Inicio / Romance / O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário / Capítulo 04: A Verdade Nua e Crua

Compartir

Capítulo 04: A Verdade Nua e Crua

last update Fecha de publicación: 2026-08-05 05:31:41

Os portões de ferro se fecharam atrás do carro com um baque surdo.

Aurora desceu do SUV e, por um instante, teve a sensação de ter pisado em outro planeta.

O mármore claro do pátio refletia sua imagem como um espelho molhado sob a iluminação dourada da fachada. À frente, a mansão Brahzão se erguia em vidro, pedra e excesso: colunas altas demais, janelas largas demais, luzes quentes demais. Tudo ali parecia ter sido construído para lembrar às pessoas comuns que elas jamais pertenceriam àquele mundo.

O cheiro de grama recém-cortada misturado ao perfume caro vindo do hall só deixava tudo ainda mais sufocante.

Mas nem todo aquele luxo era capaz de encobrir o abismo que se abria dentro dela.

Aurora tinha entrado na casa de um homem que a chamara de zé-ninguém.

Tinha aceitado um acordo com um herdeiro mentiroso.

E ainda não sabia qual das duas escolhas era mais perigosa.

Endrick seguiu à frente sem olhar para trás.

A postura permanecia ereta, elegante, quase intocável. Mas os ombros duros denunciavam o que o rosto tentava esconder: ele ainda estava funcionando no resto de adrenalina da fuga.

Assim que atravessaram o saguão principal, uma governanta e dois funcionários se aproximaram em silêncio.

Endrick nem diminuiu o passo.

— O que ela precisar, providenciem amanhã — disse, frio, fazendo um gesto curto com a mão. — E ninguém nos interrompe esta noite.

A governanta lançou um olhar rápido para Aurora — discreto, mas afiado o bastante para medir da barra do casaco gasto até os sapatos empoeirados — e assentiu.

Aurora sentiu.

Sentiu o julgamento.

Sentiu o deslocamento.

Sentiu, mais do que nunca, que tinha acabado de atravessar a porta de um lugar onde seria observada a cada passo.

Subiram a escadaria de madeira nobre, cruzaram um corredor longo demais, silencioso demais, caro demais, até que Endrick abriu a porta da suíte principal.

Aurora entrou.

E teve de lutar para não parar no meio do quarto como uma idiota.

O espaço era maior do que a casa inteira em que crescera. Havia uma cama enorme no centro, janelas altas, tapetes espessos, uma varanda privativa e móveis que provavelmente custavam mais do que tudo o que ela já possuíra na vida somado.

A porta se fechou atrás dela.

Endrick girou a chave duas vezes.

O clique ecoou pelo quarto.

Só então ele pareceu desabar um pouco. Encostou as costas na madeira maciça, passou a mão pelo rosto e soltou o ar devagar, como quem finalmente admitia que por pouco não tinha sido destruído naquela noite.

Aurora permaneceu no centro do quarto.

Os pés doíam dentro dos sapatos velhos. A roupa úmida parecia ainda mais pobre cercada por tanto luxo. Mas, quando ergueu os olhos para ele, o medo que sentira no beco já tinha dado lugar a outra coisa.

Lucidez.

Ela cruzou os braços.

— O seu beijo tem gosto de uísque.

Endrick ergueu a cabeça de imediato.

As mãos caíram do rosto. O cenho se fechou.

— O quê?

Aurora deu um passo na direção dele. Lento. Firme.

— E cigarro vagabundo — continuou, como se estivesse apenas expondo um fato. — Não combina com você.

O maxilar de Endrick travou.

— Você não sabe nada sobre mim.

— Não preciso saber. — A voz dela saiu baixa, limpa, precisa. — Eu conheço cheiro de mentira.

O silêncio no quarto se esticou.

Aurora sustentou o olhar dele sem piscar.

— Pela sua roupa, pelo seu perfume, pelo jeito como você se carrega... você não bebe esse tipo de uísque e não fuma esse tipo de cigarro. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Então aquele gosto não era seu. Era da boca de outra pessoa.

A expressão de Endrick endureceu por reflexo.

Mas ela já tinha avançado demais para parar.

— Você estava com alguém naquele camarote — Aurora cravou. — E não era uma mulher.

O ar do quarto pareceu sumir.

Por um segundo, Endrick não reagiu.

