INICIAR SESIÓNÀs sete e vinte da manhã, Maya já estava no décimo oitavo andar.
A chuva da noite anterior havia deixado a cidade coberta por uma névoa fina. Pelas enormes janelas da Vance Holdings, os prédios pareciam surgir lentamente entre as nuvens baixas.
Ela colocou a última pasta sobre a mesa e conferiu novamente os documentos.
Tudo estava organizado.
Relatórios financeiros.
Projeções.
Contratos.
Informações sobre a aquisição de uma empresa de tecnologia.
Maya conferiu o relógio.
Sete e vinte e sete.
— Perfeito.
— Você está falando sozinha?
Maya quase pulou.
Virou-se e encontrou Helena encostada na porta.
— Você tem o hábito de aparecer silenciosamente?
— Só quando quero assustar funcionários novos.
Maya riu.
— Funcionou.
Helena entrou.
— Preparada?
— Acho que sim.
— Não existe “acho” quando se trabalha com Alexander.
Maya soltou o ar.
— Você fala como se ele fosse um monstro.
Helena ajeitou alguns documentos sobre a mesa.
— Não é um monstro.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Ele só é muito pior quando está de mau humor.
Maya arregalou os olhos.
— E como sabemos quando ele está de mau humor?
Helena apontou para a porta.
— Quando está em silêncio demais.
As duas riram baixo.
Então a porta do elevador se abriu.
Alexander apareceu.
A conversa morreu imediatamente.
Ele caminhou pelo corredor com passos firmes, acompanhado de Daniel.
— Bom dia — Maya cumprimentou.
Alexander apenas assentiu.
Seus olhos passaram pela mesa.
— Está tudo pronto?
— Sim.
— Tem certeza?
— Conferi duas vezes.
Ele olhou para ela.
— Então espero que não tenha esquecido nada.
Maya sustentou o olhar.
— Não esqueci.
Alexander entrou na sala de reuniões.
Daniel passou por Maya e murmurou:
— Boa sorte.
Ela o encarou.
— Isso não foi muito tranquilizador.
— Não era para ser.
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A reunião começou às sete e meia em ponto.
Alexander ocupou a cabeceira da mesa.
Ao redor dele, estavam alguns dos principais executivos da companhia.
Maya permaneceu próxima, registrando cada decisão.
Durante quase quarenta minutos, tudo correu normalmente.
Até que um dos diretores colocou uma proposta sobre a mesa.
— Acredito que deveríamos aceitar a oferta da Almeida Capital.
Alexander não levantou os olhos imediatamente.
— E por quê?
— Porque a aquisição reduziria nossa exposição no setor imobiliário e nos daria capital para novos investimentos.
Alexander abriu o documento.
— E, em troca, entregaríamos parte do controle estratégico.
— Uma participação minoritária.
— Hoje.
O diretor ficou quieto.
Alexander fechou a pasta.
— Amanhã, eles comprariam mais.
Maya observou a expressão dos executivos.
Ninguém parecia disposto a contrariá-lo.
— Com todo respeito, senhor Vance — outro diretor começou — talvez esteja levando a rivalidade com os Almeida para o lado pessoal.
O silêncio foi imediato.
Alexander levantou os olhos.
— Repita.
O homem hesitou.
— Eu quis dizer que...
— Eu ouvi.
Alexander apoiou as mãos sobre a mesa.
— Negócios não são pessoais. Pessoas é que costumam tornar os negócios pessoais.
Maya percebeu a mudança em sua expressão.
Não era raiva.
Era algo mais controlado.
Mais perigoso.
A reunião continuou.
No final, Alexander recusou a proposta.
Quando todos começaram a sair, Maya recolheu os documentos.
— Senhor Vance?
— Sim?
— Posso dar uma opinião?
Daniel, que ainda estava na sala, olhou para ela como se tivesse acabado de testemunhar alguém caminhando voluntariamente para uma fogueira.
Alexander fez um gesto para que continuasse.
— Talvez a proposta da Almeida Capital não seja tão ruim quanto parece.
Ele a encarou.
— Explica-se.
Maya abriu uma das pastas.
— Eles querem participação no setor imobiliário. Mas, em vez de vendermos parte da empresa, poderíamos oferecer uma parceria limitada em um projeto específico.
Alexander permaneceu imóvel.
— E por que eu faria isso?
— Porque obrigaria os Almeida a colocar dinheiro em um projeto que nós controlamos.
Daniel lentamente levantou as sobrancelhas.
Maya continuou:
— Se o projeto der certo, ganhamos capital e mantemos o controle. Se der errado, a responsabilidade financeira é dividida.
Alexander pegou os documentos.
Leu em silêncio.
