FAZER LOGINAcordei com o som distante de galos cantando e o cheiro de terra molhada entrando pela janela entreaberta.
A tempestade tinha passado. Fiquei alguns segundos deitada, encarando o teto, tentando organizar os pensamentos. Por um instante, quase consegui fingir que o dia anterior tinha sido apenas um sonho ruim. Mas não era. Levantei, vesti uma camisa larga e prendi o cabelo de qualquer jeito. A rotina sempre me ajudava a colocar a mente no lugar. Café forte, pão na chapa, silêncio da manhã. Abri a porta do quarto e caminhei pelo corredor ainda um pouco escuro. Quando me aproximei da cozinha… congelei. O cheiro de café já estava no ar. E não era fraco. Era fresco. Forte. Recém-passado. Entrei na cozinha devagar e o encontrei ali. Thomas estava de pé diante do fogão, usando a mesma calça de moletom, mas agora com uma camiseta simples branca. O cabelo ainda estava levemente bagunçado do sono. A luz da manhã entrava pela janela e iluminava metade do rosto dele. Ele segurava uma frigideira com naturalidade. — Bom dia — disse, como se aquilo fosse absolutamente normal. Pisquei algumas vezes. — Você… já acordou? Ele olhou para mim com um leve sorriso de canto. — Faz tempo. Me aproximei da mesa e vi duas xícaras já prontas. Pão cortado. Ovos mexidos. Até a manteiga estava separada. Cruzei os braços, tentando não parecer tão surpresa quanto estava. — Não sabia que homem da cidade grande sabia usar fogão à lenha. Ele soltou um pequeno riso nasal. — Eu disse que você me subestimava. Olhei em volta da cozinha. Nada queimado. Nada fora do lugar. Ele tinha até limpado o que usou. — Acordei cedo — continuou. — Pensei que você teria trabalho suficiente hoje com a cerca e as vacas. Aquilo me pegou desprevenida. Não era obrigação dele. Não era papel dele. Mas ali estava. — E o café? — perguntei, pegando a xícara. — Forte. Do jeito que você parece precisar. Ergui a sobrancelha. — Você mal me conhece. Ele me encarou por um segundo a mais do que o necessário. — Eu observo. Meu coração fez aquele movimento estranho outra vez. Sentei-me à mesa e levei a xícara aos lábios. Estava perfeito. Forte, quente, real. Lá fora, o campo ainda estava úmido da chuva. O dia prometia ser longo. Difícil. Mas enquanto eu observava Thomas se movimentando pela minha cozinha como se aquele espaço não fosse estranho para ele… algo dentro de mim relaxou. Talvez ele não fosse apenas o homem que queria mexer na documentação das minhas terras. Talvez ele estivesse disposto a sujar as mãos também. E isso… mudava um pouco as coisas. Sentamos à mesa em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos talheres e pelo canto distante dos pássaros voltando à rotina depois da tempestade. Observei Thomas por cima da xícara de café. Ele parecia diferente à luz do dia. Menos misterioso… mas não menos intenso. — Então — comecei, apoiando os cotovelos na mesa — o que exatamente você faz na cidade? Ele limpou as mãos em um guardanapo antes de responder, como se organizasse os pensamentos. — Sou CEO de uma empresa que trabalha com imóveis. Ergui as sobrancelhas levemente. — Imóveis? — Desenvolvimento, aquisição, expansão. Compramos terrenos, reestruturamos áreas, construímos, revendemos. — Ele disse tudo isso com naturalidade, como se fosse tão simples quanto alimentar galinhas. Assenti devagar. — Deve ser uma correria. Ele inclinou a cabeça, quase sorrindo. — É. Reuniões o dia inteiro, decisões rápidas, gente dependendo de você para tudo. Bebi mais um gole do café. — Parece cansativo. — Como eu já disse — ele continuou — eu morei em fazenda. Sei que aqui também é correria. Olhei para ele com certo ceticismo. — Você não faz ideia. Ele apoiou os antebraços na mesa. — Acordar antes do sol, lidar com clima, com pragas, com cerca quebrada… — seus olhos encontraram os meus de propósito — com vacas fugindo. Não consegui evitar um pequeno sorriso. — Mesmo assim — ele concluiu — eu gosto da vida agitada. — Da pressão? — provoquei. — Do movimento. Do desafio. De construir algo grande. As palavras ficaram no ar por um segundo a