Nem negou.

Nem respirou direito.

Aurora viu a cor sair do rosto dele tão rápido que quase se assustou com a própria precisão. Era como se, com meia dúzia de frases, ela tivesse metido a mão no cofre mais secreto daquele homem e arrancado tudo de lá de dentro.

Ele se afastou da porta e foi até ela em passos rápidos.

Parou perto demais.

Tenso demais.

A respiração veio curta. Os olhos, porém, não mostravam raiva de verdade.

Mostravam medo.

— Se você repetir isso para alguém... — ele começou, a voz baixa e áspera.

— Eu não estou nem aí para quem você beija — Aurora cortou, sem recuar um centímetro. — Mas agora eu sei por que fui arrastada para esta casa.

Ele ficou em silêncio.

E foi esse silêncio que confirmou tudo.

Aurora apertou o próprio braço, como se precisasse conter a raiva para continuar pensando com clareza.

— Você não me ofereceu dois milhões porque precisava de uma esposa — disse ela. — Você me comprou como escudo. Como cortina de fumaça. Como prova viva de que não é o homem que o seu pai teria prazer em destruir.

A cada palavra, o rosto de Endrick perdia mais um pouco da máscara.

A soberba.

A pose.

O deboche.

Tudo foi caindo.

Sobrou apenas um homem encurralado.

Ele desviou o olhar por um instante, passou a língua pelos dentes, travou a mandíbula e então tornou a encará-la.

— É — admitiu, por fim.

A voz saiu baixa. Crua.

Sem enfeite. Sem defesa.

— É exatamente isso.

Aurora não disse nada.

Endrick soltou uma risada sem humor e passou a mão pela nuca.

— Se meu pai descobrir, ele me tira tudo. O dinheiro, o nome, a empresa, a casa... tudo. E não vai parar aí. — Seus olhos voltaram para os dela. — Você acha que aquele homem persegue alguém por ciúme de pai? Não. Ele destrói para dar exemplo.

A frase ficou entre os dois como uma lâmina.

Aurora olhou ao redor do quarto luxuoso, para a cama enorme, para os móveis impecáveis, para as cortinas pesadas, para cada detalhe daquela suíte que gritava privilégio.

Depois voltou os olhos para Endrick.

Foi assim que ela entendeu que riqueza não impedia ninguém de viver acorrentado.

— Eu entro no seu jogo pelos dois milhões — disse, por fim. — Mas, se vou mentir na frente de um homem como Orestes Brahzão, quero saber exatamente em que tipo de inferno estou pisando.

Endrick sustentou o olhar dela por alguns segundos e suspirou.

— Justo.

Aurora apontou para a cama.

— E eu quero outro quarto.

— Impossível.

A resposta veio rápida demais.

Ela estreitou os olhos.

— Não testa a minha paciência.

— E você não testa a inteligência do meu pai. — Endrick cruzou os braços. — Esta casa está cheia de empregados. Três deles passam tudo para ele. Se a esposa secreta que eu escondi por meses aparecer dormindo em outro quarto já na primeira noite, amanhã cedo a notícia chega antes mesmo de o jato pousar.

Aurora olhou para a cama outra vez.

Depois para o sofá enorme perto da janela.

O raciocínio era cruel.

E fazia sentido.

— Ótimo — ela disse. — Então eu fico. Mas com uma condição.

— Qual?

— Sem segredos entre nós sobre essa farsa.

Endrick soltou o ar pelo nariz, como se quisesse rir da ironia.

— Você chegou faz meia hora e já está exigindo transparência.

— Você me trouxe para dentro da sua mentira. A transparência não é luxo. É sobrevivência.

Ele a encarou.

E, contra a própria vontade, pareceu respeitá-la um pouco mais por isso.

— O que você quer saber?

Aurora não hesitou.

— O nome dele.

A pergunta bateu no quarto com uma intimidade inesperada.

Endrick piscou.

Foi um gesto mínimo, mas suficiente para denunciar que ela tinha acertado em cheio. Ele ficou imóvel por um instante, como se avaliasse se ainda valia a pena esconder aquilo de alguém que já tinha visto demais.

Não valia.

A máscara entre os dois havia caído no momento em que ela identificara o gosto de outra boca no beijo dele.

Seus ombros afrouxaram pela primeira vez desde o beco.

— Yann — respondeu.

