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Capítulo 2 — A Primeira Regra

Autor: Annie_mds
last update Fecha de publicación: 2026-05-29 11:01:54

Maya passou o fim de semana tentando convencer a si mesma de que estava tomando a decisão certa.

Na manhã de segunda-feira, acordou antes do despertador.

O céu ainda estava acinzentado quando abriu as cortinas do quarto. Uma chuva fina escorria pelo vidro da janela, deixando a cidade com aquele aspecto melancólico que combinava perfeitamente com seu humor.

Ela ficou alguns segundos observando as gotas.

— É só um emprego — murmurou.

Precisava repetir aquilo.

Era apenas um emprego.

Nada além disso.

Depois do fim do noivado, precisava reconstruir a própria vida. Não queria depender da família, muito menos voltar para o homem que havia destruído sua confiança.

Vestiu uma camisa branca, uma calça social escura e prendeu parte dos cabelos. Conferiu o reflexo no espelho e respirou fundo.

O rosto ainda carregava um pouco do cansaço dos últimos dias.

Mas havia determinação nos olhos.

— Você consegue.

Pegou a bolsa e saiu.

---

Às sete e cinquenta e dois da manhã, Maya entrou no prédio da Vance Holdings.

O saguão era ainda mais impressionante do que lembrava.

Paredes de vidro.

Mármore claro.

Funcionários atravessando o ambiente com passos rápidos e expressões concentradas.

Tudo parecia funcionar com uma precisão quase mecânica.

Ela se aproximou da recepção.

— Bom dia. Maya Rodrigues. É meu primeiro dia.

A recepcionista conferiu alguma coisa no computador.

— Assistente executiva do senhor Vance.

Maya assentiu.

A mulher entregou-lhe um crachá.

— Décimo oitavo andar.

Maya agradeceu e entrou no elevador.

Quando as portas se fecharam, soltou o ar que nem percebera estar prendendo.

Assistente do CEO.

Aquilo parecia mais assustador quando dizia em voz alta.

O elevador parou.

Ela caminhou até a secretaria executiva.

A mesma mulher que a havia recebido na entrevista estava atrás da mesa.

— Bom dia, senhorita Rodrigues.

— Bom dia.

— Sou Helena Duarte. Serei responsável por lhe passar algumas instruções.

Helena entregou uma pasta.

— Horários, contatos internos, agenda do senhor Vance, protocolos e algumas regras.

Maya abriu a pasta.

— Algumas regras?

Helena sustentou seu olhar.

— O senhor Vance tem muitas.

Maya quase sorriu.

— Eu imaginei.

— A principal é simples.

Helena inclinou-se um pouco para a frente.

— Não o faça perder tempo.

Maya assentiu.

— Entendido.

— E nunca entre na sala dele sem bater.

— Certo.

— Nunca altere uma reunião sem autorização.

— Certo.

— E nunca minta para ele.

Maya ergueu os olhos.

— Isso parece específico.

Helena deu um pequeno sorriso.

— Porque é.

Antes que Maya pudesse perguntar mais alguma coisa, a porta da sala principal se abriu.

Alexander saiu.

Terno preto impecável.

Gravata escura.

Expressão séria.

Ele caminhou pelo corredor sem pressa, enquanto dois executivos o acompanhavam.

Maya se levantou imediatamente.

— Senhor Vance.

Alexander parou.

Seus olhos passaram rapidamente pelo rosto dela.

— Na minha sala.

Maya pegou a pasta.

— Agora?

Ele lançou-lhe um olhar frio.

— Algum problema com a palavra “agora”?

— Nenhum.

Ela o acompanhou.

Helena observou os dois desaparecerem atrás da porta.

---

Maya entrou na sala.

Alexander deixou alguns documentos sobre a mesa.

— Sente-se.

Ela se acomodou.

— Seu primeiro compromisso é às nove.

— Certo.

— Às oito e quarenta, quero o relatório financeiro da divisão imobiliária na minha mesa.

Maya abriu a pasta.

