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Capítulo 2

Author: Katerina
Enquanto esvaziava o quarto, encontrei um cabo de carregador antigo atrás do criado-mudo. Seis meses antes, Adrian deixou o celular carregando exatamente naquele lugar. Foi a primeira vez que Mia se tornou motivo de uma briga séria entre nós.

Passava da uma da manhã. Adrian entrou no banho, e a tela do celular dele acendeu.

Mia.

[Boa noite, Adrian. Tenta dormir um pouco.]

Poucos minutos depois, ele saiu do banheiro, leu a mensagem e respondeu com a maior naturalidade, como se não houvesse nada de estranho.

[Boa noite, Mia. Você também.]

Olhei para ele.

— Vocês sempre trocam mensagens assim de madrugada? Dando boa-noite um ao outro à uma da manhã?

Adrian ergueu os olhos.

— Mia é minha assistente. Trabalhamos até tarde hoje.

— E depois que o trabalho termina, ela ainda precisa te lembrar de dormir?

A paciência desapareceu do rosto dele.

— Claire, é só uma mensagem.

— E se um homem me mandasse uma mensagem dessas à uma da manhã? Você acharia normal?

Naquela noite, tivemos nossa primeira briga séria por causa de Mia. Pedi que Adrian mantivesse limites profissionais com ela, mas sua única resposta foi:

— O que você devia se perguntar é por que uma simples mensagem de boa-noite te deixa tão irritada.

Na tarde seguinte, ele levou Mia a uma loja exclusiva de móveis no SoHo. Juntos, escolheram o sofá e a mesa de jantar do apartamento para onde deveríamos nos mudar depois do casamento.

Quando Adrian voltou para casa, perguntei por que levou Mia. Ele tirou o casaco antes de responder:

— Ela está ajudando com o apartamento novo.

— Ontem eu disse que a proximidade de vocês me incomoda.

— Então, só porque isso te incomoda, eu tenho que fazer tudo o que você quer?

Brigamos de novo. Depois disso, a história passou a se repetir de um jeito ou de outro.

Um dia, encontrei Mia ao lado da porta do passageiro do carro de Adrian, prestes a entrar. Parei ao lado do veículo e perguntei por que ela estava ali. Adrian me observou por alguns segundos, deu a volta no carro e abriu a porta do passageiro para ela.

— Entra.

Mia hesitou.

— Adrian, eu posso sentar atrás.

— Não.

Ele se inclinou, afivelou o cinto de segurança dela com as próprias mãos e olhou para mim por cima da porta aberta, como se esperasse para ver o que eu faria.

Naquele dia, perdi a paciência. Adrian permaneceu perfeitamente calmo.

— Claire, o fato de ela se sentar ao meu lado não significa nada.

— Mas você sabe que isso me importa.

— Então aprenda a não se importar.

Mais tarde, tive uma febre de quase 39,5 °C. Adrian prometeu ficar em casa comigo naquela noite, mas, de algum jeito, acabamos discutindo sobre Mia outra vez. No fim, ele ligou para ela bem na minha frente.

— Se arrume. Vamos para o Vale do Hudson.

A família Moretti tinha uma propriedade particular lá. Forcei-me a sentar na cama.

— Adrian, estou com febre.

— O remédio está no armário.

— Você precisa mesmo levá-la hoje à noite?

Ele já vestia o casaco.

— Eu poderia ter ficado. Foi você quem transformou isso em outra briga.

Então fechou a porta atrás de si.

Naquela noite, choveu forte em Nova York. Minha febre continuou subindo até que precisei chamar um carro e ir sozinha ao pronto-socorro. Enquanto uma enfermeira preparava meu acesso para o soro, peguei o celular e digitei:

[Estou me sentindo péssima.]

Antes que eu pudesse enviar a mensagem, vi a publicação mais recente de Mia. O fogo iluminava o terraço da propriedade no Vale do Hudson, e havia dois copos sobre a mesa.

[Noites tranquilas são as melhores.]

No canto da foto aparecia o relógio de Adrian, que eu reconheceria em qualquer lugar. Fiquei olhando para ele por um tempo. Depois, apaguei a mensagem que escrevi.

Após aquela noite, parei de perguntar. Se Adrian chegava tarde em casa, não perguntava por onde andou. Se Mia se sentava no carro dele, eu não discutia. Se ele cancelava nossos planos em cima da hora, respondia com uma única palavra:

— Certo.

Às vezes, Mia ligava depois da meia-noite, e Adrian saía para atender bem na minha frente. Eu apenas me virava para o outro lado e voltava a dormir.

Adrian estava satisfeito. Uma vez, até ouvi quando disse a Luca e aos outros:

— Ela anda muito melhor ultimamente. Antes questionava tudo. Agora finalmente entende que certas coisas não valem uma briga.

Todos achavam que agora era mais fácil me amar.

Baixei os olhos para o cabo de carregador na minha mão, enrolei-o e o joguei no saco de lixo. Antes, eu ficaria olhando para o celular de Adrian, esperando uma explicação. Agora, ele podia deixá-lo desbloqueado na minha frente que eu provavelmente nem me daria ao trabalho de olhar.

Era isso que ele queria. Para Adrian, meu silêncio era a prova de que eu enfim entendia.
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