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Capítulo 3: O Preço

last update Fecha de publicación: 2026-08-05 05:15:11

O SUV blindado cortava a estrada molhada como um predador em silêncio.

Do lado de fora, Porto Ilha Bela deslizava em manchas de luz, concreto e chuva. Do lado de dentro, o frio do ar-condicionado parecia ter sido ajustado para congelar qualquer reação humana. Ainda assim, o suor escorria devagar pela nuca de Endrick.

Não por calor.

Por sobrevivência.

No banco traseiro, ele mantinha a mão de Aurora presa à sua, os dedos fechados com firmeza demais para parecer carinho e sutis o bastante para sustentar a farsa diante do homem sentado no banco da frente.

Orestes Brahzão seguia imóvel no carona, rígido como uma sentença ainda não executada.

Aurora tentou puxar a mão uma vez.

Endrick apertou.

Ela tentou de novo.

Desta vez, ele nem precisou olhar diretamente para ela. Bastou o aviso duro que lançou de soslaio para deixar claro: se ela destruísse aquela encenação agora, os dois afundariam juntos.

O silêncio dentro do carro era tão pesado que o ronco baixo do motor parecia vir de muito longe.

Até que um toque cortante rasgou o ar.

Não vinha do celular corporativo de Orestes.

O magnata levou a mão ao bolso interno do sobretudo e tirou um aparelho antigo, discreto, sem identificação visível. Atendeu sem pressa, mas a tensão em seu maxilar se armou no mesmo instante.

— Fala.

A voz do outro lado era rápida demais para Aurora distinguir qualquer palavra. Mesmo assim, ela não precisou ouvir. Viu.

Viu pelo reflexo do retrovisor a cor fugir do rosto do velho.

Viu a mandíbula dele endurecer.

Viu alguma coisa mudar.

— Você tem certeza? — Orestes perguntou, mais baixo.

A resposta veio imediata.

E, seja lá o que fosse, era ruim.

Ruim o bastante para fazer até os seguranças da frente endireitarem a postura.

— Prepara o jato — ordenou Orestes. — Estou indo direto para o hangar. E liga o cancelador de sinal. Ninguém fica sabendo de nada.

Desligou sem se despedir.

Guardou o aparelho no bolso.

Só então virou o rosto para trás.

A desconfiança que queimava em seus olhos segundos antes continuava ali, mas agora dividia espaço com outra coisa — uma urgência perigosa, brutal, fora do controle.

— Minha viagem foi antecipada — anunciou.

Aurora sentiu os dedos de Endrick endurecerem em torno dos seus.

— Estou indo para o hangar agora. — Orestes não tirava os olhos do filho. — São três dias, Endrick. Três.

Levantou a mão e apontou o dedo grosso na direção dele.

— Quando eu voltar, quero a certidão original desse casamento na minha mesa. E quero tudo sobre essa garota. Nome, passado, documentos, família. Tudo.

Aurora gelou.

— Se houver um único carimbo falso... — a voz dele baixou, e ficou ainda mais assustadora — se eu descobrir que isso é mais uma encenação para encobrir as suas sujeiras, você sai da minha vida sem um centavo.

O motorista mudou de rota no primeiro retorno. O carro ganhou velocidade, cortando a avenida em direção ao aeroporto executivo.

Ninguém falou.

Ninguém respirou direito.

Quando chegaram à área restrita do hangar, Orestes não esperou nem o veículo parar completamente. Abriu a porta, desceu com a própria tempestade nos ombros e seguiu com a escolta principal em direção ao jatinho já aceso na pista.

A porta bateu com tanta força que a vibração correu pela lataria inteira do SUV.

Aurora só voltou a sentir o próprio corpo quando o carro arrancou outra vez.

Esperou dois segundos.

Então puxou a mão com violência.

Desta vez, conseguiu se soltar.

Afastou-se para o canto oposto do banco como se o simples toque de Endrick pudesse queimá-la e o encarou ofegante, os olhos brilhando de fúria.

— Manda parar esse carro. Agora.

Endrick soltou o ar devagar e afrouxou o nó da gravata, como se só naquele instante estivesse se permitindo lembrar que ainda estava vivo.

— Não.

A resposta saiu seca.

Aurora arregalou os olhos.

— Você é surdo? Eu falei para parar o carro!

— E eu falei não. — Ele virou o rosto para encará-la de vez. — Então faz um favor para nós dois e para de gritar.

