LOGINO silêncio que se seguiu à palavra esposa pesou no beco como uma sentença.
Orestes Brahzão parou de vez.
As sobrancelhas grisalhas se contraíram num vinco duro de desprezo, e seus olhos desceram lentamente do rosto da garota para o rosto do filho. Sem o menor pudor, ele a examinou da cabeça aos pés, como se tentasse entender que tipo de absurdo estava sendo colocado diante dele. A jaqueta gasta. Os sapatos cobertos de poeira. O rosto cansado. A aparência de quem não pertencia àquele mundo nem por acidente.
Quando tornou a erguer os olhos para a garota, havia no seu semblante algo pior do que raiva.
Nojo.
— Esposa? — repetiu, soltando uma risada curta e seca, fria como metal. — Você está me chamando de idiota, Endrick? Quer mesmo que eu acredite que um Brahzão assinou casamento com... isso?
Aurora sentiu a humilhação gelar sua pele.
O braço de Endrick apertou seus ombros com mais força, mantendo-a presa junto ao seu corpo como se ela fosse parte daquela encenação doentia. Orestes tornou a fitá-la, agora com uma crueldade ainda mais direta.
— Onde está a aliança? — disparou. — Onde está a família dela? Quem são os pais? De que buraco você tirou essa zé-ninguém?
Aurora puxou o ar, ofendida e atordoada ao mesmo tempo.
Seu primeiro impulso foi se soltar. O segundo, gritar que não conhecia aquele homem, que aquilo era uma mentira absurda, que queria sair dali imediatamente. Mas bastou um olhar para os quatro seguranças espalhados pelo beco para o instinto de sobrevivência estrangular sua reação.
Ela não entendia o que estava acontecendo.
Mas entendia, perfeitamente, que aquele não era o tipo de homem que aceitava ser contrariado em público.
— Nós nos casamos em segredo há três dias — Endrick mentiu, sem vacilar. — Num cartório de uma comarca pequena. E eu escondi justamente porque sabia que o senhor faria isso.
A voz dele saiu firme, quase insolente.
Só quem estivesse colado ao seu corpo perceberia a tensão que o atravessava por inteiro.
— Faria o quê? — Orestes rebateu, com veneno.
— Exatamente isso. — Endrick sustentou o olhar do pai. — Olhar para ela e decidir que o valor de uma mulher está na roupa que veste, no sobrenome que carrega e na fortuna da família.
Orestes deu dois passos à frente.
Aurora sentiu o cheiro forte de charuto e perfume caro antes mesmo de conseguir pensar em recuar. O velho parou perto demais. Perto o bastante para que ela enxergasse, no fundo daqueles olhos, a violência polida de homens acostumados a comprar, esmagar e mandar.
— Se isso for uma encenação para esconder as tuas imundícies, garoto... — a voz dele baixou, ficando ainda mais ameaçadora — eu juro que acabo com a sua vida antes do amanhecer.
Então virou o rosto para Aurora.
— Fala você. Qual é o seu nome?
O mundo pareceu encolher.
Aurora abriu a boca, mas nenhum som saiu.
O medo travou sua garganta. Seu coração batia tão forte que ela podia jurar que todos naquele beco eram capazes de ouvi-lo. Se dissesse a verdade, pisaria numa armadilha. Se mentisse, talvez cavasse outra ainda pior.
Orestes estreitou os olhos.
Ele percebeu.
Endrick percebeu que ele percebeu.
E agiu antes que o silêncio destruísse tudo.
Num movimento brusco, girou Aurora de frente para si, segurou-a pelo queixo e tomou sua boca na dele.
O beijo não teve delicadeza.
Foi repentino, duro, desesperado.
Aurora arregalou os olhos no mesmo instante. O choque lhe subiu pelo corpo como uma descarga violenta. Ela empurrou o peito dele com as duas mãos, tentando se afastar, mas Endrick a manteve presa por segundos longos e calculados, transformando desespero em teatro diante do pai.
