FAZER LOGINFiquei parada diante da janela da sala, os braços cruzados sobre o próprio corpo, observando o campo escurecer pouco a pouco. O vento já dobrava as copas das árvores, anunciando a tempestade que se aproximava.
Soltei um suspiro longo. Tudo parecia maior do que eu. Os problemas, as decisões, as responsabilidades. Meu pai sempre soube lidar com cada coisa como se fosse simples. Uma cerca quebrada? Ele consertava. Uma dívida inesperada? Ele resolvia. Uma briga? Ele apaziguava. Eu me perguntava, às vezes, se ele realmente achava simples… ou se apenas nunca deixou que eu visse o peso que carregava. A lembrança dele de chapéu, caminhando pelo campo com passos firmes, invadiu minha mente. A segurança no olhar. A voz calma dizendo que “tudo tem solução, Molly. Basta ter paciência e coragem.” Engoli em seco. — Eu tô tentando, pai… — murmurei, quase sem som. Foi então que ouvi o barulho do chuveiro sendo ligado no quarto ao lado. O som da água correndo pelos canos ecoou pela casa, misturando-se ao vento lá fora. Era estranho ter outra presença ali. Estranho… mas não totalmente ruim. Thomas. Um homem que surgiu do nada, destruiu minha cerca, enfrentou meu ex sem hesitar… e agora estava tomando banho na casa onde meu pai construiu cada parede com as próprias mãos. Fechei os olhos por um instante. Quem ele realmente era? Um empresário da cidade grande interessado em papéis e documentos. Um homem acostumado a negociar terras como se fossem números em uma planilha. Ou alguém que, de alguma forma, entendia mais daquele chão do que eu queria admitir? Ele disse que cresceu em uma fazenda. Mas homens importantes da cidade grande raramente voltam às origens sem um motivo. A tempestade começou a cair, pesada, batendo contra o telhado com força. O trovão ribombou ao longe, fazendo a casa vibrar levemente. Meu coração acompanhou o som. Será que Thomas estava ali para ajudar a manter tudo de pé… ou era mais uma ameaça tentando arrancar o que restava do meu pai? Abri os olhos e encarei a imensidão do campo escuro. Se ele estivesse ali para o mal, eu lutaria. Eu já tinha perdido demais para perder também a fazenda. A chuva já caía forte quando a porta do quarto se abriu. O som da água do chuveiro tinha parado há poucos minutos, mas eu ainda estava distraída, perdida nos meus próprios pensamentos. Levantei os olhos… e precisei de um segundo a mais do que gostaria de admitir. Thomas saiu do quarto vestindo apenas uma calça de moletom cinza, baixa na cintura, ainda levemente úmido do banho. Gotas de água desciam lentamente pelo peito dele, traçando o contorno firme do abdômen definido. Meu olhar desceu antes que eu pudesse impedir. O abdômen era marcado, forte, não exagerado — mas claramente esculpido por trabalho, não apenas academia. Os ombros largos, o peitoral firme, os braços com veias discretamente aparentes. Havia algo cru naquela imagem, algo que contrastava demais com o homem formal que tinha saído de um carro caro horas antes. Eu pigarreei, desviando o olhar. — Andar com pouca roupa assim por aqui… — falei, cruzando os braços para parecer indiferente. — Os mosquitos vão te atacar. Ele parou no meio da sala e ergueu uma sobrancelha. — Estou correndo risco? — Enorme — respondi, mantendo o tom sério demais para ser totalmente convincente. Um canto da boca dele se curvou. — Acho que sobrevivo. A chuva engrossou lá fora, batendo contra as janelas com força. Um trovão ecoou, fazendo a luz piscar rapidamente. O clima da casa mudou com o som da tempestade, como se o mundo tivesse encolhido até caber apenas ali dentro. — Senta — indiquei o sofá, buscando o kit de primeiros socorros. Ele obedeceu sem discutir, sentando-se à minha frente. A proximidade era diferente agora. Mais íntima. Mais silenciosa. Sentei ao lado dele e inclinei levemente o rosto dele para examinar o corte. Meus dedos tocaram a pele quente da testa dele, e senti o leve arrepio que percorreu o braço dele ao meu toque. — Vai arder um pouco — avisei. — Já passei por coisa pior — respondeu, baixo. Molhei o algodão com antisséptico e pressionei com cuidado contra o machucado. Ele não reclamou, mas o maxilar tensionou discretamente. De perto, os traços dele eram ainda mais marcantes. A linha do nariz, a sombra da barba começando a surgir outra vez, os olhos escuros me observando com atenção