partidos e a palavra “rejeitada” grifada em letras maiúsculas. Iris parou no meio do corredor. O sangue subiu quente até as orelhas. O estômago revirou. O vínculo, ainda cru da noite anterior, latejou com uma dor nova, pública, exposta. Alguém riu alto atrás dela. Ela levantou os olhos. No fim do corredor, encostado no armário como se nada daquilo tivesse a ver com ele, estava Luke. Uniforme impecável. Cabelo perfeito. Sofia grudada no braço dele, sorrindo como se tivesse acabado de ganhar um prêmio. Iris o encarou. Pediu, sem palavras, que ele fizesse alguma coisa. Que mandasse tirar. Que dissesse que era mentira. Que, pelo menos, desviasse o olhar de vergonha. Luke sustentou o olhar dela por dois segundos. Depois desviou. Como se ela fosse invisível. Como se os cartazes não existissem. Como se a humilhação pública fosse apenas o natural. Sofia riu baixinho e sussurrou alguma coisa no ouvido dele. Luke deu de ombros e os dois seguiram andando, passando por Iris sem sequer diminuir o passo. Os cochichos aumentaram. Iris forçou as pernas a se moverem. Cada passo doía. O corredor parecia mais longo, os cartazes se multiplicavam na visão embaçada de lágrimas que ela tentava a todo custo segurar. Alguém empurrou o ombro dela de propósito. Outro cochichou “rejeitada” bem alto. Iris não olhou para trás. Não chorou. Não deu a eles esse prazer. Ela só andou. Até o banheiro do fundo do segundo andar, o único que quase ninguém usava. Trancou a porta da cabine, sentou no vaso fechado e finalmente deixou as lágrimas caírem de novo silenciosas, quentes, cheias de uma raiva nova que misturava com a dor do vínculo. Naquele momento, Iris não pensou em vingança. Pensou apenas que queria desaparecer. Mas o destino, cruel e insistente, já tinha decidido que ela não ia ter nem esse luxo, que os dias seguintes seriam muito piores do que aquele.A academia ficava numa sala estreita no fundo de um prédio comercial, com espelhos rachados e cheiro de ferro.Kayle empurrou a porta no primeiro sábado e olhou Iris de cima a baixo.— Você come como quem quer desaparecer — disse. — E o corpo responde. Magra demais. Ombro fechado. Cara de quem pede desculpa por ocupar espaço. Isso morre aqui.Iris cruzou os braços.— Eu não quero ser igual a elas.— Não vai ser. Elas usam o corpo para serem escolhidas. Você vai usar o corpo para não ser ignorada.O plano era simples e pesado.Comer de verdade. Treinar até doer. Dormir. Repetir.Nas primeiras semanas, Iris odiou cada parte. O arroz que a mãe passou a fazer em porção maior. O frango. O ovo. O peso nas mãos. O
O caderno de Kayle ficou aberto sobre a cama por três noites. Nomes. Alcateias. Datas. O que cada herdeiro valorizava. O que cada família fingia ser. Iris lia e relia até as letras se misturarem. O ódio ainda queimava, mas ódio sozinho não derrubava ninguém. Ela já tinha aprendido isso no pátio da Academia, quando chamou Luke de covarde e saiu menor do que entrou. Na quarta noite, Kayle fechou o caderno. — Se a gente voltar do mesmo jeito que saiu, eles vão rir de novo — disse. — Pobre. Sem nome. Sem peso. A faculdade dos herdeiros não aceita rejeitada. Aceita poder. Iris sentou na beira da cama, as costelas ainda doloridas por baixo da blusa. — Então eu preciso mudar. — Não só o cabelo e a roupa. Isso é o fácil. Você