E o nome mudou tudo.

Mudou o rosto.

Mudou a voz.

Mudou o homem.

A rigidez do herdeiro acuado cedeu espaço a algo mais quente, mais vivo, mais verdadeiro. Um quase sorriso puxou o canto da boca dele, involuntário, carregado de memória e perigo.

Aurora percebeu na mesma hora.

Era a primeira vez, desde que o conhecera, que Endrick parecia real.

— Yann... — repetiu ela, devagar, estudando o efeito daquele nome nele. — E o que esse Yann faz, além de quase te transformar em cinzas numa terça-feira à noite?

Desta vez, Endrick soltou uma risada curta. Cansada, mas sincera.

Atravessou o quarto em direção ao closet e puxou duas toalhas limpas.

— Ele me lembra que eu existo — respondeu, sem olhar para trás. — Antes das seis da manhã, quando meu pai acorda achando que pode contar o mundo inteiro como se tudo fosse dele.

Aurora ficou em silêncio.

Porque não havia sarcasmo naquela resposta.

Só verdade.

Endrick voltou, largou uma das toalhas sobre a poltrona e finalmente a encarou de novo.

— Toma um banho. — O tom já tinha recuperado parte da firmeza, mas não a máscara inteira. — Daqui a pouco a governanta vai subir com roupas para você, e amanhã cedo a casa toda vai querer conhecer a esposa secreta que caiu do céu.

Aurora pegou a toalha, mas não se moveu.

— E depois?

Endrick franziu a testa.

— Depois o quê?

— Depois que o seu pai voltar. Depois que essa mentira parar em pé. Depois que eu tiver decorado a sua vida e vestido a roupa certa e dito as palavras certas. — Ela apertou a toalha entre os dedos. — O que acontece com o Yann quando essa farsa terminar?

A pergunta pegou Endrick desprevenido.

Dessa vez, ele não respondeu.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário   Capítulo 30: Golpeando os Alvos

    Quase quarenta quilômetros separavam a mansão do terror da estrada onde um veículo tinha parado de existir como carro.Sob a chuva, o sedã de luxo estava tombado na ribanceira, de rodas para o alto, com a lataria aberta em vincos violentos e o motor soltando fios finos de fumaça que a água não apagava de todo. O asfalto acima permanecia vazio. Sem poste aceso. Sem tráfego constante. Sem testemunha.Dentro da cabine destruída, Vanessa ainda respirava.Pouco. Com dificuldade. Cada entrada de ar parecia raspar por dentro antes de alcançar os pulmões.O sangue escorria da testa e desaparecia pela lateral do rosto. Uma das pernas seguia presa entre ferragens dobradas. O ombro estava numa posição errada. A consciência ia e voltava em golpes curtos, sem estabilidade suficiente para mantê-la desperta por muito tempo.Ninguém na festa sentira falta dela. Ninguém no conglomerado ainda percebera sua ausência.Vanessa se quer chegou a participar da cerimonia inicial. Saiu de casa. Às p

  • O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário   Capítulo 29: Revelando os Estragos

    A porta blindada isolava tudo.Tiros. Gritos. Motores. Nada atravessava o aço.Dentro do bunker, o silêncio não trazia alívio. Só fazia o tempo pesar mais.Endrick permaneceu diante do painel, os olhos alternando entre os monitores e a estrutura técnica do sistema.— Se tentarem romper essa entrada com carga pesada, comprometem a estrutura acima. Quem planejou o ataque conhece a casa. Sabe que o bunker não foi feito para ser tomado por fora. Essa porta só abre se alguém daqui liberar.Orestes ouviu em silêncio.Ainda estava sentado, mas já não parecia um homem acostumado a ocupar a cabeceira de nada. As mãos continuavam manchadas com o sangue do irmão. Ele as olhava de vez em quando, como se não reconhecesse nem aquilo.Então ergueu o rosto para a tela morta do sistema de comunicação externa.— A transmissão caiu no momento certo.A voz ainda saía irregular, mas agora tentava recuperar encadeamento.— O apagão na área da mata interrompeu o sinal de fora. Os geradores da mansão su

  • O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário   Capítulo 28: A Porta Blindada