Quando finalmente a soltou, Aurora puxou o ar como se estivesse emergindo debaixo d’água.
— O nome dela não te interessa — Endrick disse, ainda segurando o rosto dela, os olhos cravados em Orestes. — E ela não tem que te provar nada no meio da rua.
A mandíbula de Orestes travou.
A dúvida não tinha ido embora. Mas a ousadia do filho abrira uma fissura na certeza dele.
E, por enquanto, isso bastava.
O velho ajeitou o punho do sobretudo com lentidão, como alguém controlando a própria vontade de matar.
— Tenho um voo logo cedo — disse, por fim. — Vamos para casa. Agora.
Apontou para Aurora como se a presença dela já fosse uma afronta pessoal.
— Quero essa garota sentada na minha frente, no escritório, com a certidão de casamento nas mãos e uma explicação completa antes de eu sair para o aeroporto.
Então olhou de novo para o filho, e o gelo na sua voz fez até o ar do beco parecer mais frio.
— Se você estiver mentindo, Endrick, eu acabo com a sua vida no mesmo segundo.
Sem esperar resposta, virou-se e caminhou em direção ao SUV preto parado na saída do corredor. Os seguranças o acompanharam de imediato, abrindo passagem ao redor dele como cães adestrados.
Aurora só esperou a sombra do magnata ser engolida ao entrar no carro.
Com toda a força que ainda tinha, empurrou Endrick no peito.
Ele recuou dois passos.
— Nunca mais encoste a boca em mim, seu desgraçado! — ela sibilou, a voz tremendo de raiva e humilhação. Limpou os lábios com a manga do casaco como se quisesse apagar qualquer vestígio daquele beijo. — Me devolve a minha bolsa. Eu vou embora daqui. Agora.
Endrick não respondeu de imediato.
Abaixou-se no asfalto úmido e apanhou a bolsa de pano caída no chão. Junto dela, recolheu também a folha dobrada que escapara durante a colisão.
Ao desamassar o papel sob a luz mortiça do poste, seus olhos bateram no cabeçalho em vermelho.
ORDEM DE DESPEJO IMEDIATO.
Logo abaixo, o nome:
Aurora Lemos.
Ele ergueu os olhos devagar.
Aurora estava diante dele com o queixo erguido por orgulho, mas era impossível não ver o resto: o rosto pálido demais, a roupa cansada, a fome escondida mal escondida, o desespero mal costurado nas bordas da dignidade.
Naquela fração de segundo, Endrick entendeu.
Ela não era apenas uma desconhecida.
Era uma mulher sem casa, sem proteção e sem saída.
— Você não vai para lugar nenhum — disse ele, por fim.
Aurora soltou uma risada seca, incrédula.
— Ah, não? E quem vai me impedir? Você?
— A realidade — ele cortou, aproximando-se um passo. — Você não tem dinheiro, não tem onde dormir e estava andando naquela direção com a cara de quem não pretendia ver o dia amanhecer.
Aurora ficou imóvel.
A frase bateu como um tapa.
— Cala a boca.
— Se você sumir agora, meu pai manda gente atrás de você antes do amanhecer. E quando te encontrarem, ele vai descobrir que eu menti. — Endrick ergueu o papel de despejo entre dois dedos. — Mas se entrar naquele carro comigo, for para a minha casa e sustentar essa mentira por algumas semanas... eu resolvo a sua vida.
Os olhos de Aurora faiscaram de revolta.
— Eu não estou à venda.
— Eu não disse que está. — A voz dele endureceu. — Disse que estou te fazendo uma proposta.
A chuva começou fina, quase tímida, mas em segundos já riscava o beco inteiro. Gotas frias pousaram sobre os cabelos de Aurora, escorreram por sua testa, pelo pescoço, pela gola gasta do casaco. Endrick continuou imóvel diante dela, a camisa cara colando no corpo, como se já tivesse decidido que não sairia dali sem uma resposta.
— De graça? — ela perguntou, odiando a si mesma no instante em que a palavra escapou.
