INICIAR SESIÓNA cozinha inteira cheira a alho queimado quando percebo que estraguei o jantar pela terceira vez.
Solto um suspiro cansado e desligo o fogo antes que a fumaça aumente mais. Faz quase uma semana desde que cheguei à cidade, e ainda me sinto uma visitante, uma espectadora da própria vida. Tudo parece estranho; os horários, o silêncio da casa, o mercado da esquina, as ruas que continuo confundindo mesmo depois de passar por elas várias vezes.
Até cozinhar virou algo difícil, talvez porque minha cabeça nunca esteja realmente presente.
Apoio as mãos na bancada pequena da cozinha e fecho os olhos por alguns segundos, tentando afastar a ansiedade que cresce sem motivo claro. Os últimos dias têm sido melhores do que os anteriores, mas ainda existem momentos em que meu corpo entra em alerta sem explicação alguma.
Como agora.
O simples som de chuva batendo contra as janelas já é suficiente para deixar meu peito apertado.
Abro a geladeira novamente procurando alguma coisa que consiga preparar sem destruir. Acabo escolhendo legumes, porque parecem simples o bastante até para alguém distraída como eu.
Pego a faca e começo a cortar cenouras devagar, concentrando atenção demais nos movimentos para evitar acidentes. O barulho da lâmina contra a madeira ecoa pela cozinha silenciosa enquanto tento ocupar a mente com algo banal.
Funciona por alguns minutos, até minha cabeça começar a lembrar coisas que eu preferia esquecer.
A última vez que cozinhei naquela outra casa. O prato quebrando contra a parede, a voz alterada, o medo absurdo de errar coisas pequenas.
Minha respiração falha de leve.
A faca escapa dos meus dedos no instante seguinte.
— Droga.
A dor vem atrasada, porém forte o suficiente para arrancar um som baixo da minha garganta. Levo alguns segundos olhando o corte profundo atravessando a lateral da mão antes de perceber o sangue começando a escorrer rápido demais pela pele.
Meu estômago embrulha imediatamente.
— Não, não, não...
Corro até a pia tentando conter o sangue com um pano qualquer, mas a visão do vermelho espalhado entre meus dedos faz minha ansiedade disparar na mesma hora. O ar parece insuficiente dentro da cozinha.
Calma. Respira. É só um corte.
Entretanto, meu corpo não escuta.
O coração acelera enquanto tento pressionar o pano contra a mão trêmula. A dor pulsa junto com o desespero crescente dentro do peito, e por alguns segundos fico parada no meio da cozinha sem conseguir pensar direito.
Preciso ir ao hospital.
A ideia surge acompanhada por outra pior ainda.
Sozinha.
O pensamento me faz querer desistir. Ainda odeio hospitais. Odeio cheiro de álcool, corredores claros e qualquer coisa que lembre perda. Mesmo depois de todo esse tempo, certos lugares continuam trazendo lembranças dolorosas demais. Mas o sangue continua escorrendo entre meus dedos, então não tenho escolha.
Quase vinte minutos depois, entro no hospital segurando a mão enrolada em gaze improvisada e tentando ignorar a tontura leve causada pela ansiedade. O lugar está movimentado, cheio de vozes misturadas, telefones tocando e passos ecoando pelos corredores claros.
Meu peito aperta no mesmo instante. Respiro fundo várias vezes enquanto caminho até a recepção, repetindo mentalmente que vai passar. Que estou bem. Que ninguém aqui vai me machucar.
É só um hospital.
Só alguns pontos provavelmente. Nada além disso.
Depois de fazer a ficha, sigo pelo corredor indicado pela enfermeira ainda pressionando a gaze contra a mão. Estou distraída demais tentando controlar a própria respiração quando viro a esquina rápido e acabo trombando contra alguém.
O impacto faz meu corpo perder equilíbrio por um segundo.
— Presta atenç...
A voz masculina para no meio da frase. Levanto o olhar e reconheço as íris escuras antes mesmo do restante. É o homem daquele dia, o que por pouco não foi responsável pelo meu ataque cardíaco ao quase me atropelar.
Por um instante, fico imóvel, e ele também.
