INICIAR SESIÓNO carro parou diante de um prédio imponente.
Alto. De vidro e aço, com linhas modernas que refletiam as luzes da cidade naquela hora da noite. A fachada parecia quase infinita, subindo em direção ao céu escuro, iluminada por pontos de luz branca que destacavam cada detalhe da arquitetura. Era o tipo de lugar que não passava despercebido. O tipo de lugar que dizia, sem precisar de palavras: poder. Giulia levantou o olhar, impressionada. Os olhos percorreram toda a extensão do prédio. Era gigantesco. Frio. Intocável. — Onde estamos? — perguntou, ainda olhando para cima. — No meu escritório — respondeu Alessandro, com naturalidade. Ela virou o rosto para ele. — Aqui? — Vamos discutir o contrato lá em cima. Como se fosse a coisa mais simples do mundo. Giulia voltou a encarar o prédio. Um homem com aquele nível de poder… Com aquele tipo de dinheiro… Poderia destruir a vida dela se quisesse. E ela sabia disso. O estômago dela se apertou. Ela levou a mão à porta, pronta para sair. — Espere. A voz dele a fez parar. Ela virou o rosto, já irritada. — O que foi agora? O olhar de Alessandro percorreu lentamente o corpo dela. Parando no hábito. — Você não vai subir assim. Giulia franziu o cenho. — Assim como? — Com essa fantasia. O silêncio caiu pesado. — O hábito não é uma fantasia não é uma -fantasia. — Eu sei. Uma pausa. — Mas você é uma falsária. O olhar dele não vacilou. — Então, no seu caso… é. Ela apertou a mandíbula, segurando a resposta. Alessandro pegou a mochila. — Troque-se. — O assistente comprou. Lorenzo. Ela pegou a mochila. Alessandro e Lorenzo saíram do carro. Giulia ficou sozinha. O interior do carro parecia menor agora. Mais sufocante. Ela tirou o hábito devagar. O tecido escuro escorregou pelos braços. Pesado. Como se estivesse arrancando uma parte de si. Vestiu o jeans. A blusa preta. Prendeu o cabelo. Simples. Sem identidade. Quando terminou, respirou fundo e saiu. Alessandro a avaliou rapidamente. — Vamos. Eles entraram no prédio. E, no instante em que Giulia atravessou a porta de vidro, o mundo pareceu mudar. O hall era enorme. Amplo. Silencioso. O piso de mármore claro refletia a luz das luminárias modernas no teto, criando um brilho frio e elegante. Colunas altas se estendiam até o teto, perfeitamente alinhadas. Havia poucas pessoas ali — homens de terno, falando baixo, passando com pressa. Tudo parecia organizado. Controlado. Caro. Muito caro. O som dos passos ecoava suavemente pelo espaço. Giulia caminhava ao lado de Alessandro, mas seus olhos não conseguiam parar. Ela olhava para tudo. Para o tamanho do lugar. Para os detalhes. Para a grandiosidade. Havia algo quase intimidador naquele ambiente. Ela se sentia… deslocada. Pequena. Como se não pertencesse àquele mundo. Seu coração ainda batia rápido. Não só pelo que estava acontecendo. Mas pelo que aquele lugar representava. O mundo dele. E o quanto ele era maior do que ela havia imaginado. Eles seguiram até o elevador. As portas se abriram silenciosamente. Entraram. E, quando as portas se fecharam, o silêncio voltou. Giulia ergueu o olhar. E encontrou seu reflexo no espelho. Por um instante… não se reconheceu. Aquela não era Irmã Clara. Mas também não parecia completamente Giulia. Antes do convento, tudo era diferente. O cabelo mais claro. Iluminado. Sempre bem cuidado. Maquiagem leve. Unhas feitas. Roupas de grife. Elegantes. Seguras. Agora… Ela parecia outra pessoa. Mais simples. Mais crua. Mais… vulnerável. Giulia desviou o olhar. Porque, pela primeira vez em muito tempo, ela não sabia exatamente quem estava olhando de volta. Alessandro entrou no escritório sem diminuir o passo. O ambiente era amplo, elegante, com uma parede inteira de vidro revelando a cidade iluminada lá embaixo. Ele caminhou até a mesa e apoiou as mãos sobre ela por um instante. Depois se virou para Giulia. — Sente-se. O tom não era alto. Mas não deixava espaço para recusa. Giulia hesitou por um segundo. Depois puxou a cadeira e se sentou. Alessandro lançou um olhar breve para Lorenzo. — Lorenzo. O assistente já estava ao lado da mesa, atento. — Imprima um novo contrato. Lorenzo apenas assentiu. — Sim, senhor. Alessandro voltou o olhar para Giulia. Os olhos frios. Calculistas. — Depois da sua tentativa de fuga… Ele fez uma pequena pausa. — Acho que podemos concordar que confiança não é exatamente o ponto forte da nossa relação. Giulia manteve o olhar firme, mas não respondeu. Alessandro continuou: — Então, sim… vou precisar incluir algumas cláusulas adicionais. Ele se recostou levemente na cadeira. A expressão tranquila. — Apenas para garantir que isso não volte a acontecer. O silêncio caiu entre eles. E, mais uma vez, Giulia teve a sensação de que estava entrando em algo muito maior do que imaginava.A brisa entrava suavemente pelas janelas abertas da casa. O cheiro do mar fazia parte de tudo agora. Dos móveis. Das cortinas. Das manhãs. Das noites. Da vida deles. Giulia observava a sala em silêncio. Era curioso como aquela casa continuava exatamente igual à última vez que estiveram ali. Ou quase. O piano ocupava agora um lugar de destaque próximo às janelas. Uma exigência de Alessandro. Segundo ele, uma casa precisava ter música. E aquela tinha. Todos os dias. A decoração também havia mudado. Não por reformas. Mas pela vida. A casa estava mais colorida. Muito mais colorida. Principalmente mais rosa. Porque Elisa tinha transformado cada canto em território dela. Havia desenhos espalhados pela geladeira. Pinturas tortas presas em porta-retratos. Brinquedos esquecidos em lugares improváveis. E pequenas evidências de felicidade por todos os lados. A casa era grande. Muito grande. Mas ainda assim infinitamente menor do que a mansã
