Share

O hóspede

Author: Lya Flor
last update publish date: 2026-08-06 07:38:35

Magdalena

Hoje faço trinta e cinco anos.

Não tem bolo, não tem velas, nem mesmo um parabéns sincero. Apenas o som constante da cachoeira e o peso familiar e reconfortante da solidão que aprendi a carregar como um casaco velho. Sentei-me na borda da água, com as pernas mergulhadas até os joelhos, sentindo o frio subir pela pele. A blusa preta molhada gruda no corpo, mas não me importo. Aqui ninguém me vê. Aqui posso ser apenas eu.

Fecho os olhos e deixo o barulho da queda d’água abafar as memórias. Mesmo assim, elas vêm.

Lembro-me do dia em que completei dezesseis anos. Meus pais sorrindo, orgulhosos, enquanto me entregavam para um homem que eu mal conhecia. “É a vontade de Deus”, eles disseram. A religião deles sempre foi assim: rígida, sufocante e cruel. Amor não importava. Fertilidade, sim. Obediência, principalmente.

Cinco anos de casamento. Cinco anos de noites vazias ao lado de um homem que me olhava com cada vez mais desprezo quando via que minha barriga continuava plana. “Amaldiçoada”, foi a palavra que ele cuspiu na minha cara no dia em que me expulsou de sua casa. Meus pais repetiram a mesma coisa quando voltei para casa. “Deus te puniu por sua rebeldia. Volte para o caminho, case novamente, conceba.”

Eu me recusei e eles me colocaram na rua.

Aos vinte e um anos, eu já não tinha família, nem marido, nem futuro. Apenas cicatrizes e uma raiva quieta que aprendi a transformar em sobrevivência.

Suspirei, passando a mão molhada no rosto. Faz quatorze anos desde então. Quatorze anos sozinha. Não namorei mais. Não permiti que ninguém se aproximasse o suficiente para me rejeitar novamente. O que restou foi este emprego no chalé de luxo no meio da floresta. Um lugar frequentado principalmente por metamorfos ricos que querem privacidade.

Eu não gosto deles. Não confio neles. São arrogantes, possessivos e tratam o mundo como se fosse seu playground particular. Mas, ironicamente, aqui me sinto mais segura do que entre os humanos. Os lobos pagam bem, não fazem muitas perguntas e raramente se interessam por uma humana de trinta e cinco anos que não exala feromônios atraentes, e as outras espécies me olham menos ainda. Pelo menos é o que eu penso.

Levantei-me da água, torcendo o cabelo molhado. O short largo colou nas coxas. Preciso voltar para o chalé principal antes que escureça. Hoje chegou um hóspede novo. Um alpha, pelo que me avisaram. Não me deram nome, apenas ordens: deixar a geladeira abastecida, lençóis limpos e não incomodar, preferencialmente nem olhar nos olhos dele.

Como se eu tivesse o costume de incomodar ou olhar para alguém.

Caminhei pela trilha estreita, sentindo o cheiro úmido da mata. As árvores aqui são altas e antigas, quase protetoras. Às vezes converso com elas em voz baixa. Soa loucura, mas é melhor do que o silêncio absoluto da minha pequena cabana de funcionária nos fundos da propriedade.

_ Feliz aniversário, Magdalena_ Murmurei para mim mesma, com um riso sem graça. _ Mais um ano sem milagres.

Foi quando senti... um arrepio forte subiu pela minha nuca, como se alguém estivesse me observando. Parei no meio da trilha e olhei ao redor. Nada. Apenas o vento balançando as folhas. Mesmo assim, meu coração acelerou. Há anos não me sentia assim, como uma presa.

Balancei a cabeça, tentando afastar a sensação. Provavelmente deve ser cansaço. Ou fome. Não comi nada o dia inteiro.

Cheguei ao chalé principal e entrei pela porta dos fundos, destinada aos funcionários. Organizei as frutas frescas na fruteira, troquei as toalhas do banheiro principal e arrumei o vinho tinto que o hóspede havia pedido. O cheiro dele ainda não estava forte no ambiente, mas havia algo diferente no ar. Algo quente, intenso e masculino.

Franzi a testa com a sensação.