A expressão séria surge no seu rosto assim que percebe quem está na frente dele. Está usando calça social escura e camisa preta com as mangas dobradas até os antebraços, como se tivesse saído direto do trabalho. Mesmo nesse corredor branco de hospital, continua intimidante demais.
O olhar dele desce para minha mão coberta de sangue e as sobrancelhas franzem.
— O que aconteceu?
A pergunta vem direta, sem suavidade alguma.
Seguro a gaze com força.
— Nada demais.
A resposta sai automática, embora seja mentira.
Os olhos escuros voltam para meu rosto como se estivesse avaliando a situação inteira em silêncio. Existe algo intenso na forma como me observa, como se enxergasse mais do que deveria.
— Isso está sangrando pra caralho.
Meu rosto esquenta.
— Foi só um corte.
— E você resolveu quase arrancar a mão fora?
O tom seco deveria me irritar, no entanto existe uma preocupação escondida no seu tom, discreta para combinar com a expressão fechada dele.
Desvio o olhar.
— Vou ficar bem.
Por alguns segundos, ele não responde. Apenas continua me encarando do jeito sério e difícil de interpretar. O corredor movimentado ao redor parece distante demais sob a intensidade daquele silêncio.
Então ele suspira impaciente.
— Tem alguém com você?
A pergunta me pega desprevenida. Balanço a cabeça negativamente antes de pensar.
A mandíbula dele trava por um instante.
— Certo.
Só isso. Como se não soubesse exatamente o que fazer com a informação.
Uma enfermeira aparece no corredor chamando meu nome e, antes que o silêncio fique mais estranho ainda, dou um pequeno passo para trás.
— Preciso ir.
Ele apenas concorda com a cabeça.
Mas, antes que eu consiga me afastar, a voz dele me alcança outra vez.
— Tenta prestar mais atenção na próxima vez.
O comentário vem rude, quase uma bronca.
Ainda assim, noto o modo discreto como os olhos dele verificam minha mão outra vez antes de sair. E, por algum motivo inexplicável, isso faz meu coração bater estranho dentro do peito.
Observo-o desaparecer pelo corredor do hospital sem olhar para trás.
Só quando some é que percebo uma coisa.
Pela primeira vez em muito tempo, um homem falou comigo de forma dura... e eu não senti medo.
Acordo antes mesmo do despertador tocar.Permaneço deitada por alguns instantes, encarando o teto do quarto. Meu corpo ainda dói, mas a febre desapareceu. A cabeça está mais leve, a respiração voltou ao normal e a sensação de peso que parecia esmagar meus ossos na tarde anterior deu lugar a um cansaço suportável.Viro o rosto para o relógio sobre o criado-mudo. Ainda são pouco mais de sete horas. Meu primeiro impulso é levantar, vestir uma roupa e ir para a empresa, mas a voz de Dave ecoa na minha memória.— Amanhã não apareça na empresa.Resmungo baixinho.— Como se eu pudesse simplesmente faltar...Mesmo assim, continuo na cama por mais alguns minutos. Quando finalmente me levanto, a leve tontura que sinto desaparece antes que eu atravesse o quarto. Tomo um banho rápido, visto uma calça de moletom e uma camiseta larga e sigo para a cozinha. Faz meses que não estou em casa nesse horário. Normalmente, a essa altura, já estaria dentro do ônibus, revisando mentalmente a agenda do dia e o
O entregador chega menos de vinte minutos depois.Abro a porta antes que toque a campainha pela segunda vez, pego a sacola e agradeço com um aceno discreto. Assim que a fecho, encontro Lena exatamente onde a deixei. Está sentada no sofá, com as mãos entrelaçadas sobre o colo, como se ainda não tivesse decidido se deveria ficar ali ou insistir que já conseguia cuidar de si mesma.— Chegou.Ela faz menção de se levantar.— Eu pego.— Não.Vou até a cozinha, encontro uma tigela no armário e despejo a sopa ainda quente. Pego também uma colher e um copo d'água antes de voltar para a sala. Estendo a tigela, e ela a segura com cuidado.— Coma devagar.— O senhor não precisava...Lanço um olhar que basta para interrompê-la. Ela abaixa a cabeça e começa a comer. Aproveito o momento para abrir o notebook outra vez e responder alguns e-mails. O silêncio que se instala não é desconfortável. Apenas é preenchido pelo som ocasional da colher tocando a porcelana e pelo barulho das teclas sob meus ded