Endrick não sorriu.
Não debochou.
Só respondeu com a precisão de quem sabia que, dali em diante, tudo teria preço.
— Não! Eu pago muito bem.
Aurora prendeu a respiração.
O mundo pareceu vacilar sob seus pés.
“Eu pago muito bem!”.
Uma frase suficiente para enterrar a fome, o despejo, o medo e cada humilhação que a vida tinha empilhado sobre sua cabeça até aquela noite. Seria dinheiro suficiente para recomeçar. Para existir sem pedir licença. Para nunca mais dobrar os joelhos diante de ninguém.
Mas o homem à sua frente não estava lhe oferecendo salvação.
Estava lhe oferecendo perigo vestido de luxo.
— Algumas semanas — Endrick continuou. — Você finge ser minha esposa. Mora na minha casa. Segue minhas regras. Convence meu pai. Quando ele baixar a guarda, eu transfiro cada centavo para a sua conta e você desaparece da minha vida para sempre.
Aurora encarou o carro preto parado na saída do beco, depois o papel de despejo nas mãos dele, depois a chuva engrossando ao redor dos dois.
Aquilo não era um convite.
Era um pacto.
E pactos assim sempre cobravam mais do que prometiam.
— Se eu aceitar — disse ela devagar, com a voz rouca — e você tentar me enganar, eu acabo com a sua raça, herdeiro.
Ele estendeu a mão para ela.
— Fechado?
Aurora não pegou na mão dele.
Ainda não.
Porque, no mesmo instante, o vidro escuro do SUV de Orestes começou a baixar outra vez.
E os dois entenderam que o velho magnata ainda estava olhando.
Quase quarenta quilômetros separavam a mansão do terror da estrada onde um veículo tinha parado de existir como carro.Sob a chuva, o sedã de luxo estava tombado na ribanceira, de rodas para o alto, com a lataria aberta em vincos violentos e o motor soltando fios finos de fumaça que a água não apagava de todo. O asfalto acima permanecia vazio. Sem poste aceso. Sem tráfego constante. Sem testemunha.Dentro da cabine destruída, Vanessa ainda respirava.Pouco. Com dificuldade. Cada entrada de ar parecia raspar por dentro antes de alcançar os pulmões.O sangue escorria da testa e desaparecia pela lateral do rosto. Uma das pernas seguia presa entre ferragens dobradas. O ombro estava numa posição errada. A consciência ia e voltava em golpes curtos, sem estabilidade suficiente para mantê-la desperta por muito tempo.Ninguém na festa sentira falta dela. Ninguém no conglomerado ainda percebera sua ausência.Vanessa se quer chegou a participar da cerimonia inicial. Saiu de casa. Às p
A porta blindada isolava tudo.Tiros. Gritos. Motores. Nada atravessava o aço.Dentro do bunker, o silêncio não trazia alívio. Só fazia o tempo pesar mais.Endrick permaneceu diante do painel, os olhos alternando entre os monitores e a estrutura técnica do sistema.— Se tentarem romper essa entrada com carga pesada, comprometem a estrutura acima. Quem planejou o ataque conhece a casa. Sabe que o bunker não foi feito para ser tomado por fora. Essa porta só abre se alguém daqui liberar.Orestes ouviu em silêncio.Ainda estava sentado, mas já não parecia um homem acostumado a ocupar a cabeceira de nada. As mãos continuavam manchadas com o sangue do irmão. Ele as olhava de vez em quando, como se não reconhecesse nem aquilo.Então ergueu o rosto para a tela morta do sistema de comunicação externa.— A transmissão caiu no momento certo.A voz ainda saía irregular, mas agora tentava recuperar encadeamento.— O apagão na área da mata interrompeu o sinal de fora. Os geradores da mansão su
