INICIAR SESIÓNMaya permaneceu parada diante da enorme mesa de vidro.
Por algum motivo, sentia que aquele homem estava observando mais do que sua postura profissional.
Alexander Vance não desviava os olhos.
— Sente-se, senhorita Rodrigues.
A voz dele era baixa.
Fria.
Sem qualquer vestígio de cordialidade.
Maya puxou a cadeira e se sentou com cuidado, colocando a bolsa sobre o colo.
Não gostava daquele homem.
Ainda não sabia explicar por quê.
Talvez fossem os olhos.
Havia alguma coisa naquele olhar que a deixava desconfortável, como se ele enxergasse muito mais do que ela gostaria de mostrar.
Alexander abriu o currículo diante de si.
— Vinte e quatro anos.
— Sim.
— Formada em Administração.
— Sim.
— Experiência como assistente administrativa, três anos.
Maya assentiu.
Ele passou os olhos pelas páginas.
— E por que deixou seu último emprego?
Ela hesitou.
A verdade era complicada.
Depois do rompimento, não conseguira permanecer naquele escritório. Tudo lembrava o ex-noivo. As reuniões que planejavam juntos, os almoços rápidos, as mensagens durante o expediente.
Até o cheiro do café parecia carregar alguma lembrança.
— Questões pessoais — respondeu finalmente.
Alexander levantou os olhos.
— Resposta conveniente.
Maya franziu levemente a testa.
— É a resposta verdadeira.
— Não perguntei se era verdadeira. Perguntei por que deixou o emprego.
Ela respirou fundo.
A arrogância daquele homem começava a irritá-la.
— Porque eu precisava recomeçar.
Alexander permaneceu em silêncio.
Por um instante, seus olhos percorreram o rosto dela.
Maya sentiu um arrepio.
Aquela sensação.
Aquele olhar.
Por que aquilo parecia familiar?
Ela desviou os olhos.
Não.
Era impossível.
O homem daquela noite era apenas uma lembrança confusa. Uma noite impulsiva, causada pela dor e pela necessidade de esquecer.
Alexander Vance era...
Ela olhou discretamente para a sala.
Tudo ali parecia caro demais.
A mesa.
As obras de arte.
As enormes janelas.
A vista da cidade.
Até o silêncio parecia pertencer a alguém poderoso.
Não havia como aquele homem ser o desconhecido do bar.
Maya soltou o ar devagar.
Estou imaginando coisas.
Alexander fechou o currículo.
— Você está contratada.
Ela piscou.
— Desculpe?
— Começa segunda-feira.
— Mas a entrevista...
— Terminou.
Maya permaneceu alguns segundos em silêncio.
— O senhor não vai fazer mais perguntas?
— Já fiz as suficientes.
Ele se levantou.
A conversa estava encerrada.
Maya também se levantou.
— Obrigada pela oportunidade.
Alexander não respondeu imediatamente.
Ele contornou a mesa e parou a poucos passos dela.
— Uma coisa, senhorita Rodrigues.
Maya ergueu os olhos.
— Sim?
— Na minha empresa, erros não são tolerados.
Ela sustentou o olhar dele.
— Eu também não costumo tolerar os meus.
Pela primeira vez, algo mudou na expressão de Alexander.
Não chegou a ser um sorriso.
Foi apenas um pequeno movimento no canto da boca.
— Veremos.
Maya pegou a bolsa.
— Bom dia, senhor Vance.
— Até segunda-feira.
Ela caminhou até a porta.
Quando colocou a mão na maçaneta, ouviu:
— Maya.
Ela parou.
O coração bateu um pouco mais rápido.
Virou-se.
Alexander estava olhando para ela.
— Sim?
Ele demorou um segundo antes de responder.
— Nada.
Maya estreitou os olhos.
— Certo.
Saiu.
A porta se fechou.
O silêncio voltou à sala.
Alexander permaneceu imóvel.
Então olhou novamente para o currículo.
Maya Rodrigues.
Ele já sabia.
Sabia desde o instante em que ela entrou.