Depois ergueu os olhos.
— Você pensou nisso agora?
— É... Sim.
— Por quê?
Maya deu de ombros.
— Porque o senhor pediu uma opinião.. E eu só quis da a minha..
Alexander voltou a olhar para o relatório.
— Interessante.
Ela esperou.
— Muito interessante.
Maya sorriu discretamente.
— Então não foi uma ideia ruim.
— Não disse isso.
— Mas também não disse que foi ruim.
Alexander levantou os olhos.
— Não se acostume a me vencer em argumentos.
Maya segurou uma risada.
— Não pretendo senhor..
Por um breve instante, o ambiente pareceu menos tenso.
Então Alexander recebeu uma mensagem.
Seu semblante mudou.
Ele leu novamente.
— O que aconteceu? — Daniel perguntou.
Alexander guardou o telefone.
— A reunião do conselho foi antecipada.
Maya percebeu a tensão voltar imediatamente.
— Para quando?
— Hoje à tarde.
Daniel franziu a testa.
— Isso não estava previsto.
— Eu sei.
Alexander pegou o paletó.
— Alguém está com pressa.
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Naquela tarde, Maya saiu para almoçar com Bianca e Clara.
As duas perceberam imediatamente que ela estava distraída.
— Você está pensando no trabalho — Bianca acusou.
Maya mexeu distraidamente no canudo da bebida.
— Talvez.
— Não acredito — Clara comentou. — Você trabalha há poucos dias e já está levando o CEO para casa.
Maya arregalou os olhos.
— Não desse jeito!
Bianca começou a rir.
— Calma. Eu estava falando dos problemas da empresa.
Maya ficou vermelha.
— Vocês são terríveis.
— Somos suas amigas agora. Faz parte do contrato.
Maya sorriu.
Aquela palavra fez alguma coisa dentro dela.
Amigas.
Fazia muito tempo que não se permitia criar novos vínculos.
Talvez estivesse realmente começando uma nova fase.
Naquele momento, o celular vibrou.
Era uma mensagem de um número desconhecido.
Você não respondeu.
Maya franziu a testa.
Outra mensagem chegou.
Não vou insistir para sempre. Precisamos conversar.
Ela reconheceu o número.
Lucas.
Bloqueou imediatamente.
— Tudo bem? — Clara perguntou.
Maya guardou o aparelho.
— Sim.
Mas não estava.
Do outro lado da cidade, Lucas encarava a tela do celular.
Sua expressão endureceu.
Ele havia sido bloqueado.
E, pela primeira vez, percebeu que Maya realmente poderia estar seguindo em frente.
Só que havia algo que ela ainda não sabia.
Lucas não tinha aparecido novamente apenas porque sentia falta dela.
Havia outro motivo.
Um motivo ligado à Vance Holdings.
E, quando Maya descobrisse, talvez percebesse que a traição que destruiu seu noivado era apenas uma pequena parte de uma história muito maior.
POV: AlexanderO som insistente dos telefones tocando na sala de estar era o hino da ruína da minha mãe. A iluminação elegante da cobertura parecia agora a luz fria de um tribunal prestes a ditar uma sentença de morte social.Caminhei em direção à Maya, ignorando completamente os dois seguranças de Eleonor. Eles olhavam para as telas dos próprios celulares, vendo as notificações de prisão preventiva emitida pela Justiça Federal e o congelamento imediato dos ativos da holding V&M. Lentamente, os dois abaixaram as armas e deram um passo para trás, abandonando o posto.— O que vocês estão fazendo?! Peguem o meu filho! Parem essa mulher! — o grito de Eleonor perdeu toda a compostura aristocrática. A voz dela agora era aguda, estridente, o som de uma mulher vendo trinta anos de controle virarem poeira.Ajoelhei-me ao lado da Maya. Puxei a faca tática do meu cinto e cortei os lacres de náilon que cortavam seus pulsos.— Maya... — murmurei, tentando tocar as mãos dela com todo o cuidado do m
POV: AlexanderO elevador de serviço nos levou direto ao 40º andar. Quando as portas de aço escovado se abriram no corredor privativo, nós quase atropelamos a pessoa que tentava digitar o código da porta principal da cobertura com dedos trêmulos.Era o Arthur.Ele usava um sobretudo amassado, óculos escuros tortos e segurava a mala rígida de alumínio com a força de um náufrago se agarrando a um tronco. Quando ele se virou e deu de cara comigo, com o Edward e com a Sra. Cavendish, a pouca cor que restava no rosto dele desapareceu.— A-Alexander?! — Arthur engasgou, recuando até encostar as costas na parede. — O que... o que você está fazendo aqui? O Cavendish devia ter...— O Cavendish está morto e a mansão dele virou pó, seu covarde — Edward avançou como um raio, acertando um soco seco no estômago do Arthur.O Arthur dobrou de tamanho, soltando a mala de alumínio, que caiu no chão com um baque pesado. Ele foi ao chão tossindo, agarrando a barriga.Ajoelhei-me ao lado dele, pegando-o p
