FAZER LOGINO silêncio dentro do carro deveria ser desconfortável.
Mas não é.
A cidade passa pela janela enquanto mantenho os olhos presos nas luzes espalhadas pelas avenidas. Tento prestar atenção nas ruas, nos prédios, nos semáforos fechando e abrindo à nossa frente, em qualquer coisa que impeça minha cabeça de pensar demais no homem sentado ao meu lado.
O problema é que pensar nele parece inevitável.
Dave dirige com uma das mãos apoiadas no volante, a expressão séria iluminada de tempos em tempos pelas luzes da rua. Continua fechado e duro demais, como alguém acostumado a manter distância de tudo e todos.
Ainda assim, ele me salvou, de certa forma.
Aperto os dedos da mão boa contra o tecido da calça enquanto observo o movimento da cidade pela janela. Estou nervosa desde o instante em que aceitei entrar nesse carro e passei o endereço, porque sei que não deveria confiar em estranhos.
Principalmente em homens.
A voz do meu ex-marido surge na memória tão clara que meu estômago revira imediatamente.
Você acredita em qualquer um porque é fraca.
Fecho os olhos por um segundo.
A lembrança vem acompanhada daquela sensação horrível de culpa e medo que nunca desaparece completamente. Passei anos ouvindo promessas falsas, desculpas vazias e palavras gentis que sempre vinham antes de alguma coisa pior.
Aprendi da pior forma possível que pessoas podem parecer seguras no começo, mas Dave definitivamente não parece seguro, mas cá estou eu, dentro do seu carro. Tremo por inteira, perguntando-me o que me deu para aceitar. Contudo, aceitar sua carona me pareceu mais seguro que pedir um táxi tão tarde.
Porque, apesar da brutalidade escondida em cada palavra, não senti nenhuma ameaça vinda dele. Essa percepção me deixa ainda mais confusa. Não sou uma leitora de aura ou intenções, e o arrependimento amarga de imediato.
Burra. Tola. Inconsequente.
Desvio o olhar da janela quando pressinto Dave me observando.
— Está planejando fugir com o carro em movimento?
A pergunta vem seca, quase irônica.
Meu rosto aquece.
— Eu não estou pensando nisso.
— Está sim.
A resposta me faz prender a respiração por um instante.
Ele sequer tira os olhos da rua enquanto fala, mas existe um leve tom de provocação escondido sob a voz grave.
Desvio os olhos para a própria mão enfaixada.
— Desculpa.
Dave solta um suspiro discreto.
— Você parece o tipo de pessoa que pede desculpas demais.
As palavras me pegam desprevenida; é como um tapa bem dado.
Levanto os olhos devagar na direção dele, porém ele continua prestando atenção no trânsito como se não tivesse acabado de dizer algo importante.
Meu peito aperta de leve. Nunca tinha pensado nisso antes.
Talvez porque passei anos tentando evitar conflitos, e aprendi que pedir desculpas diminuía discussões, evitava gritos e olhares agressivos. Mesmo quando a culpa não era minha. Essa percepção me entristece.
O silêncio volta logo depois, mas dessa vez ele parece diferente. É denso e sufocante. Odeio que ele tenha me lido tão bem, quando sequer consigo olhar a sua cara sem corar.
Cruzo os braços, tentando afastar o desconforto crescente dentro de mim.
— Você mora sozinha? — Dave pergunta alguns minutos depois.
Meu corpo tensiona. A reação é tão rápida que odeio perceber.
Dave nota. Claro que nota.
Os dedos dele apertam o volante antes da voz firme preencher o carro outra vez.
— Relaxa. Foi só uma pergunta.
Engulo em seco.
— Moro.
Ele apenas concorda com a cabeça, sem insistir. E isso, me tranquiliza mais do que qualquer explicação poderia.
A maioria das pessoas insiste e pergunta demais. Dave não parece ser desse tipo. Ele está respeitando meus limites.
Isso deveria me deixar confortável, no entanto eleva minha inquietação.
O carro vira na rua da minha casa alguns minutos depois, e meu coração acelera sem motivo claro quando reconheço as grades brancas da pequena varanda iluminada pela luz fraca do poste.
— É aqui — murmuro.