— Ele não está anexado à agenda.

— Eu sei.

Ela ergueu os olhos.

— Então preciso solicitá-lo ao financeiro?

— Sim.

Maya anotou.

— Mais alguma coisa?

Alexander a observou.

— Você parece muito tranquila.

Ela parou de escrever.

— Deveria estar nervosa?

— A maioria das pessoas está.

Maya fechou a caneta.

— Talvez eu seja diferente.

Por um instante, os olhos dele pareceram ganhar um brilho quase imperceptível.

— Talvez.

Ela voltou a olhar para a agenda.

— Posso perguntar uma coisa?

— Já perguntou.

— Sobre o senhor.

Alexander arqueou uma sobrancelha.

— Isso não estava na descrição da vaga.

— Não é sobre sua vida pessoal.

— Então pergunte.

Maya hesitou.

Aquela sensação voltou.

A voz dele.

O jeito como pronunciava certas palavras.

Havia alguma coisa estranhamente familiar.

— Nós já nos vimos antes?

O silêncio foi imediato.

Alexander não demonstrou surpresa.

Nenhuma alteração no rosto.

Nenhum movimento brusco.

Apenas a encarou.

— Não que eu me lembre.

A resposta veio tranquila demais.

Maya franziu levemente a testa.

— Tem certeza?

— Tenho.

Mentira.

Ele se lembrava perfeitamente.

Lembrava-se da noite.

Da conversa.

Da maneira como Maya havia entrado naquele bar carregando uma tristeza que tentava esconder atrás de algumas palavras.

E lembrava-se, principalmente, de quando acordara e descobrira que ela tinha ido embora.

Sem nome.

Sem telefone.

Sem explicação.

Alexander não costumava pensar em pessoas que desapareciam de sua vida.

Mas ela havia sido diferente.

Agora estava diante dele.

E ainda não sabia quem ele era.

Maya desviou os olhos.

— Desculpe. Acho que confundi o senhor com outra pessoa.

— Acontece.

Ele voltou aos documentos.

— Pode ir.

Ela se levantou.

Quando chegou à porta, Alexander falou:

— Maya.

Ela virou-se.

— Sim?

— A partir de hoje, você trabalha diretamente comigo.

— Entendi.

— Isso significa que precisará estar disponível quando eu precisar.

Maya assentiu.

— Dentro do horário de trabalho, obviamente.

Ele a encarou por alguns segundos.

— Veremos.

Ela franziu a testa.

— O que isso significa?

— Significa que você pode ir.

Maya saiu antes que pudesse discutir.

Do outro lado da porta, respirou fundo.

Que homem insuportável.

Dentro da sala, Alexander continuou olhando para a porta fechada.

Seu telefone tocou.

— Vance.

— Alexander, precisamos falar sobre a reunião do conselho — disse Daniel, seu assessor.

Alexander caminhou até a janela.

— Pode falar.

— Seu tio conseguiu apoio de três acionistas.

O olhar dele endureceu.

— Quantos?

— Três dos maiores.

Alexander ficou em silêncio.

A chuva batia contra os vidros.

— Então ele finalmente decidiu mostrar as cartas.

— Parece que sim.

Alexander observou o movimento da cidade abaixo.

— Descubra tudo.

— Sobre o conselho?

— Sobre todos eles.

Ele desligou.

Por alguns segundos, permaneceu imóvel.

A empresa estava entrando em uma guerra silenciosa.

E Alexander sabia que, quando guerras assim começavam, ninguém permanecia completamente inocente.

Do outro lado da porta, Maya organizava sua primeira pilha de documentos sem imaginar que havia acabado de entrar no centro de uma disputa capaz de destruir a Vance Holdings.

E, pior ainda, sem perceber que o homem que comandava aquela guerra já escondia dela um segredo.

Um segredo que havia começado exatamente trinta dias antes.

Naquela noite.

Naquele bar.

Com dois desconhecidos que, agora, trabalhavam no mesmo lugar.

E um deles sabia muito mais do que deveria.

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