    A cozinha industrial da mansão já não parecia parte da festa.O inox refletia apenas luz de emergência. Panelas estavam no chão. Bandejas tombadas. Pratos quebrados. Cheiro de gordura, gás e comida esquecida no fogo.Garçons e cozinheiros se encolhiam atrás de bancadas e fogões industriais, sem saber se o pior vinha do salão ou dos jardins. Lá fora, as rajadas ainda cortavam a noite em intervalos irregulares. Cada sequência fazia a estrutura vibrar de leve.Yann entrou primeiro.Arma em punho. Passo baixo. Olhos correndo pela cozinha, pelas portas laterais, pelos acessos de serviço.Logo atrás vinha Endrick, quase arrastando Orestes. O pai já não mantinha a postura de minutos antes. O terno estava manchado. A respiração saía curta. Os pés falhavam nas mudanças de direção.Aurora fechava o grupo.A barra do vestido, pesada de sangue e sujeira, prendia seus movimentos. Ela segurou o tecido com uma mão, puxou para o lado e rasgou o que atrapalhava. Deixou a seda no chão e co

  • O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário   Capítulo 27: O Tiro à Mesa

    A mesa principal ocupava o centro do salão como um altar caro demais para admitir ruína.Mogno escuro. Prata polida. Cristal fino. Vinte e quatro lugares reservados para o núcleo do império Brahzão e para os nomes que orbitavam seu poder mais de perto.Ao redor, espalhadas pelo salão, as outras mesas acomodavam o restante dos convidados. Quinhentas pessoas. Risos contidos. Taças erguidas. Perfumes densos. Conversas feitas de favores, cálculo e aparência.Na cabeceira, Orestes.Postura intacta. Tom seguro. A presença de quem passara a vida inteira exigindo que o mundo se organizasse ao seu redor.À direita dele, Thenório já bebia como se a noite fosse dele. Cada dose parecia ampliar alguma coisa que nele nunca estivera realmente sob controle. A insolência. O prazer de ser temido. A convicção de que ninguém ali teria coragem de tocá-lo.Do outro lado da mesa, Endrick e Aurora mantinham a encenação.Os noivos. Os rostos da celebração. A imagem que a noite precisava.Mas, p

  • O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário   Capítulo 26: Ouro na Taça, Sangue na Sombra

    O salão principal da mansão Brahzão brilhava como se o excesso pudesse comprar inocência.Lustres de cristal desciam do teto em camadas de luz. O mármore claro refletia ouro, vidro e perfume caro. Garçons passavam em silêncio com bandejas de prata, taças altas e mãos treinadas para não tremer. Champanhe raro. Caviar. Carnes nobres. Louça importada. Uma fortuna servida em pequenas porções, como se luxo bastasse para disfarçar a podridão da mesa.Quinhentas pessoas ocupavam o salão.Juízes. Promotores. Delegados. Governadores. Prefeitos. Empresários. Mulheres cobertas de joias. Homens que sorriam enquanto negociavam proteção mútua com um toque no ombro e uma frase dita baixo demais para ser gravada.Naquela noite, o poder circulava de smoking.No centro de tudo, Orestes.Recebia cumprimentos com a segurança de quem construíra aquele império tijolo por tijolo e enterrara gente o bastante no caminho para não admitir fissuras diante de ninguém. Para as câmeras autorizadas, er

  • O Casamento Relâmpago do Filho do Bilionário   Capítulo 25: A Mesa Posta

    Os três dias seguintes passaram... Não por calma. Por pressão.A mansão virou vitrine. Costureiras. Maquiadores. Assessores. Cerimonialistas. Seguranças. Uma circulação incessante de gente treinada para construir beleza sobre o caos.Aurora e Endrick fizeram o que Orestes exigiu. Sorriram quando havia olhos sobre eles. Caminharam juntos pelos corredores da sede do conglomerado. Posaram para fotógrafos discretos. Assinaram papéis. Apareceram.O noivado repentino já corria nos bastidores do mercado. Havia analistas tentando vender aquilo como estabilidade. Colunistas chamando de romance improvável. Investidores fingindo acreditar.Na prática, o casamento servia para uma coisa só: abafar ruídos. Proteger o nome Brahzão. E impedir que qualquer escândalo ligado a Endrick ou Thenório atravessasse a superfície antes da hora.O prédio central do grupo ocupava os últimos andares de uma torre espelhada no centro financeiro. Se a mansão era o território de Orestes e a boate o

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status