A mesma mulher.
A mesma voz.
O mesmo olhar.
A mesma mulher que havia desaparecido naquela manhã sem sequer perguntar seu nome.
Durante um mês, Alexander havia se convencido de que aquela noite deveria permanecer no passado.
Até ela aparecer diante dele.
Ele passou o polegar lentamente pela borda do documento.
— Então você não me reconheceu...
A frase morreu no silêncio.
Alexander caminhou até a janela.
A cidade se espalhava abaixo dele, indiferente.
Seu telefone tocou.
— Vance.
Do outro lado, seu diretor financeiro falou rapidamente sobre uma reunião extraordinária do conselho.
Alexander escutou em silêncio.
— Quem solicitou?
A resposta fez seu semblante endurecer.
— Meu tio.
Ele fechou os olhos por um instante.
A família estava novamente começando um jogo.
E Alexander conhecia aquele jogo.
Não era sobre dinheiro.
Era sobre poder.
— Marque para amanhã.
— E a nova assistente?
Alexander olhou para a porta por onde Maya havia acabado de sair.
— Ela começa segunda-feira.
— Algum problema?
Ele ficou em silêncio.
— Ainda não.
Desligou.
Naquele momento, Alexander não sabia que a contratação de Maya seria apenas a primeira peça de uma disputa que ameaçaria seu império.
E Maya não fazia ideia de que seu primeiro dia naquela empresa seria o começo da transformação que mudaria completamente sua vida.
Muito menos imaginava que o homem que acabara de contratar seus serviços estava prestes a descobrir que ela era muito mais importante para aquela história do que ambos poderiam imaginar.
POV: AlexanderO som insistente dos telefones tocando na sala de estar era o hino da ruína da minha mãe. A iluminação elegante da cobertura parecia agora a luz fria de um tribunal prestes a ditar uma sentença de morte social.Caminhei em direção à Maya, ignorando completamente os dois seguranças de Eleonor. Eles olhavam para as telas dos próprios celulares, vendo as notificações de prisão preventiva emitida pela Justiça Federal e o congelamento imediato dos ativos da holding V&M. Lentamente, os dois abaixaram as armas e deram um passo para trás, abandonando o posto.— O que vocês estão fazendo?! Peguem o meu filho! Parem essa mulher! — o grito de Eleonor perdeu toda a compostura aristocrática. A voz dela agora era aguda, estridente, o som de uma mulher vendo trinta anos de controle virarem poeira.Ajoelhei-me ao lado da Maya. Puxei a faca tática do meu cinto e cortei os lacres de náilon que cortavam seus pulsos.— Maya... — murmurei, tentando tocar as mãos dela com todo o cuidado do m
POV: AlexanderO elevador de serviço nos levou direto ao 40º andar. Quando as portas de aço escovado se abriram no corredor privativo, nós quase atropelamos a pessoa que tentava digitar o código da porta principal da cobertura com dedos trêmulos.Era o Arthur.Ele usava um sobretudo amassado, óculos escuros tortos e segurava a mala rígida de alumínio com a força de um náufrago se agarrando a um tronco. Quando ele se virou e deu de cara comigo, com o Edward e com a Sra. Cavendish, a pouca cor que restava no rosto dele desapareceu.— A-Alexander?! — Arthur engasgou, recuando até encostar as costas na parede. — O que... o que você está fazendo aqui? O Cavendish devia ter...— O Cavendish está morto e a mansão dele virou pó, seu covarde — Edward avançou como um raio, acertando um soco seco no estômago do Arthur.O Arthur dobrou de tamanho, soltando a mala de alumínio, que caiu no chão com um baque pesado. Ele foi ao chão tossindo, agarrando a barriga.Ajoelhei-me ao lado dele, pegando-o p
