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####CAPÍTULO 02

last update publish date: 2026-09-28 07:38:04

Nessa manhã cinzenta de setembro, acordo bem antes do amanhecer para preparar o café da manhã para todos da casa.

— Meu pai detesta voos matinais e passou a noite inteira reclamando do horário inconveniente, embora aceite a programação sem resistência, apenas porque minha mãe insistiu em acompanhá-lo na viagem.

— O prestigiado congresso internacional de literatura em Chicago é de extrema importância para a sua carreira, e ele foi convidado para ser o palestrante principal do painel de abertura.

— Minha mãe aproveita a oportunidade da viagem para conciliar a agenda e ter reuniões cruciais com um grupo de investidores texanos altamente interessados em expandir seus negócios de imóveis de luxo para a capital. Serão apenas três dias longe de casa.

—Três dias parecem uma fração de tempo tão curta e insignificante que eu nem sequer me dou ao trabalho de considerar a possibilidade de sentir uma saudade dolorosa.

No saguão movimentado do aeroporto, abraço meu pai de forma demorada e apertada, embora faça um esforço consciente para agir com naturalidade, como se aquela fosse tão somente mais uma de tantas viagens de trabalho corriqueiras que ele realiza ao longo do ano letivo.

— Fique calma e concentre-se nos seus trabalhos, minha pequena, ele diz com a voz mansa, envolvendo-me protetoramente em seus braços e exibindo aquele meio sorriso acolhedor e cheio de ternura que conheço tão bem desde a minha infância mais remota.

— Não se esqueça de me trazer um presente, peço em tom brincalhão, fingindo uma despreocupação diante do embarque.

— Penso por um par de segundos, ajusto a alça da bolsa no ombro e sorrio.

— Talvez alguma edição rara, qualquer coisa que tenha aquele cheiro inconfundível de livraria antiga.

Mamãe caiu em uma gargalhada leve e gostosa imediatamente, aproximando-se com passos elegantes para segurar meu rosto com doçura entre suas duas mãos quentes.

— E eu prometo trazer alguma coisa bonita, com bastante brilho para você.

Sempre soube que a sua personalidade é o equilíbrio perfeito entre o pragmatismo dele e a minha vibração.

Reviro os olhos em uma pose divertida e teatral antes de me inclinar para dar a ela um abraço igualmente apertado e demorado.

— Fico parada no mesmo lugar observando os dois caminharem lado a lado em direção ao portão de embarque com passos calmos e sincronizados.

—:Meu pai carrega uma pequena mala de bordo em uma das mãos, enquanto minha mãe segura a outra mão dele com firmeza e carinho.

— Eles conversam animadamente sobre algum assunto cotidiano que a distância já não me permite ouvir e, logo antes de desaparecerem completamente na fila do controle de segurança, ainda se viram em sincronia uma última vez para acenar na minha direção. Retribuo o gesto instantaneamente, abrindo um sorriso radiante.

Eu não tinha como saber que aquela seria, tragicamente, a última vez na vida em que veria meus pais vivos e juntos.

— A notícia aterradora chega diretamente à tela do meu celular quando ainda estou sentada em uma das mesas do refeitório barulhento da universidade, cercada por conversas aleatórias de outros alunos.

— No primeiro instante, meus olhos passam pelas letras sem que a minha mente consiga processar o significado exato do texto da notificação urgente de notícias.

— Um avião comercial da companhia aérea nacional desapareceu subitamente dos radares das torres de controle durante o percurso de um voo que tinha como destino a cidade de Chicago.

— Leio a mesma frase uma segunda e uma terceira vez. Meu coração dá um salto violento no peito, o sangue parece congelar nas minhas veias e uma onda de frio assustadora invade meu corpo de tal forma que minhas mãos começam a tremer descontroladamente.

— Com os dedos dormentes, procuro desesperadamente o número de identificação do voo no bilhete digital que meu pai havia me enviado.

— Confiro os dígitos uma vez, depois outra, e mais uma vez, porque minha mente se recusa terminantemente a aceitar a realidade brutal que meus olhos estão testemunhando.

É exatamente o voo onde meus pais estão embarcados.

— Sinto um torpor avassalador que paralisa imediatamente cada um dos meus pensamentos e capacidade de reação.

