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Capítulo Vinte e Seis

last update Data de publicação: 2025-05-07 18:49:29

Guilherme

O problema de domar uma mulher selvagem é que ela nunca se entrega de uma vez.

Sempre guarda um pedaço. Uma fresta de liberdade, um último sopro de resistência.

Fernanda era assim.

Mesmo com a rotina controlada, com o corpo rendido, com a vida sob a minha sombra, ela ainda tinha aquela faísca nos olhos. Como se quisesse lembrar a si mesma que podia correr. Que podia lutar.

Eu sabia que isso não ia durar.

Porque quando um animal aprende que a coleira aperta se tentar escapar, ele par
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  • O CEO do Tráfico ( Morro)   Capítulo Sessenta e Nove

    FernandaO ar nos túneis queimava como o sopro de uma fornalha. O metal suado devolvia a cada passo um eco gutural que parecia rugido de bicho preso. Eu apoiava Lena pelo ombro, sentindo o tremor dela passar para o meu corpo, como se nossas vértebras estivessem costuradas por um fio invisível.— Respira curto — sussurrei. — No três, a gente avança. Um… dois… três.Ela mordeu o lábio para não gemer. O braço esquerdo pendia, feio e inchado. Parei junto a uma coluna de inspeção, rasguei a barra da minha camisa com os dentes e arranquei, do cabeamento exposto, um pedaço de arame. Enrolei o tecido dobrado como tala, fixei com o arame, girando até ouvir o estalo seco de firmeza.— Dói? — Dói menos que ficar — ela murmurou, olhos marejados.Beijei a testa dela por meio segundo, não por doçura, por pacto. O morro me ensinou assim: quem cuida vive; quem espera, morre. Os “sussurros de sobrevivência” da minha infância voltavam como rezas: pé leve, olho de chão, silêncio de gato. E outra voz, a

  • O CEO do Tráfico ( Morro)   Capítulo Sessenta e Oito

    GuilhermeO pátio era um problema de cálculo em aberto: linhas, ângulos, sombras. A neve e a fumaça adulteravam as distâncias, mas o instinto corrigia o erro. Eu via vetores onde outros viam pânico. Cobertura, avanço, recuo. E, no meio, o objetivo: Fernanda.— JP, contenção à esquerda. Mantém as luzes deles cegas. — Ciente.— Carlos, comigo no avanço. Dois e dois. — Bora.A carreta bloqueava metade do campo. O motorista ergueu o corpo, procurando alvo. Eu medi o arco como quem mede uma sentença: dois passos, joelho ao chão, tiro único. O estampido seco quebrou o vidro; o homem desabou sobre a buzina, e o som prolongado virou sirene grotesca. Melhor assim: barulho bom é o que assusta o inimigo.— Corredor aberto! — gritei. — Empurra!JP varreu o flanco com rajadas curtas, cortando os holofotes e obrigando os capangas a manterem a cabeça baixa. Eu e Carlos cravamos as botas no gelo e corremos colados à lataria do caminhão, usando cada ressalto como trincheira. O mundo estilhaçava em f

  • O CEO do Tráfico ( Morro)   Capítulo Sessenta e Sete

    FernandaO mundo virou um clarão branco — neve e fumaça misturadas — e, por um segundo, não ouvi nada além do próprio coração batendo no crânio. O caminhão guinchou, engolindo o pátio num uivo metálico. Senti o cano da arma de Anya roçar minha pele. Não pensei. Girei o punho e cravei o parafuso ensanguentado no dorso da mão dela.— Maldita! — ela cuspiu, recuando meio passo.Foi o fôlego que eu precisava. Empurrei a arma para longe do meu pescoço. O disparo saiu torto, estilhaçando o farol do caminhão. Tudo virou sombras correndo. Vozes em russo, outra em português:— Fernanda! — Guilherme, feroz, em algum lugar à esquerda.Entre o clarão e o ruído, vi Lena sendo arrastada por um capanga. Sangue seco colava o cabelo na testa. Eu tinha duas escolhas: correr até Guilherme ou carregar Lena agora e perder o tempo que me separava dele. A resposta veio da parte de mim que aprendeu a sobreviver no morro: quem está sangrando primeiro.— Vem comigo, Lena! — agarrei-a pela cintura.— Eu não con