Atendi no primeiro segundo, colocando o aparelho no ouvido com a respiração suspensa.— Maya? Onde você está? Me fala a sua localização, eu vou te buscar...— Ela está aqui, Alexander — a voz do outro lado da linha não era a da minha esposa. Era uma voz feminina fria, aristocrática e carregada de uma satisfação doentia.Minha mãe.— Eleonor... — rosnei, sentindo o sangue congelar nas minhas veias. — Se você encostar um único dedo na Maya...— Poupe-me das suas ameaças patéticas, meu filho — Eleonor interrompeu com uma risada baixa e elegante. — A garota foi muito tola. Achou que podia invadir a minha cobertura no Upper East Side com uma pasta cheia de papéis antigos para me chantagear sobre o acidente do pai dela. Ela esqueceu que este prédio pertence à minha família. Ela entrou por livre e espontânea vontade... mas não vai sair daqui sem a minha autorização.Ouvi um barulho abafado de luta ao fundo da ligação, seguido por um suspiro dolorido da Maya e o som seco de uma bofetada.— Al
POV: AlexanderO quarto decadente de um motel na zona industrial de Queens cheirava a café requentado e umidade, mas era o único lugar seguro onde as câmeras de vigilância da holding não podiam nos rastrear. Sobre a mesa de fórmica, três monitores operados por Edward brilhavam com linhas de códigos green-screen e gráficos do mercado financeiro de Wall Street.Eu estava com a camisa aberta, os nós dos dedos enfaixados e um copo de café barato na mão, encarando a tela da televisão que transmitia o canal de notícias de economia ao vivo.— Três, dois, um... e pressionar enter — Edward disse com um sorriso diabólico no rosto, dando um clique no mouse militar.A transmissão ao vivo do canal de notícias foi interrompida por um plantão de emergência. A imagem da âncora apareceu com uma tarja vermelha piscando na parte inferior da tela: "BOMBA EM WALL STREET: DOCUMENTOS VAZADOS REVELAM FRAUDE MULTIBILIONÁRIA E SABOTAGEM INDUSTRIAL NA HOLDING V&M."— Conseguimos — sussurrou a Sra. Cavendish do
POV: MayaA viagem de trem de Boston de volta a Nova York pareceu uma eternidade gélida. Eu estava sentada perto da janela, encolhida em um casaco velho que comprei com os últimos trocados na estação, vendo a paisagem da madrugada passar como um borro escuro. Minhas mãos ainda carregavam a fuligem da mansão explodida e a dor dos meus pulsos machucados, mas a ferida na minha alma era o que realmente sangrava.A imagem do rosto de Alexander pedindo perdão não saía da minha cabeça. Eu sabia que ele não tinha culpa direta pelas atrocidades da mãe. Ele era tão vítima das garras de Eleonor Vance quanto eu. Mas o peso do sobrenome dele era uma cortina de ferro entre nós. Como eu poderia olhar para o homem que dormia ao meu lado na cama e não lembrar que o dinheiro da família dele foi construído sobre as ruínas da vida dos meus pais?Quando o trem finalmente encostou na estação Penn Station, em Manhattan, o dia estava amanhecendo sob um céu cinzento e chuvoso. Peguei um táxi amarelo direto pa
POV: AlexanderO calor que descia pelos dutos de ventilação do túnel subterrâneo tornou-se insuportável em questão de segundos. Pedaços de concreto e fuligem começaram a despencar do teto, afundando na água escura do canal com estrondos abafados. Eu sentia os meus pulmões arderem com a fumaça tóxica que começava a invadir o ambiente.Com o braço esquerdo, puxei a Maya com força contra o meu peito, enquanto com a mão direita mantinha a pistola empunhada, apontando para o Sr. Cavendish. O velho estava estirado no convés da lancha rápida, o ombro ensanguentado, mas com aquele sorriso psicótico e vitorioso estampado no rosto enrugado.— Xande! Maya! Saiam daí agora! — o grito de Edward ecoou no topo da escadaria de ferro.Olhei para trás e vi meu irmão descendo os degraus aos tropeços, tossindo por causa da fumaça, acompanhado por uma mulher loira de vestido cinza rasgado que eu nunca tinha visto na vida.— Edward! O que está acontecendo? — gritei de volta, tentando sobrepujar o som das c