Dave estaciona devagar em frente ao portão, desligando o motor logo em seguida. O silêncio toma conta do carro de imediato.
Por alguns segundos, nenhum dos dois fala nada.
Seguro a alça da bolsa com força conforme olho para frente tentando ignorar a sensação estranha crescendo dentro do peito. Parte de mim quer sair rápido dali, entrar em casa e trancar a porta como sempre faço.
A outra parte... não sabe explicar o que quer.
Talvez seja porque faz muito tempo que ninguém demonstra preocupação comigo sem esperar algo em troca. Ou porque Dave, mesmo rude e fechado, não tentou ultrapassar nenhum limite. Provável que seja só eu, desesperada demais por qualquer sensação mínima de segurança.
A ideia me assusta. Porque confiar foi o que destruiu minha vida antes.
— Obrigada pela carona — digo baixo, finalmente criando coragem para olhar para ele.
Os olhos escuros encontram os meus.
— Não foi nada.
A resposta vem simples, sem arrogância ou frieza dessa vez, e isso piora tudo.
Porque homens como esse sempre me assustaram mais, eles sabiam esconder melhor.
Desvio o olhar e destravo a porta antes que minha cabeça comece a entrar em pânico outra vez.
— Boa noite, Dave.
Ele demora um segundo antes de responder.
— Boa noite, Lena.
Meu nome saindo da boca dele causa uma sensação estranha dentro de mim.
Saio do carro, quase desesperada por espaço. O vento frio da noite b**e contra meu rosto assim que fecho a porta. Dou alguns passos até o portão da casa, mas paro antes de entrar.
Porque sinto os olhos dele em mim.
Viro o rosto devagar.
Dave continua dentro do carro, me observando através da janela aberta. A expressão séria permanece igual, impossível de decifrar.
Então ele faz um gesto curto com a cabeça, se despedindo, antes de ligar o carro novamente e ir embora. Fico parada na calçada observando as luzes vermelhas desaparecerem no fim da rua enquanto uma sensação estranha cresce lentamente dentro do peito.
O medo me move, enchendo meu peito com ansiedade. Mas além dele, há uma vontade absurda de continuar olhando mesmo depois que o carro já desapareceu.
Acordo antes mesmo do despertador tocar.Permaneço deitada por alguns instantes, encarando o teto do quarto. Meu corpo ainda dói, mas a febre desapareceu. A cabeça está mais leve, a respiração voltou ao normal e a sensação de peso que parecia esmagar meus ossos na tarde anterior deu lugar a um cansaço suportável.Viro o rosto para o relógio sobre o criado-mudo. Ainda são pouco mais de sete horas. Meu primeiro impulso é levantar, vestir uma roupa e ir para a empresa, mas a voz de Dave ecoa na minha memória.— Amanhã não apareça na empresa.Resmungo baixinho.— Como se eu pudesse simplesmente faltar...Mesmo assim, continuo na cama por mais alguns minutos. Quando finalmente me levanto, a leve tontura que sinto desaparece antes que eu atravesse o quarto. Tomo um banho rápido, visto uma calça de moletom e uma camiseta larga e sigo para a cozinha. Faz meses que não estou em casa nesse horário. Normalmente, a essa altura, já estaria dentro do ônibus, revisando mentalmente a agenda do dia e o
O entregador chega menos de vinte minutos depois.Abro a porta antes que toque a campainha pela segunda vez, pego a sacola e agradeço com um aceno discreto. Assim que a fecho, encontro Lena exatamente onde a deixei. Está sentada no sofá, com as mãos entrelaçadas sobre o colo, como se ainda não tivesse decidido se deveria ficar ali ou insistir que já conseguia cuidar de si mesma.— Chegou.Ela faz menção de se levantar.— Eu pego.— Não.Vou até a cozinha, encontro uma tigela no armário e despejo a sopa ainda quente. Pego também uma colher e um copo d'água antes de voltar para a sala. Estendo a tigela, e ela a segura com cuidado.— Coma devagar.— O senhor não precisava...Lanço um olhar que basta para interrompê-la. Ela abaixa a cabeça e começa a comer. Aproveito o momento para abrir o notebook outra vez e responder alguns e-mails. O silêncio que se instala não é desconfortável. Apenas é preenchido pelo som ocasional da colher tocando a porcelana e pelo barulho das teclas sob meus ded