— As vozes alegres e os ruídos de pratos ao meu redor parecem instantaneamente abafados, distantes, e todo o movimento vibrante do refeitório se transforma em uma imagem disforme, embaçada e totalmente sem sentido diante dos meus olhos arregalados.

— Em um ato automático de desespero puramente instintivo, tento ligar para o celular do meu pai. Chamada não atendida.

— Com o peito arfando, discagem direta para a minha mãe. Sinal de caixa de mensagem.

— Repito as ligações compulsivamente várias vezes, mesmo sabendo racionalmente que seria impossível que eles atendam o telefone no meio de um voo ou em uma emergência.

— Continuo discando sem parar porque preciso desesperadamente fazer alguma coisa, qualquer gesto que seja, para tentar conter a sensação aterrorizante e devastadora que cresce no meu peito a cada segundo.

No fundo da minha alma, entretanto, uma intuição cruel já me sopra a verdade mais sombria.

— As horas subsequentes se arrastam em um pesadelo incrivelmente lento e desumano, onde o tempo parece parar e a espera se transforma em uma forma de tortura psicológica insuportável e silenciosa, até que a confirmação oficial finalmente é transmitida pelos noticiários e confirmada pelas autoridades.

— Houve uma pane elétrica catastrófica e irreparável em altitude de cruzeiro, seguida pelo corte total de comunicação e pela perda de controle da aeronave.

— O avião caiu verticalmente em uma região densa e remota de floresta.

A equipe de resgate confirma que não há absolutamente nenhum sobrevivente entre os passageiros e a tripulação.

Meus pais estão mortos, a dor devastadora da perda não chega de uma só vez ou por inteiro.

— Talvez, se chegasse com toda a sua força brutal no primeiro segundo, o meu corpo simplesmente não fosse capaz de suportar o impacto psicológico e sucumbisse.

— Ela vem entrando aos poucos, de forma traiçoeira, escavando um vazio imenso e gélido dentro de mim enquanto meu cérebro ainda tenta inutilmente processar a ideia inconcebível de como duas pessoas tão cheias de vida, projetos e sorrisos pela manhã podem simplesmente deixar de existir poucas horas depois.

— Primeiro vem o choque anestesiante que paralisa os sentidos. Logo em seguida, em um contraste doloroso, chegam as exigências burocráticas e as formalidades frias: as assinaturas em documentos intermináveis, o manuseio de papéis oficiais, as idas a cartórios, os procedimentos dolorosos para a liberação dos corpos e todas aquelas decisões logísticas terríveis que nenhum jovem deveria ser obrigado a tomar sozinho enquanto ainda tenta digerir a própria destruição interna.

O campus universitário inteiro se comove de forma profunda com a tragédia.

— Afinal, meu pai era uma figura central e extremamente querida naquela comunidade acadêmica há mais de duas décadas, o que faz com que a sua ausência repentina não pertença unicamente a mim, mas deixe um vácuo coletivo.

— Organizam-se cultos ecumênicos, homenagens solenes nas escadarias, discursos emocionados de professores e alunos, coroas de flores espalhadas pelos portões e centenas de palavras bonitas sendo pronunciadas sobre a sua brilhante e impecável trajetória docente.

— Dezenas de pessoas me abraçam em fila, choram ao meu lado e fazem questão de relatar o quanto ele marcou positivamente suas formações acadêmicas e vidas pessoais.

— Também falam com imenso carinho de minha mãe, de sua energia contagiante, de sua presença marcante por onde passava e do exemplo admirável de casal que os dois sempre representaram para a comunidade.

— Escuto tudo em silêncio, agradeço com acenos mecânicos e gasto até a última gota da minha energia tentando me manter de pé e consciente durante os rituais.

Mas nenhuma palavra gentil ou discurso emocionado é capaz de substituir o som reconfortante dos passos do meu pai ecoando pelos corredores.

—'Nenhuma homenagem, por mais nobre que seja, consegue preencher minimamente o abismo doloroso deixado pelo sorriso radiante da minha mãe.

— E a minha vida, que eu julgava tão sólida e estruturada, começa a desmoronar em efeito dominó logo em seguida.

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