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last update Fecha de publicación: 2026-07-25 10:05:24

Cátia

— Alta concedida, mas nada de comemorações precipitadas — o médico avisa, ajustando o estetoscópio no pescoço. Depois assina a última folha do meu prontuário.

— Não tenho nada para comemorar — respondo amarga, lembrando na propriedade que não é mais minha.

— Ah, mas tem sim, a senhora teve uma sorte absurda de sair viva daquele galpão. Seus pulmões ainda estão inflamados, então repouso absoluto pelas próximas semanas, tudo bem?

— Entendi, doutor. — Meu pai confirma com a cabeça, como um general cuidando da minha saúde.

São duas semanas exatas desde o incêndio. Duas semanas trancada entre paredes brancas de hospital, respirando com ajuda e engolindo xaropes amargos. Enquanto eu lutava para recuperar o ar, a Sabiá-Laranjeira era pisoteada pela tragédia.

Na recepção do hospital, dona Vera espera por nós. Assim que ela vê o meu pai, dá um passo à frente.

— Vocês não vão voltar para aquela terra agora, Oswaldo — dona Vera decreta, sem abrir espaço para contestação. — Ficar olhando para as ruínas da casa e para o pasto queimado de camarote só fazer essa menina adoecer de novo. Vocês vão para a minha casa.

— Vera, nós já abusamos demais da sua bondade... — meu pai começa, sem jeito.

— Não tem abuso nenhum! — ela o interrompe, ajeitando o lenço no pescoço. — O quarto do fundo já está limpo, com lençol cheiroso e a janela aberta para o sol entrar. A Cátia precisa de sossego para se recuperar e você precisa de um teto decente. Assunto encerrado.

Para a minha surpresa, meu pai aceita a oferta. Ele apenas assente, com um olhar de gratidão. Acho que até para ele, encarar a destruição diária da nossa propriedade seria um golpe forte demais.

**

Ninguém falou muito durante o caminho. Depois de quase uma hora de estrada, finalmente viramos para nossa estrada de terra, seguindo reto até o desvio que pertence a propriedade de Vera.

— Devagar com esse freio, Oswaldo — dona Vera avisa do banco do passageiro, ajeitando uma cesta de broas no colo. — Essa menina precisa de calmaria, não de chacoalhão.

— Tô devagar, Vera, tô devagar — meu pai murmura ao volante.

O carro desacelera diante da varanda e para sob a sombra de um pé de manacá. A casa de alvenaria branca, com samambaias penduradas na varanda e janelas de madeira azul. Antes mesmo de pisar no chão, o meu coração encontra um pouco de paz.

Desço devagar, segurando no batente da porta para equilibrar o corpo fraco. Dona Vera já está do meu lado, passando o braço firme pela cintura para me dar suporte.

Antes que eu consiga pisar na varanda, o ronco de uma picape preta corta a estrada de acesso. O veículo encosta no pátio levantando uma nuvem fina de poeira. A porta se abre e um rapaz alto desce de lá. Ele veste uma bermuda, chinelos e uma camiseta leve, trazendo os cabelos queimados de sol e a pele ostentando o bronzeado típico de quem passou semanas na praia.

Inácio.

Ele tira os óculos escuros e os pendura no colarinho da camiseta, correndo os olhos pelo quintal até travar o olhar em mim.

Nós nos conhecemos desde os quinze anos, quando dona Vera comprou a propriedade ao lado da nossa. Crescemos dividindo os pomares e as tardes no rio, mas ver Inácio agora, com a barba bem aparada, a postura firme e os ombros largos de homem feito, me faz engolir em seco.

— Cátia! — ele vence os degraus de dois em dois, parando a centímetros de mim. Seus olhos castanhos, intensos e expressivos, varrem o meu rosto pálido. — Eu peguei estrada assim que fiquei sabendo da notícia, estou acompanhando o movimento na Sabiá-Laranjeira.

Ele estende a mão e toca meu ombro com extrema cautela, a palma quente atravessando o tecido fino da minha blusa.

— Como você está? Eu me desesperei quando soube que você tinha ficado presa no galpão...

— Estou me recuperando — tento dar um sorriso, mas minha voz sai rouca, e preciso trancar a respiração para conter a tosse. — Pelo menos estamos vivos.

— Graças a Deus — ele diz, balançando a cabeça, o toque em meu ombro demorando um segundo a mais antes de se afastar.

Ele olha para o chão, depois para o meu rosto, a expressão endurece.

— Cátia, eu passei pela entrada da Sabiá-Laranjeira agora mesmo... — ele solta, a voz baixando de tom. — As máquinas daquela empresa já chegaram.

Meu pai dá um passo à frente, ajustando a postura.

— Máquinas?

— Eles encostaram dois tratores de esteira amarelos perto da casa sede — Inácio fala rápido, os olhos cravados nos meus. — Estão preparando o terreno para começar a limpeza. Cátia... o trator principal está ajustando a lâmina para derrubar a jabuticabeira da sua mãe.

A menção à árvore da minha mãe faz o meu estômago dar cambalhotas. As recomendações médicas desaparecem da minha mente, substituídas por uma descarga violenta de adrenalina.

— A árvore da minha mãe não. — digo, o tom rasgando a garganta.

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Último capítulo

  • O CEO e a boiadeira    33

    CátiaEstou passando óleo na sela de Estela quando Inácio se aproxima com duas garrafas de cerveja gelada. Ele me entrega uma, senta-se ao meu lado no fardo de feno e estica as pernas.— A terra de vocês vai render, Cátia — ele diz, dando um gole demorado. — Seu pai já está com quase tudo certo para a mudança.— Graças a Deus — respondo, sentindo o alívio que essa nova chácara traz. — Vai dar trabalho no começo, mas pelo menos é um chão nosso de novo.Inácio fica em silêncio por alguns segundos. Ele apoia a garrafa entre os joelhos, vira o corpo para mim e coloca a mão na minha perna.— Cátia... eu preciso te falar uma coisa séria.Olho para ele, estranhando o tom repentino de gravidade.— Pode falar, Inácio.— Eu só voltei para cá por causa do incêndio e de você. Quando soube do galpão e do hospital, não pensei duas vezes. Mas... eu não pertenço mais a este lugar. Não pertenço mais à roça.Franzo a testa, surpresa.— Como assim não pertence? Você nasceu aqui.— Nasci, mas a minha cab

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  • O CEO e a boiadeira    28

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