Terminei minhas tarefas rapidamente. Quanto mais cedo eu voltasse para minha cabana, melhor. Não queria cruzar com esse alpha. Quanto menos contato eu tivesse com eles, mais tranquila seria minha vida.

Estava quase saindo quando ouvi o som de passos atrás de mim. Pesados, confiantes e predatórios.

Virei-me devagar.

Ele estava parado na porta da cozinha, me observando. Alto, com ombros largos. Olhos amarelos que brilhavam mesmo sob a luz artificial. O cabelo castanho-dourado estava ligeiramente úmido, como se tivesse acabado de voltar de um banho ou de uma corrida na floresta. Havia uma intensidade perigosa em seu olhar, o tipo de olhar que fazia as pessoas baixarem a cabeça instintivamente.

Mas eu não baixei, até porque o que tenho de menos é instinto.

_ Você deve ser a responsável pelo serviço de quarto..._ Disse ele, a voz grave e arrastada, como se cada palavra fosse um comando disfarçado.

_ S-Sim. Meu nome é Magdalena. Se precisar de algo, é só chamar pelo interfone.

Tentei manter a voz firme, profissional. Mas algo no jeito como ele me encarava fazia minha pele formigar. Ele não olhava como os outros. Não era indiferença. Era... curiosidade.

Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço sem pressa.

_ Magdalena _ Repetiu meu nome devagar, saboreando cada sílaba. Um leve sorriso surgiu no canto de sua boca. _ Interessante.

Senti o ar ficar mais pesado. Algo dentro de mim gritava para eu sair dali, mas meus pés pareciam presos no chão.

Era apenas mais um alpha rico e arrogante.

Então por que meu coração batia como se eu estivesse diante de algo perigoso?

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Bebê Milagroso do Alpha    Epílogo / Fim

    MagdalenaO vento suave da tarde balançava as folhas das árvores, trazendo aquele cheiro gostoso de terra molhada. Eu estava sentada na varanda da mansão, tomando um chá quente e olhando a cena mais linda da minha vida.Um pouco mais à frente, no gramado, um lobo gigante de pelos castanhos estava deitado de costas. A pequena Vitória, com quatro aninhos, subia no peito dele e rindo alto enquanto tentava puxar as orelhas do pai. Ela já mostrava os primeiros sinais de ser uma lobinha, sendo muito rápida e tendo os mesmos olhos dourados do Darius.Ver os dois brincando me enchia de gratidão.Muita coisa mudou de um tempo pra cá. Coisas que trouxeram paz para a nossa vida, e nos permitem dormir tranquilos pela noite.Faz um ano que o Abraão morreu de um infarto fulminante. Saber disso me trouxe um alívio enorme no peito. Aquele homem que me deu tanto pavor finalmente não podia mais fazer mal a ninguém.Os meus pais também desistiram de me procurar. Sem o dinheiro e a influência do Abraão,

  • O Bebê Milagroso do Alpha    Ethan e Gabi

    MagdalenaA sala de jantar da mansão estava linda. A grande mesa de madeira rústica estava posta com velas acesas, pratos bonitos e arranjos de flores novinhas da reserva. O cheiro de assado e temperos caseiros vinha da cozinha, deixando o ambiente quentinho e muito acolhedor.Logo que a campainha tocou, Darius foi até a porta e eu o acompanhei com a Vitória no colo.Quando a porta se abriu, dei de cara com um homem gigante, muito parecido com o Darius no porte e na presença marcante. Aquele era o Ethan. Mas ao lado dele estava uma mulher baixinha, de cabelos escuros e um sorriso enorme e radiante no rosto. Essa era a Gabriela._ Darius, meu amigo! _ Ethan falou, com a voz grave, dando um abraço forte no Darius._ É muito bom ver você, Ethan. Engordou? _ Darius respondeu, sorrindo de verdade.Gabriela não esperou formalidades. Ela olhou para mim, abriu os braços e me deu um abraço apertado e sincero, como se a gente já se conhecesse há anos._ Ah, Maggie! Que prazer finalmente te conh