Atendi no primeiro segundo, colocando o aparelho no ouvido com a respiração suspensa.— Maya? Onde você está? Me fala a sua localização, eu vou te buscar...— Ela está aqui, Alexander — a voz do outro lado da linha não era a da minha esposa. Era uma voz feminina fria, aristocrática e carregada de uma satisfação doentia.Minha mãe.— Eleonor... — rosnei, sentindo o sangue congelar nas minhas veias. — Se você encostar um único dedo na Maya...— Poupe-me das suas ameaças patéticas, meu filho — Eleonor interrompeu com uma risada baixa e elegante. — A garota foi muito tola. Achou que podia invadir a minha cobertura no Upper East Side com uma pasta cheia de papéis antigos para me chantagear sobre o acidente do pai dela. Ela esqueceu que este prédio pertence à minha família. Ela entrou por livre e espontânea vontade... mas não vai sair daqui sem a minha autorização.Ouvi um barulho abafado de luta ao fundo da ligação, seguido por um suspiro dolorido da Maya e o som seco de uma bofetada.— Al
POV: AlexanderO quarto decadente de um motel na zona industrial de Queens cheirava a café requentado e umidade, mas era o único lugar seguro onde as câmeras de vigilância da holding não podiam nos rastrear. Sobre a mesa de fórmica, três monitores operados por Edward brilhavam com linhas de códigos green-screen e gráficos do mercado financeiro de Wall Street.Eu estava com a camisa aberta, os nós dos dedos enfaixados e um copo de café barato na mão, encarando a tela da televisão que transmitia o canal de notícias de economia ao vivo.— Três, dois, um... e pressionar enter — Edward disse com um sorriso diabólico no rosto, dando um clique no mouse militar.A transmissão ao vivo do canal de notícias foi interrompida por um plantão de emergência. A imagem da âncora apareceu com uma tarja vermelha piscando na parte inferior da tela: "BOMBA EM WALL STREET: DOCUMENTOS VAZADOS REVELAM FRAUDE MULTIBILIONÁRIA E SABOTAGEM INDUSTRIAL NA HOLDING V&M."— Conseguimos — sussurrou a Sra. Cavendish do
POV: MayaA viagem de trem de Boston de volta a Nova York pareceu uma eternidade gélida. Eu estava sentada perto da janela, encolhida em um casaco velho que comprei com os últimos trocados na estação, vendo a paisagem da madrugada passar como um borro escuro. Minhas mãos ainda carregavam a fuligem da mansão explodida e a dor dos meus pulsos machucados, mas a ferida na minha alma era o que realmente sangrava.A imagem do rosto de Alexander pedindo perdão não saía da minha cabeça. Eu sabia que ele não tinha culpa direta pelas atrocidades da mãe. Ele era tão vítima das garras de Eleonor Vance quanto eu. Mas o peso do sobrenome dele era uma cortina de ferro entre nós. Como eu poderia olhar para o homem que dormia ao meu lado na cama e não lembrar que o dinheiro da família dele foi construído sobre as ruínas da vida dos meus pais?Quando o trem finalmente encostou na estação Penn Station, em Manhattan, o dia estava amanhecendo sob um céu cinzento e chuvoso. Peguei um táxi amarelo direto pa
POV: AlexanderO calor que descia pelos dutos de ventilação do túnel subterrâneo tornou-se insuportável em questão de segundos. Pedaços de concreto e fuligem começaram a despencar do teto, afundando na água escura do canal com estrondos abafados. Eu sentia os meus pulmões arderem com a fumaça tóxica que começava a invadir o ambiente.Com o braço esquerdo, puxei a Maya com força contra o meu peito, enquanto com a mão direita mantinha a pistola empunhada, apontando para o Sr. Cavendish. O velho estava estirado no convés da lancha rápida, o ombro ensanguentado, mas com aquele sorriso psicótico e vitorioso estampado no rosto enrugado.— Xande! Maya! Saiam daí agora! — o grito de Edward ecoou no topo da escadaria de ferro.Olhei para trás e vi meu irmão descendo os degraus aos tropeços, tossindo por causa da fumaça, acompanhado por uma mulher loira de vestido cinza rasgado que eu nunca tinha visto na vida.— Edward! O que está acontecendo? — gritei de volta, tentando sobrepujar o som das c







