LOGINEntre encontros inesperados, uma amizade que aos poucos se transforma em algo mais profundo e uma identidade que Eric insiste em esconder, Liz começa a se apaixonar pelo homem simples que acredita trabalhar na fazenda. Para ela, pouco importa o que ele possui; importa a maneira como ele a trata, como a faz sorrir novamente e como, ao lado dele, a dor das perdas parece finalmente dar espaço à esperança. Mas nenhuma mentira permanece escondida para sempre. Quando Liz descobrir que o homem por quem se apaixonou não é um simples funcionário, mas o poderoso herdeiro da família Langford, a confiança entre os dois será colocada à prova. Eric terá de mostrar que, por trás do sobrenome bilionário, existe o mesmo homem que ela conheceu coberto de graxa, enquanto Liz precisará decidir se consegue perdoar aquele que conquistou seu coração antes de revelar quem realmente era. Porque Eric pode ser um CEO na cidade e um cowboy por escolha, mas foi diante de uma jovem que não sabia nada sobre sua fortuna que ele descobriu algo que dinheiro algum poderia comprar: alguém capaz de amar apenas o homem que existia por trás do império.
View MoreQUANDO TUDO RUIU
ELISABETH Sempre há algo reconfortante no som dos meus próprios passos ecoando pelas galerias e corredores de madeira da universidade. — Aquele leve e compassado ranger da madeira antiga sob as solas dos sapatos, o sussurro constante e ritmado das páginas sendo viradas na biblioteca central, as conversas discretas e inflamadas entre os alunos nos cantos das salas e, acima de tudo, a voz suave, serena e pausada de meu pai explicando aos estudantes atentos os arcos temáticos e a evolução do romance na literatura inglesa moderna. — Para mim, Elisabeth Anne Whitmore Carter, aquele espaço acadêmico é muito mais do que um simples campus universitário ou um conjunto de prédios históricos. —É, em essência, uma extensão vital e indissociável da minha própria casa, um universo inteiro ao qual sinto que pertenço desde as minhas lembranças mais remotas da infância. Sou a única filha do respeitado professor Jonathan Carter e cresço literalmente cercada por montanhas de livros, janelas altas de vitrais antiquados, cafés silenciosos que cheiram a canela e grãos moídos na hora, e profundos encontros acadêmicos que varam o fim da tarde. —Minha mãe, Helen, representa uma força completamente diferente daquele ambiente puramente contemplativo, teórico e calmo que meu pai tanto ama e defende. — Ela é uma presença vibrante, magnética, uma corretora imobiliária de renome na capital, amplamente conhecida por sua elegância despretensiosa, por sua energia inegável e pela maneira quase natural como encanta clientes difíceis e fecha contratos milionários. — Meus pais parecem, à primeira vista, pertencer a dois mundos radicalmente opostos e inconciliáveis, mas é justamente nessa disparidade que eles encontram a fórmula perfeita para se completarem com rara harmonia. — São profundamente admirados por toda a comunidade pela integridade inabalável, pela simplicidade genuína com que tratam a todos e pelo equilíbrio invejável com que construíram uma vida a dois ao longo de mais de duas décadas. — E eu gosto de acreditar, com um orgulho silencioso, que carrego um pouco da essência única de cada um deles dentro de mim. Conquisto, por absoluto mérito acadêmico e por minha dedicação incansável aos estudos, uma bolsa de estudos integral na mesma prestigiada instituição onde meu pai leciona há mais de vinte anos. — Tenho um orgulho imenso dessa conquista individual, principalmente porque nunca permiti que pairasse a menor dúvida de que eu estaria ali apenas por ser a filha de um professor extremamente respeitado e influente na hierarquia acadêmica. — Estudo até altas horas da noite, dedico-me a cada projeto com um perfeccionismo quase obsessivo e faço questão absoluta de provar a cada dia que mereço por mim mesma cada oportunidade que me é concedida. — No entanto, o que verdadeiramente me sustenta nos dias mais difíceis não é a bolsa de estudos, nem mesmo o prestígio da universidade. — É a presença protetora, o amor silencioso e constante dos meus pais, além da certeza extremamente confortável e calorosa de que pertenço àquele universo intelectual desde que me entendo por gente. Nos finais de semana, meu passatempo favorito é me perder voluntariamente entre os corredores labirínticos e as estantes infinitas da biblioteca central, quase sempre me acomodando no mesmo canto iluminado do mezanino onde, há décadas, minha mãe costumava esperar por meu pai com livros pesados no colo e olhos profundamente apaixonados. — Cresci ouvindo em detalhes a narrativa desse encontro de almas e nunca, por mais que a ouça, me canso de absorver cada pequeno detalhe. — Foi exatamente ali, sob a luz filtrada daquelas janelas altas, que os dois começaram a se conhecer de verdade, entre trocas de olhares, conversas sussurradas, livros emprestados e encontros casuais que muito rapidamente deixaram de ser meras coincidências do destino. —A história de amor deles começa fisicamente e espiritualmente naquele lugar e, de certo modo, sempre sinto que a minha própria história tem suas raízes firmadas naquela mesma madeira tratada e naquele mesmo aroma de papel antigo. Tenho