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last update Fecha de publicación: 2026-07-25 10:00:39

Fernand

Minha mãe caminha a passos lentos até a mesa do centro de vidro, onde deposita um catálogo encadernado em couro bege com relevos dourados. O baque surdo do volume contra o tampo faz um estrondo.

— O que é isso, mãe? — pergunto, mantendo o corpo imóvel atrás da minha escrivaninha de mogno.

Ela acomoda-se na poltrona de couro italiano, aliando a saia do conjunto creme com dois toques minuciosos nos joelhos. Os olhos azuis faiscando.

— O catálogo da coleção nova da Maison Blanche, Fernand. Vestidos, decoração, bufê — ela desliza a ponta da unha bem trabalhada sobre as letras gravadas na capa. — Ophelia e eu passamos a manhã inteira trancadas com as cerimonialistas. Estávamos certas de que você aproveitaria o jantar de ontem para dar o passo definitivo. Mas quando a Bianca me ligou esta manhã, a voz embargada porque ganhou apenas um anel de desculpas... a decepção foi grande.

Solto o ar devagar pelo nariz, pressionando o polegar e o indicar nas têmporas. A dor lateja atrás dos meus olhos.

— Não é o momento para isso, mãe. A empresa está no meio de uma grande aquisição e —

— A empresa sempre está no meio de algo, Fernand! — a mão dela corta o ar, interrompendo o meu raciocínio. — Você consome seus dias entre planilhas e contratos de empreiteiras enquanto a vida passa. Na semana passada, inclusive, busquei mais chihuahua no canil para fazer companhia aos outros. O pequeno Montblanc.

Ergo as sobrancelhas, soltando as mãos sobre o tampo da mesa.

— Outro cachorro, mãe?

— Sim, outro! — ela ajeita o colar de pérolas no pescoço, erguendo o queixo. — Porque do jeito que você conduz sua vida pessoal, os meus cinco chihuahuas serão os únicos netos que verei correr no jardim. Eu me recuso a envelhecer sem netos, Fernand. E Bianca é uma pretendente impecável.

Levanto-me da cadeira e caminho até a grande fachada de vidro do escritório. Cruzo os braços, encarando o fluxo de carros que se espreme na avenida lá embaixo. A imagem de Bianca na noite anterior brota na minha mente: os olhos brilhando para o diamante que a minha secretária escolheu à tarde, sem demonstrar um único traço de conexão genuína comigo.

— Bianca quer um espetáculo público, mãe. Não um casamento. — murmuro para o vidro temperado.

— Ela quer estabilidade e o compromisso que você empurra com a barriga há meses — a voz de Rosalva é firme às minhas costas, sem hesitação. — O aniversário de Ophelia é em exatamente três semanas. Uma recepção íntima, apenas para a família e poucos convidados seletos. É a oportunidade ideal.

Encaro-a.

Minha mãe não sabe ser contrariada.

— O projeto da Fazenda Sabiá-Laranjeira vai exigir minha presença constante nos canteiros de obras. Terei viagens diárias, vistorias de solo, reuniões com engenheiros. Não tenho tempo para organizar um pedido de casamento e muito menos para me meter em preparativos de festa.

Rosalva levanta-se da poltrona sem apressar os movimentos. Puxa o catálogo de luxo para junto do peito e me encara fixamente. O vinco entre suas sobrancelhas se aprofunda, e a cor parece sumir devagar de seus lábios.

— Você vai arranjar esse tempo, Fernand — ela fala num tom mais baixo, a voz perdendo a vibração de cobrança — Porque esse é o maior sonho da Ophelia. E nós não sabemos quanto tempo mais ela tem.

Sinto os músculos do meu pescoço enrijecerem na hora.

— Do que você está falando?

— Ophelia recebeu o diagnóstico há dois meses — Rosalva sustenta o meu olhar com uma gravidade inédita. — É uma doença degenerativa. Ela quer ver a única filha noiva e bem encaminhada antes que perca a capacidade de caminhar até o altar. Faça isso por ela, e faça isso por mim.

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Último capítulo

  • O CEO e a boiadeira    36

    FernandA mesa de centro da sala de Bianca sumiu sob bandejas de prata e caixas de veludo.Sento-me na ponta do sofá, os nós dos dedos apoiados nos joelhos. Do outro lado do tampo de mármore, Bianca separa amostras de doces com uma pinça dourada, examinando cada acabamento sob a luz do lustre.— O pâtissier francês mandou essas três opções de macarons perolados — ela diz, sem erguer os olhos. — Acho que o recheio de champanhe com pétalas de rosa harmoniza com o tom dos arranjos da entrada. O que acha?—— A Alessandra é confeiteira independente. Provei na semana passada. Um copinho de chocolate com creme cítrico e amora fresca, e outro de avelã com praliné. A textura e o equilíbrio de açúcar superam qualquer doce de catálogo.Bianca ergue as sobrancelhas. Ela solta uma risada curta, estridente, balançando a cabeça em pura incredulidade.— Confeiteira independente? Fernand, por favor! É o casamento do ano. A imprensa inteira vai cobrir a mesa de doces. Você quer que eu sirva quitute cas