A cozinha industrial da mansão já não parecia parte da festa.O inox refletia apenas luz de emergência. Panelas estavam no chão. Bandejas tombadas. Pratos quebrados. Cheiro de gordura, gás e comida esquecida no fogo.Garçons e cozinheiros se encolhiam atrás de bancadas e fogões industriais, sem saber se o pior vinha do salão ou dos jardins. Lá fora, as rajadas ainda cortavam a noite em intervalos irregulares. Cada sequência fazia a estrutura vibrar de leve.Yann entrou primeiro.Arma em punho. Passo baixo. Olhos correndo pela cozinha, pelas portas laterais, pelos acessos de serviço.Logo atrás vinha Endrick, quase arrastando Orestes. O pai já não mantinha a postura de minutos antes. O terno estava manchado. A respiração saía curta. Os pés falhavam nas mudanças de direção.Aurora fechava o grupo.A barra do vestido, pesada de sangue e sujeira, prendia seus movimentos. Ela segurou o tecido com uma mão, puxou para o lado e rasgou o que atrapalhava. Deixou a seda no chão e co
A mesa principal ocupava o centro do salão como um altar caro demais para admitir ruína.Mogno escuro. Prata polida. Cristal fino. Vinte e quatro lugares reservados para o núcleo do império Brahzão e para os nomes que orbitavam seu poder mais de perto.Ao redor, espalhadas pelo salão, as outras mesas acomodavam o restante dos convidados. Quinhentas pessoas. Risos contidos. Taças erguidas. Perfumes densos. Conversas feitas de favores, cálculo e aparência.Na cabeceira, Orestes.Postura intacta. Tom seguro. A presença de quem passara a vida inteira exigindo que o mundo se organizasse ao seu redor.À direita dele, Thenório já bebia como se a noite fosse dele. Cada dose parecia ampliar alguma coisa que nele nunca estivera realmente sob controle. A insolência. O prazer de ser temido. A convicção de que ninguém ali teria coragem de tocá-lo.Do outro lado da mesa, Endrick e Aurora mantinham a encenação.Os noivos. Os rostos da celebração. A imagem que a noite precisava.Mas, p
O salão principal da mansão Brahzão brilhava como se o excesso pudesse comprar inocência.Lustres de cristal desciam do teto em camadas de luz. O mármore claro refletia ouro, vidro e perfume caro. Garçons passavam em silêncio com bandejas de prata, taças altas e mãos treinadas para não tremer. Champanhe raro. Caviar. Carnes nobres. Louça importada. Uma fortuna servida em pequenas porções, como se luxo bastasse para disfarçar a podridão da mesa.Quinhentas pessoas ocupavam o salão.Juízes. Promotores. Delegados. Governadores. Prefeitos. Empresários. Mulheres cobertas de joias. Homens que sorriam enquanto negociavam proteção mútua com um toque no ombro e uma frase dita baixo demais para ser gravada.Naquela noite, o poder circulava de smoking.No centro de tudo, Orestes.Recebia cumprimentos com a segurança de quem construíra aquele império tijolo por tijolo e enterrara gente o bastante no caminho para não admitir fissuras diante de ninguém. Para as câmeras autorizadas, er
Os três dias seguintes passaram... Não por calma. Por pressão.A mansão virou vitrine. Costureiras. Maquiadores. Assessores. Cerimonialistas. Seguranças. Uma circulação incessante de gente treinada para construir beleza sobre o caos.Aurora e Endrick fizeram o que Orestes exigiu. Sorriram quando havia olhos sobre eles. Caminharam juntos pelos corredores da sede do conglomerado. Posaram para fotógrafos discretos. Assinaram papéis. Apareceram.O noivado repentino já corria nos bastidores do mercado. Havia analistas tentando vender aquilo como estabilidade. Colunistas chamando de romance improvável. Investidores fingindo acreditar.Na prática, o casamento servia para uma coisa só: abafar ruídos. Proteger o nome Brahzão. E impedir que qualquer escândalo ligado a Endrick ou Thenório atravessasse a superfície antes da hora.O prédio central do grupo ocupava os últimos andares de uma torre espelhada no centro financeiro. Se a mansão era o território de Orestes e a boate o