muitos planos traçados com uma clareza quase desenhada na minha mente para o futuro próximo. — Quero cursar a faculdade de Letras, seguir com rigor a brilhante linha de pesquisa acadêmica de meu pai e, futuramente, buscar uma especialização e um doutorado em literatura comparada. — Sonho acordada com uma vida inteira cercada por páginas amareladas e mentes brilhantes, por conhecimento rigoroso, debates produtivos e descobertas literárias transformadoras. — Entre a preparação de um seminário e o estudo de um clássico, também alimento em segredo um desejo muito mais íntimo e guardado a sete chaves: encontrar alguém e vivenciar um amor que tenha a mesma solidez inabalável e, ao mesmo tempo, a mesma leveza encantadora que testemunho todos os dias no casamento dos meus pais. — Não procuro por perfeccionismo irreais ou contos de fadas modernos. — Crescer apenas acreditando com convicção que duas pessoas maduras podem, sim, escolher permanecer juntas, fiéis e genuinamente felizes ao longo dos anos. — Mas existem momentos sombrios em que o destino parece não se importar nem um pouco com a delicadeza dos nossos sonhos ou com a minuciosidade dos planos que levamos anos para elaborar.SALVATORE ABU — A VERDADE VEM À TONAAssim que David deixa meu escritório, concentro-me nas providências relacionadas ao adolescente. Trabalho há muitos anos com questões patrimoniais e familiares, mas sei que casos envolvendo crianças e adolescentes exigem cuidado especial. A vontade de ajudar, por mais sincera que seja, precisa caminhar ao lado dos procedimentos legais, principalmente quando existem denúncias de negligência e violência dentro do ambiente doméstico.Marcy retorna com as primeiras informações e confirma que os órgãos de proteção foram acionados. Os profissionais responsáveis iniciam a verificação dos dados fornecidos por Caio, inclusive seu histórico escolar e o endereço da mãe. O caso recebe atenção prioritária em razão da idade do adolescente e do período prolongado que afirma ter passado em situação de rua.Acompanho os encaminhamentos e me coloco à disposição para fornecer os documentos necessários. Também solicito que qualquer conversa com Caio seja conduzida de
DAVID — A JUSTIÇA PRECISA AGIRNa manhã seguinte, acordo cedo e encontro a cobertura mergulhada em um silêncio agradável. Durante alguns instantes, permaneço contemplando o teto, tentando organizar mentalmente todos os acontecimentos do dia anterior. A lembrança de Caio me faz levantar imediatamente. Antes de qualquer compromisso profissional, preciso garantir que o garoto esteja bem e que as providências necessárias sejam tomadas com a maior rapidez possível.Depois do café, converso com ele sobre a visita ao advogado. Explico que precisaremos apresentar sua história às autoridades competentes, inclusive os acontecimentos relacionados à mãe e ao padrasto. Caio demonstra preocupação, principalmente com a possibilidade de ser obrigado a retornar à antiga residência, mas procuro tranquilizá-lo sem prometer algo que não depende exclusivamente de mim.— Quero que você conte a verdade, Caio. Não precisa inventar nada nem esconder informações por medo de desagradar alguém. Existem profissio
DAVID — UM LAR PARA CAIODepois de recebermos as orientações iniciais e encaminharmos o caso aos responsáveis pela proteção de Caio, obtenho autorização para acolhê-lo provisoriamente enquanto sua situação é avaliada. Sei que essa medida não significa que eu tenha sua guarda definitiva, mas representa a possibilidade de oferecer um ambiente seguro até que as autoridades decidam os próximos passos.Retornamos ao condomínio, e Caio permanece silencioso durante quase todo o trajeto. Quando entramos no elevador panorâmico, ele observa a cidade através do vidro com uma expressão de surpresa que me faz sorrir discretamente.— O senhor mora aqui? — pergunta, olhando para o painel do elevador.— Estou começando a morar hoje. Meu filho me ofereceu uma cobertura, porque também estou passando por algumas mudanças importantes.Quando a porta se abre, Caio acompanha meus passos com cautela. Ao entrar no apartamento, seus olhos percorrem a sala ampla, os móveis elegantes e as grandes janelas que of
DAVID — O GAROTO DA ESQUINAPróximo a uma lixeira situada na esquina, vejo um adolescente remexendo alguns sacos de lixo. Seus movimentos são rápidos, quase furtivos, e percebo que observa os arredores constantemente, como se estivesse preocupado com a possibilidade de alguém repreendê-lo. As roupas largas e bastante gastas não parecem protegê-lo adequadamente do vento que começa a soprar, e sua aparência revela um cansaço incompatível com a pouca idade.Permaneço alguns segundos observando, tentando compreender o que procura. Quando o vejo examinar um resto de alimento, sinto um aperto no peito. A possibilidade de aquele garoto estar procurando comida no lixo, enquanto tantas pessoas passam pela rua sem sequer notá-lo, provoca em mim uma indignação silenciosa.Atravesso com cuidado e me aproximo sem movimentos bruscos, procurando não assustá-lo.— Ei, garoto. Boa tarde. Posso perguntar o que está procurando?Ele se vira imediatamente, assustado, e recua alguns passos. Seus olhos demo


















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