  • O Bebê Milagroso do Alpha    Família

    MagdalenaDarius me informou que hoje receberemos uma visita muito especial aqui na alcateia. Trata-se de outro Alfa, que há muito tempo é amigo de infância de Darius. Parece que esse homem encontrou a companheira dele, e Darius gostaria de dar um jantar à altura para comemorar que ambos os amigos estão vivendo suas vidas da melhor maneira possível.O clima na casa estava calmo e gostoso. Coloquei um vestido de tecido fino e leve, já que a noite estava bastante quente. Na pequena Vitória, fiz o mesmo. A garotinha riu o tempo inteiro enquanto eu tentava vestir a pequena peça de roupa nela. Vitória adora ficar sem roupa, e esses dias Darius a colocou direto na terra, mesmo sendo uma bebê ainda. A garota fez a festa, gargalhou tanto no meio do jardim que chegou a dormir de cansaço. Eu fiquei toda boba, observando a interação dos dois.Vitória já está com quatro meses, crescendo como uma criança humana normal na aparência, mas com uma força sobrenatural. O único realmente capaz de lidar c

  • O Bebê Milagroso do Alpha    Doutor..

    HelenaA estrada parecia não ter fim. O barulho do motor do carro e o balanço constante do asfalto já estavam me deixando um pouco agitada, mas a presença do Marcus ao meu lado deixava tudo surpreendentemente agradável. Ele dirigia com uma calma impressionante, com uma das mãos firmes no volante e a outra repousando bem perto da minha.Depois de três longas horas de viagem, finalmente entramos na cidade antiga dele.Era um lugar completamente diferente da nossa reserva. A paisagem de árvores altas e terra molhada dava lugar a prédios cinzentos, calçadas movimentadas e um trânsito mil vezes maior do que o da alcateia._ Chegamos! _ Disse Marcus, soltando um suspiro longo enquanto manobrava o carro para entrar na garagem subterrânea de um edifício antigo._ Finalmente! Eu já estava quase virando uma estátua nesse banco! Minha bunda até ficou amassada. _ Brinquei, me espreguiçando assim que o motor foi desligado.Subimos pelo elevador pequeno que rangeu um pouco até o quarto andar. Marcu

  • O Bebê Milagroso do Alpha    Notícias da familia

    MagdalenaO dia amanheceu bonito e tranquilo na alcateia. As flores da entrada da mansão pareciam mais vivas sob o sol fraco da manhã, e o ar trazia aquele cheiro gostoso de terra molhada. Mesmo com toda essa calma ao meu redor, o meu peito ainda continuava apertado e de certa forma aflito.Depois de tudo o que passamos, era difícil simplesmente relaxar. Por mais que o Darius me garantisse que o Abraão estava sendo monitorado de perto e que a nossa casa estava segura, uma vozinha no fundo da minha mente dizia que algo ainda podia dar errado. A sensação de que a tempestade não tinha acabado de todo não saía de mim.Para tentar distrair a cabeça e respirar um ar diferente, decidi ir até a feirinha do centro da cidade. Coloquei a pequena Vitória no carrinho bem protegido e avisei a guarda da alcateia que iria dar uma volta rápida.A feira estava movimentada e cheia de vida. Barracas coloridas vendiam frutas frescas, pães caseiros e tecidos bordados. As pessoas andavam devagar, conversand

  • O Bebê Milagroso do Alpha    Contagem regressiva

    MagdalenaOs primeiros raios de sol do amanhecer começavam a pintar o céu com tons de rosa e alaranjado, cortando a névoa fria que subia da terra úmida. Eu estava encostada no batente da janela do quarto de segurança, olhando para a direção da floresta. Não tinha conseguido pregar o olho durante a noite inteira.A pequena Vitória dormia tranquila no seu berço portátil, mas meu coração continuava acelerado, martelando no peito a cada minuto que passava sem notícias.Helena e Marcus tinham ido descansar há pouco tempo, garantindo que a mansão e o perímetro estavam calmos. Mas o silêncio da casa só aumentava a minha ansiedade. Eu apertava o ombro do meu casaco de lã contra o corpo, sentindo a brisa gelada da manhã entrar pela fresta da janela.De repente, uma onda de calor diferente atravessou o meu peito. Uma sensação quente, viva e familiar inundou os meus sentidos pelo nosso laço.Darius.Meus pés se moveram sozinhos. Saí do quarto a passos rápidos, descendo os degraus da grande escad

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status