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Capítulo 3

Author: Jô Não Come
Eu caí sentada no chão, e uma fisgada violenta atravessou o meu abdômen, roubando o ar dos meus pulmões. Eu havia feito um aborto no dia anterior. O meu corpo não suportou o impacto da queda provocada pelo empurrão de Igor.

Tateei o chão até encontrar a bengala e me forcei a ficar de pé:

— Eu posso ser cega dos olhos, mas não do coração. Igor, vocês sabem muito bem o que fizeram comigo.

A voz de Igor veio carregada de ansiedade:

— O que foi que nós fizemos? Eu e a Joy não temos nada. O meu relacionamento com ela é completamente limpo. Se existe algum mal-entendido, você pode falar comigo. Não saia agredindo as pessoas. Se agir desse jeito, como acha que os funcionários vão olhar para mim? E para você?

Antes que eu respondesse, Joyce começou a chorar:

— A culpa é minha. Eu fui impulsiva ao trazer a Cá para a empresa e acabei fazendo ela entender tudo errado. Daqui para frente vou manter distância de vocês dois. Não vou deixar esse tipo de situação acontecer de novo. Eu vou embora, está bem?

Assim que terminou de falar, Joyce saiu correndo. E Igor correu atrás dela sem a menor hesitação.

Quando ouvi os passos dos dois se afastando, finalmente perdi todas as forças e desabei no chão.

"Igor, acabou. Desta vez, acabou de verdade."

Foi o que disse a mim mesma.

Quando voltei a abrir os olhos, já estava deitada numa cama de hospital.

Só então Igor resolveu me ligar:

— Cá, espero que você não leve a sério o que aconteceu hoje. Eu não queria brigar com você de verdade. Tinha muita gente olhando. Eu falei daquele jeito para proteger você. Caso contrário, como acha que eles veriam você depois? Agora precisa descansar direitinho no hospital. Não pode ficar se irritando. Eu já estou indo para aí e vou pedir um check-up completo. Não fique triste, está bem? Neste ano, no seu aniversário, eu levo você para o exterior. Combinado?

Mentiroso.

Quando gritou comigo, eu ouvi perfeitamente a raiva na voz dele. Ele estava realmente furioso.

Aquelas palavras doces agora não passavam de uma tentativa de me acalmar, de me manter sob controle.

Ele tinha medo de que eu descobrisse toda a verdade. Medo de que eu acabasse destruindo a mulher que ele mais queria proteger.

Mas eu já não tinha intenção de continuar representando aquele papel ridículo ao lado dele.

Eu já havia pago caro demais por ele: até a minha visão tinha sido arrancada por causa daquele amor.

Aquilo bastava para quitar a dívida que eu acreditava ter com a família Paiva por todos os anos em que me acolheram.

Eu e Igor não devíamos mais nada um ao outro.

Quando ele chegasse ao hospital, eu pediria o divórcio.

Pouco tempo depois, a porta do quarto se abriu.

Mas quem entrou não foi Igor.

Era o assistente dele.

A voz do rapaz carregava um traço evidente de compaixão:

— Senhora, o Sr. Paiva precisou viajar às pressas para o exterior por causa de uma reunião importante de projeto. Ele me pediu para ficar aqui cuidando da senhora. Se precisar de qualquer coisa, é só me avisar. Ah, e ele também comprou este bolo de morango especialmente para a senhora. Disse que não queria que a senhora ficasse triste.

Mantive o rosto completamente impassível:

— Está bem. Entendi.

O celular permanecia apertado entre os meus dedos, mas era o meu coração que parecia congelado.

Uma notícia acabara de ser divulgada.

O marido de Joyce havia sido fotografado num hotel no exterior ao lado de uma atriz famosa.

A viagem repentina de Igor provavelmente tinha relação com aquilo. Ele havia corrido para proteger Joyce.

Estava tão preocupado com ela que nem sequer encontrou tempo para me explicar pessoalmente o que estava acontecendo.

E me deixou aos cuidados de um assistente, como se isso bastasse para me tranquilizar.

Além disso, ele tinha esquecido algo extremamente simples.

Eu sempre odiei bolo de morango.

Meus pais haviam morrido num acidente de carro justamente quando saíram para comprar um bolo de morango para mim.

Na cabeça de Igor, só existia Joyce. Todo o resto havia deixado de importar.

Na manhã seguinte, liguei para ele.

Achei que o divórcio merecia ser dito diretamente por mim, uma última vez.

A chamada foi atendida. Mas quem falou primeiro foi Joyce.

— Carina, você realmente acha que Igor se casou com você porque gosta de você?

Logo depois, ouvi a voz sonolenta de Igor bem perto dela:

— Joy, quem está ligando?

— Telemarketing. Propaganda.

O que restou para mim foi apenas o silêncio da ligação encerrada.

Não tentei ligar novamente. Já não fazia sentido.

Troquei de roupa, recebi alta e voltei para a mansão de Igor. Arrumei minhas malas com calma.

Levei apenas aquilo que eu mesma havia trazido para aquela casa.

Quando o mordomo me perguntou, preocupado, para onde eu iria, respondi que viajaria de férias com Igor.

Deixei sobre a escrivaninha dele as duas vias do acordo de divórcio já assinadas e o pen drive contendo aquela gravação.

Depois peguei minha mala e entrei no carro que seguia para o aeroporto.

Quando cheguei ao aeroporto, recebi uma mensagem dele:

[Cá, amanhã cedo eu já estou em casa. Comprei um presente para você aqui no exterior.]

Não respondi.

Retirei o chip do celular e o joguei no lixo.

Quando o avião pousou nos Estados Unidos, segui diretamente para um hospital especializado em oftalmologia.

No instante em que fui levada para dentro da sala de cirurgia, senti uma calma absoluta.

Quando aquela operação terminasse, eu voltaria a enxergar.

...

Naquela mesma tarde, Igor sentiu o coração estremecer sem parar. Uma inquietação inexplicável tomou conta dele.

Ele olhou para o celular e percebeu que eu ainda não havia respondido à mensagem.

Imediatamente ligou para o mordomo.

— Sr. Paiva, a senhora não viajou de férias com o senhor? — Perguntou o mordomo, surpreso.

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