demais. — Você encara todo mundo assim? — perguntei, sem perceber que tinha falado em voz alta. — Só quando vale a pena — respondeu. Meu coração deu um pequeno salto involuntário. A chuva continuava caindo, isolando a casa do resto do mundo. O sofá parecia pequeno demais de repente. O ar, mais denso. Terminei o curativo e me afastei um pouco, precisando de espaço para respirar. — Pronto — murmurei. Mas mesmo depois de terminar, a sensação permanecia. A tempestade estava lá fora. E outra começava, silenciosa, entre nós dois. Enquanto eu guardava o kit médico na pequena caixa de madeira sobre a estante, um trovão mais forte cortou o céu. E então… tudo ficou escuro. A casa mergulhou em silêncio por um segundo, até que o som da chuva voltou a dominar o ambiente. — Ótimo — murmurei. Thomas se levantou do sofá imediatamente. — Onde fica o quadro de luz? A pergunta saiu prática, quase automática. Eu apontei para o corredor lateral. — No fim do corredor, à direita. Ele caminhou até lá, e eu o segui com passos mais lentos. A luz dos relâmpagos iluminava a casa em flashes rápidos, desenhando sombras nas paredes. Thomas abriu o quadro, mexeu nas chaves, testou uma, depois outra. Nada. — Não é só o disjuntor — disse, franzindo a testa. — Deve ter caído a rede. Cruzei os braços. — Quando a tempestade vem forte assim, sempre acontece. De manhã a energia volta. Ele fechou o quadro com um suspiro baixo. — Você vive assim? — Eu vivo aqui — corrigi. Um relâmpago iluminou o corredor por um segundo, revelando o contorno forte do rosto dele no escuro. Depois, apenas o som da chuva novamente. O cansaço finalmente começou a pesar nos meus ombros. O dia tinha sido longo demais. Doloroso demais. — Melhor a gente dormir — falei. — Amanhã vai ser um dia grande. Ele assentiu. Caminhamos até a sala novamente, guiados apenas pelos flashes ocasionais da tempestade. A casa parecia diferente no escuro — menor, mais íntima, quase vulnerável. Parei diante do corredor dos quartos. — O seu é o segundo à esquerda. — E o seu? — ele perguntou. — O primeiro. Houve um pequeno silêncio. Não desconfortável. Apenas carregado de coisas não ditas. — Boa noite, Molly. A forma como ele disse meu nome soou diferente. Mais suave. — Boa noite, Thomas. Cada um seguiu para o próprio quarto. Fechei a porta atrás de mim e me encostei nela por um instante, ouvindo a chuva bater contra o telhado. Meu corpo ainda estava tenso. Minha mente, inquieta. Meu pai. Meu ex. A fazenda. As cartas no lixo. Thomas no quarto ao lado. Deitei na cama e encarei o teto escuro. A tempestade lá fora parecia ecoar dentro de mim. Mas, pela primeira vez desde que meu pai se foi… o silêncio da casa não parecia tão assustador. E isso, talvez, fosse o que mais me inquietava.Cinco anos se passaram. O tempo não correu — ele amadureceu. Estou sentada na varanda da nossa casa na ilha, sentindo a brisa suave do fim de tarde tocar meu rosto. A madeira sob meus pés range levemente, um som familiar, confortável. A mão repousa sobre minha barriga grande, redonda, pesada de vida outra vez. Estou grávida de novo. Sorrio sozinha com esse pensamento. À minha frente, o mar se estende calmo, refletindo o céu em tons dourados e rosados. O mesmo mar que, anos atrás, me trouxe até aqui cheia de incertezas, hoje parece um velho amigo, silencioso e constante. Da cozinha, escuto risadinhas. — Não é assim, meu amor… devagar — a voz de Helena soa firme e carinhosa ao mesmo tempo. Nossa filha, agora com cinco anos, está lá dentro com ela, tentando — com muito entusiasmo e pouca coordenação — fazer cookies. Posso imaginar a cena sem precisar olhar: farinha espalhada pela bancada, mãos pequenas sujas de massa, Helena fingindo não ver a bagunça enquanto ensina com paciênci
Os dias seguintes no hospital passaram como um borrão suave, embalados por luz branca, passos silenciosos e o som constante da respiração tranquila da bebê. Thomas praticamente não saiu do quarto. Dormia pouco, quase sempre em uma poltrona desconfortável ao lado da cama, acordando a cada pequeno movimento meu, a cada suspiro diferente da filha. Ele me ajudava a sentar, trazia água, ajeitava os travesseiros, perguntava se eu sentia dor, se precisava de algo — sempre com aquela atenção quase reverente. — Você precisa descansar — eu dizia, algumas vezes. — Depois — ele respondia. — Agora é a minha vez de cuidar. E ele cuidava. Com uma delicadeza que eu nunca tinha visto antes. Trocar fraldas com cuidado exagerado, segurar a bebê como se fosse feita de vidro, observá-la dormir como se estivesse diante de um milagre contínuo. Quando a médica entrou no quarto com um sorriso tranquilo, senti o coração acelerar. — Vocês estão indo muito bem — disse ela. — A recuperação está ót