A nova escola não tinha brasões esculpidos nem carros pretos no portão.Era um prédio comum, de paredes descascadas e pátio de concreto rachado. Ninguém usava uniforme de grife. Ninguém cheirava a perfume importado. Iris se sentou no fundo da sala no primeiro dia e, pela primeira vez em meses, ninguém apontou. Ninguém sussurrou “rejeitada”. Ninguém a olhou como se ela fosse uma piada.Ainda assim, o vínculo continuava lá.Uma dor baixa, constante, puxando na direção errada. Na direção de uma cidade que ela tinha deixado para trás. Na direção de um lobo que tinha escolhido cuspi-la.No terceiro dia, alguém sentou do lado dela no intervalo.— Você também veio da Academia Lobo Prateado, né?Iris ergueu os olhos.A garota tinha cabelo curto e
A pancada veio sem aviso.Iris estava saindo do banheiro do segundo andar quando alguém a puxou pelo cabelo e a jogou contra a parede. A nuca bateu no azulejo. O ar sumiu. Antes que ela conseguisse entender, mãos a seguraram pelos braços e a arrastaram de volta para o vestiário.Sofia estava lá.Não sozinha.Duas lobas do círculo dela e um menino do time de combate, o mesmo que tinha rido alto no pátio dias antes. A porta foi trancada por dentro.— A rejeitada ainda não aprendeu — disse Sofia, a voz doce demais. — Achou que podia chamar o Luke de covarde na frente de todo mundo e sair ilesa?Iris tentou se soltar. A loba dentro dela rosnou, mas o corpo humano ainda era fraco, cansado, marcado pelo vínculo rejeitado. Uma das garotas segurou seus pulsos. O menino empurrou o ombro dela com força suficiente para fazê-la cair de joelho no chão frio.O primeiro chute acertou as costelas.O segundo, a coxa.Alguém puxou o blazer até o tecido rasgar. Alguém cuspiu. Sofia se agachou na frente
Os dias seguintes foram um inferno lento. Toda manhã Iris chegava na Academia e já sentia os olhares. Os cochichos. As risadas baixas que paravam quando ela passava e recomeçavam assim que ela virava as costas. Os cartazes tinham sumido, mas a frase “luna pobre rejeitada” ainda ecoava pelos corredores como um grito silencioso. As alunas de Sofia a empurravam nos corredores. Derrubavam seus livros de propósito. Sussurravam “rejeitada” bem perto do ouvido dela quando o professor não estava olhando. Um dia alguém colocou cola no lugar dela na sala. Em outro, rasgaram a capa do único caderno novo que ela tinha. E Luke? Luke fingia que ela não existia. Passava por ela nos corredores como se fosse ar. Ria com Sofia. Beijava Sofia. Colocava o braço em volta dos ombros de Sofia na frente de todo mundo. Cada gesto era uma facada nova no vínculo já dilacerado. Cada vez que o cheiro dele se aproximava e depois se afastava sem sequer um olhar, a dor física aumentava e junto com a dor, cresci
No dia seguinte, Iris quase não foi. Acordou com os olhos inchados e a dor do vínculo latejando no peito como um hematoma que não cicatrizava. A dor física era real. Queimava sob a pele, apertava a garganta, fazia o estômago revirar toda vez que ela lembrava do cheiro de Sofia misturado ao de Luke. A mãe notou o rosto dela na cozinha e perguntou de novo se estava tudo bem. Iris mentiu com a voz rouca. Vestiu o uniforme, pegou a mochila e saiu de casa com as mãos trêmulas e o coração batendo alto demais. Na Academia, o ar já estava pesado. Os cartazes ainda estavam colados em alguns lugares, menos que no dia anterior, mas suficientes para lembrar a todos quem era a “luna pobre rejeitada”. Alguns alunos apontavam quando ela passava. Outros riam baixinho. Iris manteve a cabeça baixa e caminhou direto para o vestiário feminino do segundo andar. Queria trocar de blazer antes da aula de combate. Queria apenas cinco minutos de silêncio. Cinco minutos em que ninguém a olhasse como se ela f