mais. Construir algo grande. Meu pai costumava dizer algo parecido. Observei Thomas com mais atenção agora. Ele não falava como alguém que apenas queria comprar terra. Falava como alguém que queria transformar. E isso podia ser perigoso. — E você? — ele perguntou. — Sempre quis ficar aqui? A pergunta me atingiu de leve, mas não doeu. — Nunca quis sair — respondi. — Aqui é… casa. Ele assentiu, respeitando a resposta. Lá fora, o sol começava a secar o chão molhado. O dia chamava. Enquanto ele falava sobre construir, expandir, transformar… algo acendeu dentro de mim. Um alerta. CEO. Empresa imobiliária. Aquisição de terrenos. Meu estômago se contraiu devagar. Coloquei a xícara sobre a mesa com cuidado demais. — Você não está aqui como os outros, está? Ele franziu levemente a testa. — Como assim? — Para comprar minha fazenda. A pergunta ficou suspensa entre nós. Por um segundo — apenas um segundo — Thomas hesitou. Foi quase imperceptível. Um leve enrijecer do maxilar. Um silêncio que se alongou demais. Ele desviou o olhar para a janela antes de responder. — Você pode ficar tranquila quanto a isso. Mas ele não olhou nos meus olhos quando disse. E aquilo falou mais alto do que qualquer explicação. Meu coração acelerou, não de medo… mas de instinto. Eu tinha passado os últimos dois meses aprendendo a ler sinais. A sobreviver. — Tranquila? — repeti, tentando decifrar o tom dele. Ele finalmente voltou o olhar para mim. Firme. Controlado. — Eu não estou aqui para tomar nada de você. Não era exatamente uma resposta. Era uma promessa… ou algo que soava como uma. A apreensão ainda apertava meu peito. Eu queria acreditar. Parte de mim queria muito acreditar. Mas confiança não nasce em um dia. Empurrei a cadeira para trás e me levantei. — Está na hora do trabalho — anunciei, firme. Se ele queria provar qualquer coisa, não seria com palavras. Peguei meu chapéu sobre a bancada e caminhei em direção à porta. — A cerca não vai se reconstruir sozinha. Abri a porta e o ar fresco da manhã invadiu a cozinha. Atrás de mim, ouvi o som da cadeira dele se movendo. Se Thomas Whitmore estava ali para o bem ou para o mal… eu descobriria. Mas faria isso do meu jeito. No meu território.Cinco anos se passaram. O tempo não correu — ele amadureceu. Estou sentada na varanda da nossa casa na ilha, sentindo a brisa suave do fim de tarde tocar meu rosto. A madeira sob meus pés range levemente, um som familiar, confortável. A mão repousa sobre minha barriga grande, redonda, pesada de vida outra vez. Estou grávida de novo. Sorrio sozinha com esse pensamento. À minha frente, o mar se estende calmo, refletindo o céu em tons dourados e rosados. O mesmo mar que, anos atrás, me trouxe até aqui cheia de incertezas, hoje parece um velho amigo, silencioso e constante. Da cozinha, escuto risadinhas. — Não é assim, meu amor… devagar — a voz de Helena soa firme e carinhosa ao mesmo tempo. Nossa filha, agora com cinco anos, está lá dentro com ela, tentando — com muito entusiasmo e pouca coordenação — fazer cookies. Posso imaginar a cena sem precisar olhar: farinha espalhada pela bancada, mãos pequenas sujas de massa, Helena fingindo não ver a bagunça enquanto ensina com paciênci
Os dias seguintes no hospital passaram como um borrão suave, embalados por luz branca, passos silenciosos e o som constante da respiração tranquila da bebê. Thomas praticamente não saiu do quarto. Dormia pouco, quase sempre em uma poltrona desconfortável ao lado da cama, acordando a cada pequeno movimento meu, a cada suspiro diferente da filha. Ele me ajudava a sentar, trazia água, ajeitava os travesseiros, perguntava se eu sentia dor, se precisava de algo — sempre com aquela atenção quase reverente. — Você precisa descansar — eu dizia, algumas vezes. — Depois — ele respondia. — Agora é a minha vez de cuidar. E ele cuidava. Com uma delicadeza que eu nunca tinha visto antes. Trocar fraldas com cuidado exagerado, segurar a bebê como se fosse feita de vidro, observá-la dormir como se estivesse diante de um milagre contínuo. Quando a médica entrou no quarto com um sorriso tranquilo, senti o coração acelerar. — Vocês estão indo muito bem — disse ela. — A recuperação está ót