Alguns meses depois. Eu estava andando devagar pela casa, tentando ignorar o peso nas costas e a pressão constante na barriga. Já estava acostumada com desconfortos, com dores que iam e vinham… mas aquela não. A dor veio forte, de repente, como se algo tivesse se rompido dentro de mim. — Ah! — gritei, levando a mão à barriga e me apoiando na mesa. Meu coração disparou. Respirei fundo, tentando me convencer de que podia ser só mais uma contração de treino, mas antes que eu terminasse de pensar, outra onda veio. Mais intensa. Mais real. — Helena! — gritei, a voz falhando. — Helena! Ela apareceu quase correndo, os olhos atentos, experientes. Bastou um olhar para meu rosto para ela entender. — Molly… — disse, firme. — A dor está vindo em intervalos? Assenti, sentindo o corpo inteiro tremer. — Eu… eu acho que o bebê está vindo. Ela não entrou em pânico. Pelo contrário. Segurou meu rosto com as duas mãos. — Respira comigo. Está tudo bem. Nós vamos para o barco agora. Outra cont
A festa já estava em pleno movimento quando Helena se aproximou de mim. A música suave preenchia o ar, misturada ao som de risadas, taças se tocando e passos leves sobre a grama. Eu ainda sentia o coração acelerado, como se estivesse vivendo tudo em câmera lenta. Helena não disse nada de início. Apenas me envolveu em um abraço forte, sincero, daqueles que acolhem mais do que palavras conseguem. Fechei os olhos por um instante. — Obrigada — sussurrei, sentindo a voz embargar. — Por tudo. Pela ajuda, pelos conselhos… pela amizade. Ela se afastou um pouco, mas manteve as mãos nos meus braços, olhando diretamente nos meus olhos. — Eu que agradeço — disse, com um sorriso calmo. — É um prazer trabalhar com você… e um privilégio ser sua amiga. Senti um nó apertar no peito, mas dessa vez era um nó bom. — Você faz parte da minha família agora — falei, sem pensar muito. Helena sorriu ainda mais, com aquele olhar que misturava carinho e orgulho. — Então vou fazer jus a isso
Thomas respirou fundo antes de começar. Por um segundo, parecia estar organizando tudo o que sentia — algo raro para um homem que sempre teve as palavras certas para negócios, mas não para o coração. Ele apertou minha mão com mais força e começou: — Nunca imaginei minha vida como está agora. A voz saiu firme, mas carregada de emoção. — Eu era um homem totalmente focado no trabalho. Vivia para metas, números, resultados. Não existia pausa, não existia descanso… e, principalmente, não existia espaço para viver de verdade. Algumas pessoas sorriram, reconhecendo aquele Thomas que todos conheciam. — Quando cheguei naquela fazenda… — ele deu um leve sorriso — quase atropelei uma linda moça. E nunca imaginei que aquela mesma moça que quase atropelei seria quem me faria parar. Minha garganta apertou. — Parar para respirar. Parar para observar. Para entender que a vida é feita de detalhes pequenos, de simplicidade… e, acima de tudo, de amor. Os olhos dele se fixaram nos meu
Três meses se passaram quase como um sopro. Agora, a fazenda estava diferente outra vez — não por reformas, nem por inaugurações — mas por flores. Cordões de luz atravessavam as árvores. Arranjos delicados de flores do campo estavam sendo presos às cadeiras de madeira clara. O altar simples, montado sob a grande árvore próxima ao lago, ganhava os últimos ajustes. O vento da tarde carregava cheiro de grama fresca e expectativa. Eu estava parada um pouco afastada, observando tudo acontecer. A mão repousava sobre minha barriga — agora visivelmente arredondada. Não era mais segredo. Não era mais dúvida. Era presença. Sorri sozinha. Ali estava o lugar onde eu cresci. Onde quase perdi tudo. Onde reconstruí. E onde, em poucas horas, eu diria “sim”. Helena se aproximou devagar, segurando uma pequena caixa com os acessórios do meu cabelo. — Está bonito demais — ela comentou, olhando ao redor. — Está — concordei, a voz suave. Ela ficou ao meu lado por alguns segundos, depois baixou