  • O CEO e a boiadeira    35

    CátiaO caminho até a Sabiá-Laranjeira me dá borboletas no estômago. E acho que não é só pela terra. Minha cabeça não para de pensar em Fernand.Entro na sala de jantar da sede. Duas pranchetas e um rolo de papel vegetal cobrem a mesa de cavaletes. Fernand está curvado sobre a planta, os antebraços apoiados na madeira, a manga da camisa dobrada até os cotovelos.O meu coração dá um pulo.Ele ergue os olhos quando minhas botas estalam no assoalho. A postura dele enrijece.— Cátia — ele diz, a voz baixa.— Bom dia.Artur surge pela porta da varanda, a tela do tablet acesa sob os dedos. Ele para ao lado da mesa e joga uma caneta sobre o papel.— Nove e cinco. Vamos direto ao ponto — Artur desliza o indicador pela tela. — O alvará saiu. O plano é derrubar todas as paredes internas deste bloco para abrir o lobby principal do resort.Não me mexo. Olho para Fernand.— O contrato me dá direito a voto no levantamento do patrimônio histórico.Artur bufa, revirando os olhos para o teto.— Voto c

  • O CEO e a boiadeira    34

    CátiaInácio me ofereceu a fuga. Ofereceu o mar, a prancha e a promessa de uma vida sem o peso do barro. Falou com a urgência de quem descobriu a própria vocação e acreditou que me resgatava de um naufrágio.Prender Inácio à minha indecisão é covardia. Ele tem pressa de água salgada e eu tenho raízes fincadas aqui. Sei o que preciso fazer. Depois de olhar Estela por alguns instantes, chego a conclusão que é injusto prendê-lo aqui sem ser sincera com o que sinto.Cruzo a porta da cozinha. A luz da bancada projeta uma faixa amarela no corredor. No último degrau da escada externa, Inácio está sentado.— Inácio.— Perdeu o sono? — Ele sorri para mim.Desço os degraus e sento-me a dois palmos dele.— Pensei no que você falou — digo, sem rodeios. — Sobre o litoral. A seletiva.— E aí? Você vem comigo?Os olhos dele brilham com uma animação infantil.— Não vou, Inácio.— Por causa do seu pai? A gente dá um jeito, Cátia.— Não é só pelo meu pai. — Olho firme para ele. — É por nós dois. A gent

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    CátiaEstou passando óleo na sela de Estela quando Inácio se aproxima com duas garrafas de cerveja gelada. Ele me entrega uma, senta-se ao meu lado no fardo de feno e estica as pernas.— A terra de vocês vai render, Cátia — ele diz, dando um gole demorado. — Seu pai já está com quase tudo certo para a mudança.— Graças a Deus — respondo, sentindo o alívio que essa nova chácara traz. — Vai dar trabalho no começo, mas pelo menos é um chão nosso de novo.Inácio fica em silêncio por alguns segundos. Ele apoia a garrafa entre os joelhos, vira o corpo para mim e coloca a mão na minha perna.— Cátia... eu preciso te falar uma coisa séria.Olho para ele, estranhando o tom repentino de gravidade.— Pode falar, Inácio.— Eu só voltei para cá por causa do incêndio e de você. Quando soube do galpão e do hospital, não pensei duas vezes. Mas... eu não pertenço mais a este lugar. Não pertenço mais à roça.Franzo a testa, surpresa.— Como assim não pertence? Você nasceu aqui.— Nasci, mas a minha cab

  • O CEO e a boiadeira    32

    CátiaAs samambaias penduradas na varanda balançam de leve com o vento da manhã, enquanto dona Vera enxuga as mãos no avental florido, descendo os degraus de madeira para espiar a movimentação na sua propriedade.Ouvir o relincho estridente e familiar de Estela vindo do piquete dos fundos traz um alívio que quase me faz esquecer as últimas semanas de caos.A rampa do caminhão desce com um estalo metálico. Rodrigo salta da cabine vestindo jeans surrado e chapéu de palha, abrindo um sorriso largo ao me ver aproximar.— Bom dia, boiadeira! — Rodrigo acena com a mão espalmada. — Como prometido, os dois novos companheiros da fazenda chegaram em perfeito estado.— Bom dia, Rodrigo! — respondo, sentindo o peito leve pela primeira vez em muito tempo.Meu pai e Inácio saem da oficina de ferramentas ao ouvir o barulho do motor. Oswaldo ajeita o chapéu marrom na cabeça, os olhos miúdos brilhando em pura descrença ao ver o tratador descer primeiro o tordilho cicatrizado e, logo em seguida, o pot

  • O CEO e a boiadeira    31

    CátiaAcordo antes mesmo do primeiro cantar do galo.Fico alguns minutos imóvel na cama, encarando o forro de madeira clara, sentindo o peito apertado. A lembrança do calor da boca de Fernand, do jeito que ele segurou meu rosto e do recuo assustado dele logo em seguida não saem da minha cabeça.Amigos.Foi o melhor a fazer. Fernand tem a vida desenhada na capital, uma noiva e um mundo ao qual eu nunca vou pertencer. Eu tenho o Inácio, meu pai e um recomeço do zero para construir. Colocar um freio ontem foi questão de respeito próprio.Levanto e lavo o rosto na água fria da pia do banheiro. Quando desço a escadaria de madeira, o aroma de café fresco e pão de queijo quentinho já toma conta da cozinha do casarão.— Bom dia, madrugadora! — Mariana me recebe com um sorriso caloroso, tirando uma assadeira fumegante do forno com um pano grosso. — Achei que a gente da capital é que acordava cedo por causa de trânsito, mas o pessoal da roça não dá trégua nem em dia de folga.— Bom dia, Mariana

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