A sede é a primeira coisa que me desperta.Abro os olhos lentamente, ainda desorientada. Por alguns segundos, fico encarando o teto da sala sem entender por que estou ali. Aos poucos, as lembranças voltam. A empresa. A febre. Dave me trazendo para casa. O remédio.Levo a mão à testa. Ainda me sinto quente, mas a sensação de peso no corpo diminuiu. A garganta, no entanto, parece lixa, e meu estômago protesta com um ronco baixo que me faz fechar os olhos por um instante.Apoio as mãos no sofá e me sento devagar. Espero a tontura aparecer, mas ela vem bem mais fraca do que antes. Respiro fundo, afasto o cobertor que alguém colocou sobre mim e caminho em direção à cozinha.É então que percebo que não estou sozinha.Dave continua na poltrona em frente ao sofá.O notebook permanece aberto sobre as pernas, preso apenas por uma das mãos. A cabeça está inclinada para o lado, os olhos fechados e a respiração tranquila. O paletó foi cuidadosamente dobrado sobre o braço da poltrona, e a gravata,
Olho para o relógio pela terceira vez em menos de cinco minutos.Oito e doze.Lena nunca se atrasa.Nas últimas semanas, chegou antes de mim em alguns dias e, nos outros, entrou na empresa com uma pontualidade quase irritante. Não é o tipo de pessoa que esquece compromissos ou perde a hora. Muito pelo contrário. Desde que começou a trabalhar aqui, parece determinada a provar que merece estar nesta empresa.Volto a atenção para o contrato aberto sobre a mesa, mas releio a mesma cláusula sem absorver uma palavra. A ausência dela começa a incomodar mais do que deveria.Talvez o trânsito ou o ônibus tenha atrasado.Talvez simplesmente tenha acordado tarde.A última hipótese, porém, não parece combinar com Lena.Pego o celular por impulso, disposto a pedir para Nora ligar para ela, mas desisto antes mesmo de desbloquear a tela. Ainda não faz sentido criar alarde por causa de alguns minutos de atraso.Uma batida discreta interrompe meus pensamentos.— Entre.Nora coloca a cabeça para dentro
Chego em casa mais cansada do que o normal.Deixo a bolsa sobre o sofá, prendo o cabelo em um coque desajeitado e visto o primeiro moletom confortável que encontro. A ideia de cozinhar desaparece assim que abro o aplicativo de entregas, então peço qualquer coisa e me jogo no sofá com uma manta sobre as pernas.Há semanas minha rotina se resume à empresa e ao apartamento. Talvez por isso eu aceite a primeira sugestão que aparece na plataforma de filmes: um romance. Faz tempo que não assisto a um. A protagonista conhece alguém completamente diferente dela, os dois vivem discutindo, mas aos poucos as pequenas gentilezas começam a mudar a forma como se enxergam.Reviro os olhos quando percebo para onde a história está caminhando.— Bem previsível...Mesmo assim, continuo assistindo.Em determinado momento, o protagonista ajeita o casaco sobre os ombros da mocinha sem dizer uma única palavra. É um gesto simples, quase insignificante.Ainda assim, alguma coisa dentro de mim desperta uma lem
Duas semanas passam em um piscar de olhos. A rotina finalmente deixa de parecer um quebra-cabeça impossível. Já consigo reorganizar a agenda de Dave sem consultar anotações, aprendi a lidar com as mudanças de última hora e até começo a antecipar algumas necessidades dele antes que precise pedir. O trabalho continua intenso, mas não me assusta mais. O que continua me assustando é o próprio Dave.Por isso, faço o possível para limitar nossas interações ao estritamente necessário. Se posso resolver alguma coisa por e-mail, resolvo. Se basta deixar um documento sobre sua mesa enquanto ele está em reunião, melhor ainda. Não é uma decisão consciente, apenas acontece.Depois do episódio no refeitório, alguma coisa mudou. Ainda sinto vergonha quando lembro da bandeja espalhada pelo chão, das minhas mãos tremendo e de todos olhando para mim. Principalmente dele. Só que, curiosamente, a lembrança nunca termina aí. Ela sempre continua até o momento em que Dave se ajoelha ao meu lado, afasta os c