Alguns meses depois. Eu estava andando devagar pela casa, tentando ignorar o peso nas costas e a pressão constante na barriga. Já estava acostumada com desconfortos, com dores que iam e vinham… mas aquela não. A dor veio forte, de repente, como se algo tivesse se rompido dentro de mim. — Ah! — gritei, levando a mão à barriga e me apoiando na mesa. Meu coração disparou. Respirei fundo, tentando me convencer de que podia ser só mais uma contração de treino, mas antes que eu terminasse de pensar, outra onda veio. Mais intensa. Mais real. — Helena! — gritei, a voz falhando. — Helena! Ela apareceu quase correndo, os olhos atentos, experientes. Bastou um olhar para meu rosto para ela entender. — Molly… — disse, firme. — A dor está vindo em intervalos? Assenti, sentindo o corpo inteiro tremer. — Eu… eu acho que o bebê está vindo. Ela não entrou em pânico. Pelo contrário. Segurou meu rosto com as duas mãos. — Respira comigo. Está tudo bem. Nós vamos para o barco agora. Outra cont
A festa já estava em pleno movimento quando Helena se aproximou de mim. A música suave preenchia o ar, misturada ao som de risadas, taças se tocando e passos leves sobre a grama. Eu ainda sentia o coração acelerado, como se estivesse vivendo tudo em câmera lenta. Helena não disse nada de início. Apenas me envolveu em um abraço forte, sincero, daqueles que acolhem mais do que palavras conseguem. Fechei os olhos por um instante. — Obrigada — sussurrei, sentindo a voz embargar. — Por tudo. Pela ajuda, pelos conselhos… pela amizade. Ela se afastou um pouco, mas manteve as mãos nos meus braços, olhando diretamente nos meus olhos. — Eu que agradeço — disse, com um sorriso calmo. — É um prazer trabalhar com você… e um privilégio ser sua amiga. Senti um nó apertar no peito, mas dessa vez era um nó bom. — Você faz parte da minha família agora — falei, sem pensar muito. Helena sorriu ainda mais, com aquele olhar que misturava carinho e orgulho. — Então vou fazer jus a isso
Thomas respirou fundo antes de começar. Por um segundo, parecia estar organizando tudo o que sentia — algo raro para um homem que sempre teve as palavras certas para negócios, mas não para o coração. Ele apertou minha mão com mais força e começou: — Nunca imaginei minha vida como está agora. A voz saiu firme, mas carregada de emoção. — Eu era um homem totalmente focado no trabalho. Vivia para metas, números, resultados. Não existia pausa, não existia descanso… e, principalmente, não existia espaço para viver de verdade. Algumas pessoas sorriram, reconhecendo aquele Thomas que todos conheciam. — Quando cheguei naquela fazenda… — ele deu um leve sorriso — quase atropelei uma linda moça. E nunca imaginei que aquela mesma moça que quase atropelei seria quem me faria parar. Minha garganta apertou. — Parar para respirar. Parar para observar. Para entender que a vida é feita de detalhes pequenos, de simplicidade… e, acima de tudo, de amor. Os olhos dele se fixaram nos meu
Três meses se passaram quase como um sopro. Agora, a fazenda estava diferente outra vez — não por reformas, nem por inaugurações — mas por flores. Cordões de luz atravessavam as árvores. Arranjos delicados de flores do campo estavam sendo presos às cadeiras de madeira clara. O altar simples, montado sob a grande árvore próxima ao lago, ganhava os últimos ajustes. O vento da tarde carregava cheiro de grama fresca e expectativa. Eu estava parada um pouco afastada, observando tudo acontecer. A mão repousava sobre minha barriga — agora visivelmente arredondada. Não era mais segredo. Não era mais dúvida. Era presença. Sorri sozinha. Ali estava o lugar onde eu cresci. Onde quase perdi tudo. Onde reconstruí. E onde, em poucas horas, eu diria “sim”. Helena se aproximou devagar, segurando uma pequena caixa com os acessórios do meu cabelo. — Está bonito demais — ela comentou, olhando ao redor. — Está — concordei, a voz suave. Ela ficou ao meu lado por alguns segundos, depois baixou







