MasukDurante o almoço, o episódio no corredor ganhou versões diferentes.Em uma delas, Luke havia rompido publicamente uma aliança com os Voss. Em outra, Iris exigira que ele nunca mais tocasse em Sofia. Também circulava a versão de que os dois tinham passado a noite juntos no jardim, o que fez Helena quase engasgar de tanto rir.Iris não corrigiu nenhuma.Negar alimentaria os rumores tanto quanto confirmar.Escolheu uma mesa lateral com Helena e Nora. Enquanto comia, analisou a organização do salão. Kayle lhe ensinara que toda sala revelava sua hierarquia nos primeiros minutos, desde que ela não se distraísse tentando ser aceita.Os herdeiros das famílias mais antigas ocupavam as mesas centrais. Os filhos de Betas se distribuíam ao redor, próximos o suficiente para serem chamados, mas distantes o bastante para não parecerem iguais. Bolsistas e alunos sem linhagem conhecida ficavam nas extremidades.Luke sentava no centro.Sofia não estava ao lado dele.Havia uma cadeira vazia onde ela prov
Luke cumpriu a ordem.Não seguiu Iris pelo corredor. Não mandou mensagem naquela noite, não apareceu diante do alojamento feminino com uma desculpa qualquer nem enviou outra pessoa para descobrir onde ela estava hospedada.Ainda assim, Iris o sentiu.Sentiu quando atravessou o corredor do prédio residencial e o vínculo esticou atrás dela, fino e dolorido, como um músculo forçado depois de muito tempo parado. Sentiu ao fechar a porta do quarto. Sentiu enquanto tirava os sapatos e lavava o rosto na pequena pia que dividia com as outras duas alunas.Luke permanecia no jardim.Sozinho.Pela primeira vez, obedecia a um limite imposto por ela.A constatação deveria ter trazido satisfação. Em vez disso, abriu um espaço desconfortável dentro de Iris. Ela estava preparada para arrogância, insistência e ameaças disfarçadas de preocupação. Sabia lutar contra todas essas coisas.Obediência era mais difícil.Obediência permitia dúvida.— Você está bem? — perguntou Helena, sentada na cama ao lado.
Quando Iris voltou ao alojamento, já não estava sozinha.A segunda cama fora ocupada durante a apresentação. As caixas que antes permaneciam fechadas agora estavam empilhadas ao lado do armário, e algumas roupas pendiam em cabides cobertos por capas transparentes. Sobre a mesa, frascos de perfume, livros e objetos de prata estavam organizados com uma precisão que não combinava com uma mudança apressada.A garota sentada perto da janela ergueu os olhos quando Iris entrou.Tinha cabelos escuros cortados abaixo dos ombros, pele morena e uma postura relaxada demais para alguém que acabara de chegar. Não usava brasão na roupa, mas uma das caixas trazia o símbolo dos Alencar, uma das famílias fundadoras.— Então é você — disse ela.Iris fechou a porta.— Isso depende do que contaram.A garota sorriu.— Eloá Alencar. E, aparentemente, sua colega de quarto.— Iris.— Eu sei.Iris deixou a bolsa sobre a cama e começou a retirar os documentos. Não perguntou como Eloá sabia seu nome. A cerimônia
Luke permaneceu na escadaria mesmo depois que Iris desapareceu dentro do edifício.Ao redor dele, as conversas começaram a retornar aos poucos, primeiro em murmúrios, depois em perguntas disfarçadas. Ninguém se afastou de verdade. Os herdeiros fingiam falar sobre a apresentação, os alojamentos ou o começo do ciclo, mas continuavam atentos a cada movimento seu.Todos tinham visto.Tinham visto Luke Blackwood parar no meio da escadaria. Tinham visto sua mão agarrar o corrimão e ouvido quando ele pediu, diante de todos, que uma desconhecida conversasse com ele.Pior: tinham visto a garota recusá-lo.— Luke?Sofia tocou seu braço. O gesto fez o lobo reagir com uma irritação tão violenta que ele se afastou antes de pensar.Ela recolheu a mão.— Quem era aquela garota?Luke continuou olhando para as portas da torre. O cheiro de Iris permanecia no ar, diferente do que guardava na memória. Ainda havia algo suave, quase doce, mas agora misturado a uma firmeza que ele não reconhecia.— Ninguém
O ônibus parou diante da Universidade das Alcateias pouco depois do meio-dia.Iris abriu os olhos antes que o motorista anunciasse a chegada. O vínculo já havia avisado. Pulsava no centro de seu peito com uma força crescente, inquietando sua loba e tornando o ar pesado demais para entrar nos pulmões.Luke estava perto.Não perto o bastante para que ela reconhecesse seu cheiro, mas dentro da mesma cidade, talvez do outro lado daqueles muros. Depois de meses sentindo apenas fragmentos distantes, a proximidade transformava o vínculo numa corrente esticada entre os dois.Os outros passageiros começaram a se levantar, abrindo os compartimentos acima dos bancos e puxando malas. Iris permaneceu sentada por alguns segundos. Fechou os olhos, encontrou a porta dentro de si e pressionou as mãos imaginárias contra a madeira.O vínculo resistiu.Sua loba arranhou do outro lado, ansiosa para procurar o companheiro que ainda reconhecia como seu apesar da rejeição.Iris respirou fundo e empurrou com
A maleta era nova.A mãe a comprara com parte do dinheiro que sobrara do turno extra do pai, numa loja pequena do centro onde se vendiam bolsas, mochilas e artigos de viagem sem marcas famosas. Não tinha detalhes luxuosos nem um brasão costurado no tecido. Ainda assim, era resistente, o zíper deslizava sem emperrar e as alças não machucavam as mãos.Era a primeira coisa comprada exclusivamente para a partida de Iris.Ela a abriu sobre a cama e permaneceu alguns instantes contemplando o espaço vazio. O interior revestido de tecido cinza parecia maior do que deveria, como se ainda não soubesse o que precisaria carregar: roupas, documentos, expectativas ou todas as versões de Iris que haviam existido até ali.Começou pelas calças. Escolheu duas que serviam de verdade, sem precisar de um cinto apertado demais para mantê-las no lugar. Depois, separou três blusas que valorizavam o corpo fortalecido pelos treinos sem parecerem escolhidas para chamar atenção: uma preta, uma cinza e a camisa b