A sede é a primeira coisa que me desperta.Abro os olhos lentamente, ainda desorientada. Por alguns segundos, fico encarando o teto da sala sem entender por que estou ali. Aos poucos, as lembranças voltam. A empresa. A febre. Dave me trazendo para casa. O remédio.Levo a mão à testa. Ainda me sinto quente, mas a sensação de peso no corpo diminuiu. A garganta, no entanto, parece lixa, e meu estômago protesta com um ronco baixo que me faz fechar os olhos por um instante.Apoio as mãos no sofá e me sento devagar. Espero a tontura aparecer, mas ela vem bem mais fraca do que antes. Respiro fundo, afasto o cobertor que alguém colocou sobre mim e caminho em direção à cozinha.É então que percebo que não estou sozinha.Dave continua na poltrona em frente ao sofá.O notebook permanece aberto sobre as pernas, preso apenas por uma das mãos. A cabeça está inclinada para o lado, os olhos fechados e a respiração tranquila. O paletó foi cuidadosamente dobrado sobre o braço da poltrona, e a gravata,
Olho para o relógio pela terceira vez em menos de cinco minutos.Oito e doze.Lena nunca se atrasa.Nas últimas semanas, chegou antes de mim em alguns dias e, nos outros, entrou na empresa com uma pontualidade quase irritante. Não é o tipo de pessoa que esquece compromissos ou perde a hora. Muito pelo contrário. Desde que começou a trabalhar aqui, parece determinada a provar que merece estar nesta empresa.Volto a atenção para o contrato aberto sobre a mesa, mas releio a mesma cláusula sem absorver uma palavra. A ausência dela começa a incomodar mais do que deveria.Talvez o trânsito ou o ônibus tenha atrasado.Talvez simplesmente tenha acordado tarde.A última hipótese, porém, não parece combinar com Lena.Pego o celular por impulso, disposto a pedir para Nora ligar para ela, mas desisto antes mesmo de desbloquear a tela. Ainda não faz sentido criar alarde por causa de alguns minutos de atraso.Uma batida discreta interrompe meus pensamentos.— Entre.Nora coloca a cabeça para dentro
Chego em casa mais cansada do que o normal.Deixo a bolsa sobre o sofá, prendo o cabelo em um coque desajeitado e visto o primeiro moletom confortável que encontro. A ideia de cozinhar desaparece assim que abro o aplicativo de entregas, então peço qualquer coisa e me jogo no sofá com uma manta sobre as pernas.Há semanas minha rotina se resume à empresa e ao apartamento. Talvez por isso eu aceite a primeira sugestão que aparece na plataforma de filmes: um romance. Faz tempo que não assisto a um. A protagonista conhece alguém completamente diferente dela, os dois vivem discutindo, mas aos poucos as pequenas gentilezas começam a mudar a forma como se enxergam.Reviro os olhos quando percebo para onde a história está caminhando.— Bem previsível...Mesmo assim, continuo assistindo.Em determinado momento, o protagonista ajeita o casaco sobre os ombros da mocinha sem dizer uma única palavra. É um gesto simples, quase insignificante.Ainda assim, alguma coisa dentro de mim desperta uma lem
Duas semanas passam em um piscar de olhos. A rotina finalmente deixa de parecer um quebra-cabeça impossível. Já consigo reorganizar a agenda de Dave sem consultar anotações, aprendi a lidar com as mudanças de última hora e até começo a antecipar algumas necessidades dele antes que precise pedir. O trabalho continua intenso, mas não me assusta mais. O que continua me assustando é o próprio Dave.Por isso, faço o possível para limitar nossas interações ao estritamente necessário. Se posso resolver alguma coisa por e-mail, resolvo. Se basta deixar um documento sobre sua mesa enquanto ele está em reunião, melhor ainda. Não é uma decisão consciente, apenas acontece.Depois do episódio no refeitório, alguma coisa mudou. Ainda sinto vergonha quando lembro da bandeja espalhada pelo chão, das minhas mãos tremendo e de todos olhando para mim. Principalmente dele. Só que, curiosamente, a lembrança nunca termina aí. Ela sempre continua até o momento em que Dave se ajoelha ao meu lado, afasta os c