O casamento foi exatamente como Giulia sempre sonhou. Não grandioso por causa do dinheiro. Não perfeito por causa da decoração. Mas perfeito porque, pela primeira vez em muito tempo, todas as pessoas que ela amava estavam ali. Juntas. Felizes. Em paz. A cerimônia aconteceu ao ar livre, em frente ao mar. O céu estava limpo. A brisa era suave. E tudo parecia ter saído de um sonho. Giulia segurava o buquê enquanto esperava sua entrada. Uma das mãos repousava inconscientemente sobre a barriga. Quatro meses. Ainda discreta. Quase imperceptível para quem não soubesse. Mas ela sabia. E Alessandro também. E aquilo tornava aquele momento ainda mais especial. Quando a música começou, seu coração disparou. Então ela entrou. E imediatamente encontrou Alessandro. Esperando por ela. Como sempre. Os olhos dele nunca deixaram os seus. Nem por um segundo. Mas quem roubou a cena foi Elisa. Vestida como uma pequena princesa. Carregando as alianças com toda a seriedade que seu
Mais tarde, quando a movimentação da casa diminuiu um pouco e todos finalmente deram a Giulia alguns minutos de paz, ela estava acomodada na cama, cercada por travesseiros e obedecendo à ordem médica de repouso. Alessandro estava sentado ao seu lado. Como sempre. Ou pelo menos como vinha sendo desde que a encontrara na floresta. Parecia incapaz de ficar longe dela por mais de cinco minutos. Giulia observou o marido por alguns segundos. Ainda parecia surreal. Há poucos dias estava presa em um cativeiro. Agora estava em casa. Com sua família. Com um bebê crescendo dentro dela. E com Alessandro ao seu lado. Foi ele quem quebrou o silêncio. — Eu tomei uma decisão. Ela levantou uma sobrancelha. — Isso parece perigoso. — E você não tem chance de discordar. Giulia soltou uma risada. — Ah, é? — Não. Ele fingiu pensar por um instante. — Quer dizer… até tem. Ela cruzou os braços. — Alessandro. — Mas eu duvido que você discorde. Aquilo despertou
Giulia não achava que fosse possível estar tão cansada e tão feliz ao mesmo tempo. O caminho do hospital até a mansão aconteceu quase como um sonho. Ela permaneceu encostada em Alessandro durante boa parte da viagem, sentindo os dedos dele entrelaçados aos seus como se ele tivesse medo de soltá-la e ela desaparecesse novamente. Talvez tivesse. Na verdade, ela tinha quase certeza de que tinha. Durante todo o trajeto, Alessandro repetiu mentalmente cada recomendação médica como se estivesse decorando um contrato. Repouso. Boa alimentação. Nada de estresse. Acompanhamento da gravidez. E Giulia já estava começando a se arrepender. — Alessandro, eu só fiquei vinte dias presa. Não virei feita de vidro. — Você está grávida. — Faz seis semanas. — Continua grávida. — Eu consigo andar. — Veremos. Ela revirou os olhos. E aquilo arrancou o primeiro sorriso realmente relaxado dele desde a floresta. Quando os portões da mansão apareceram, porém, a brincadeira des
Alessandro não saiu do lado de Giulia em nenhum momento. Nem quando a ambulância chegou. Nem durante o trajeto até o hospital. Nem quando os médicos começaram a examiná-la. Na verdade, parecia incapaz de se afastar mais do que alguns passos dela. Giulia estava exausta. Os cabelos embolados. O rosto pálido. Os braços cobertos por pequenos arranhões. E magra. Magra demais. Aquilo sozinho já era suficiente para apertar o peito de Alessandro. Mas o que realmente o aterrorizava era a forma como ela continuava levando a mão até a barriga. Como se estivesse tentando proteger alguma coisa. Ou alguém. Os médicos trabalharam rápido. Verificaram pressão. Fizeram exames de sangue. Examinaram os ferimentos. Conversaram entre si em voz baixa. Até que uma médica voltou a se aproximar da cama. — Senhor Moretti, precisamos fazer um ultrassom imediatamente. O coração de Alessandro disparou. — Tem alguma coisa errada? A médica manteve a calma profissional. — Ainda não sabemos. S
Por um segundo, Alessandro parou de respirar. A silhueta caída entre as árvores era pequena, frágil e parcialmente escondida pela escuridão. Depois de vinte dias de culpa, desespero e medo, ele simplesmente não conseguia se obrigar a dar o próximo passo. Porque estava com medo. Pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente apavorado. Medo de ter chegado tarde demais. Medo de encontrar exatamente aquilo que o perseguiu durante todos aqueles dias. Medo de descobrir que tinha falhado. De novo. O coração batia tão forte que chegava a doer. Então ele correu. Correu os poucos metros que os separavam e caiu de joelhos ao lado dela. As mãos tremiam. O corpo inteiro tremia. — Giulia… A voz falhou. Por um instante ele sequer conseguiu tocá-la. Porque precisava vê-la respirar. Precisava saber. Precisava ter certeza. Mas ela não se mexia. O pânico veio imediatamente. Alessandro levou os dedos até seu pescoço, procurando o pulso. Depois se aproximou para sentir sua respiração.