  • O CEO do Tráfico ( Morro)   Capítulo Sessenta e Seis

    FernandaCorremos lateralmente, coladas à parede, o metal da porta roçando impiedosamente a pele dos nossos cotovelos a cada passo apressado. O ar frio da madrugada intensificava a sensação de urgência, e a cada curva, o coração acelerava com a expectativa do desconhecido. Pulei uma poça de gelo que se formara na superfície irregular do beco, a água gélida respingando em minhas calças, e, em um movimento brusco, bati o ombro esquerdo na quina afiada da parede, um arrepio de dor percorrendo meu braço. Atrás de nós, a pistola do motorista cantou mais duas vezes, os estampidos secos ecoando no confinado espaço, cada tiro um lembrete vívido da perseguição implacável. Um tirambaço atingiu o painel do furgão à nossa frente, estilhaçando o plástico e espalhando fragmentos que brilhavam à luz oscilante de uma lanterna. O cheiro pungente de diesel recém-derramado misturava-se ao odor metálico da pólvora, criando uma atmosfera opressora e perigosa. A luz da lanterna, manejada freneticamente por

  • O CEO do Tráfico ( Morro)   Capítulo Sessenta e Cinco

    FernandaO furgão cortava a estrada como uma lâmina cega, rangendo a cada buraco que a neve escondia. O vidro gradeado deixava entrar um frio que queimava a pele; o cheiro de gasolina e lã molhada grudava na garganta. Eu mantinha os pulsos juntos, não por algemas — dessa vez tinham usado fita —, mas por estratégia: menos circulação, menos tremor. Menos medo aparente.— Samara em duas horas — disse o motorista, num russo preguiçoso. — Se não atolarmos de novo — resmungou o do banco do carona, batendo na lataria com o punho.Fitei o reflexo difuso do meu rosto na janelinha de acrílico: olhos fundos, boca rachada, um fio de sangue seco no canto. Pensei no “V” que deixei em Ufa, na marca que achei na fortaleza, nos dedos de Guilherme percorrendo as mesmas paredes. Ele veria. Ele seguiria. Ele viria.O furgão parou num posto desativado. O silêncio branco da estepe engoliu tudo. O capanga do carona abriu a porta lateral, puxou meu braço com brusquidão.— Desce. Cinco minutos.Pisei na neve

  • O CEO do Tráfico ( Morro)   Capítulo Sessenta e Quatro

    GuilhermeO vento cortava como lâmina, e o ar gelado parecia grudar nos pulmões. A fortaleza de Ufa se erguia à frente como uma muralha de ferro e concreto no meio do nada — cercada por neve, cercada por silêncio. Mas aquele silêncio não me enganava: lá dentro havia gritos sufocados, vidas destruídas, e talvez… Fernanda.JP ajustava o fuzil no ombro, olhos fixos no portão principal. — A carga está pronta. Quando explodir, não tem volta.— Não tem volta desde o dia que ela sumiu — respondi, minha voz saindo baixa, mas carregada de raiva.Carlos, sempre o mais frio de nós, assentiu e puxou o pino da granada improvisada que conectava às cargas plásticas coladas na entrada. — Três… dois… um.A explosão rasgou a madrugada como trovão. Um clarão iluminou o pátio, e pedaços de metal voaram, transformando o portão em uma abertura irregular. Não demos tempo para a poeira assentar: invadimos.Os primeiros capangas surgiram armados, mas o estrondo ainda os deixava zonzos. Disparei duas vezes,

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