— Para nós dois? — ela rebateu, incrédula. — Você me jogou no meio da sua mentira, me beijou à força, me arrastou para dentro desse carro de maluco e ainda quer que eu colabore?

Endrick enfiou a mão no bolso do paletó e tirou o papel amassado que havia recolhido no beco.

Sem dizer nada, jogou a folha sobre o banco de couro entre os dois.

Aurora reconheceu o documento na mesma hora.

Seu estômago virou.

— O seu nome é Aurora, não é? — ele perguntou.

Ela não respondeu.

Não precisava.

Aquela folha já tinha respondido por ela.

— Aurora Lemos — Endrick leu em voz baixa, sem tirar os olhos do papel. Depois levantou o olhar para o rosto dela. — Ordem de despejo imediato. Aluguel vencido. Sem prazo de negociação.

O silêncio de Aurora foi mais eloquente do que qualquer confissão.

Endrick recostou-se no banco, observando-a como quem termina de montar um quebra-cabeça.

— Você não estava passando por aquela rua à toa. — A voz dele perdeu o deboche e ganhou precisão. — Você estava no fim da linha.

— Cala a boca. — A reação dela veio instantânea, mas fraca demais.

— Estava, sim. E eu reconheço esse olhar.

Aurora sentiu o rosto arder.

Não pela mentira.

Pela humilhação de ser lida tão depressa.

— Meu pai me deu três dias — Endrick continuou. — Três dias para transformar essa farsa em algo que pareça real. Se eu falhar, perco tudo.

Ele se inclinou na direção dela, reduzindo o espaço entre os dois.

— E se você me ajudar... nunca mais vai saber o que é passar fome, contar moeda ou ser despejada como lixo.

Aurora riu sem humor.

— Ah, claro. E eu devo acreditar em você porque herdeiros desesperados costumam ser muito honestos.

— Não precisa acreditar em mim. — O tom dele endureceu. — Precisa acreditar no dinheiro.

Ela ficou em silêncio.

Endrick percebeu.

Atacou.

— Dois milhões de reais.

A frase caiu entre os dois como uma porta se abrindo para o pecado.

Aurora piscou.

Uma vez.

Depois outra.

— O quê?

— Dois milhões. — Ele sustentou cada sílaba. — Na sua conta. Limpos. Seus. No dia em que meu pai engolir essa história por completo.

Aurora sentiu o ar falhar.

Dois milhões.

Era tanto dinheiro que sua mente mal conseguia encaixar o número na realidade. Dinheiro para quitar dívidas que nem eram só dela. Dinheiro para nunca mais dormir com fome. Dinheiro para não depender da piedade de ninguém.

Dinheiro suficiente para mudar uma vida.

Ou destruí-la de vez.

— Tudo o que você precisa fazer — Endrick prosseguiu — é entrar naquela casa, vestir o que mandarem, agir como minha esposa e não abrir a boca além do necessário. Algumas semanas. Talvez menos, se meu pai se convencer rápido.

Aurora olhou para ele como se estivesse diante de um homem bonito demais para ser seguro e perigoso demais para ser recusado sem consequências.

— E se eu disser não?

Endrick não sorriu.

Não tentou seduzir.

Não amaciou a verdade.

— Aí você sai desse carro com uma ordem de despejo na bolsa, sem ter onde dormir, com os homens do meu pai sabendo exatamente como te encontrar.

Aquilo doeu porque era real.

Do lado de fora, a chuva engrossava contra os vidros escurecidos. O carro subia a colina arborizada em curvas suaves, deixando para trás o resto da cidade, como se a levasse para um mundo onde as regras comuns já não valessem.

Aurora apertou os dedos contra o próprio joelho.

Seu orgulho mandava mandá-lo para o inferno.

Sua fome mandava ouvir.

Seu medo mandava fugir.

Mas fugir para onde?

O SUV fez a última curva.

E então ela viu.

Os portões da mansão Brahzão surgiram no alto da colina como a entrada de outro universo. Ferro negro trabalhado. Colunas de pedra. Jardins iluminados. Água escorrendo em fontes douradas. Tudo grande, caro, intocável. Um mundo que não combinava com as suas roupas puídas, com os seus sapatos empoeirados, com a vida que tinha levado até ali.

Os portões começaram a se abrir devagar.

Como uma boca.

Aurora baixou os olhos para a ordem de despejo sobre o banco.

Depois para as próprias mãos ásperas, marcadas pela luta de sobreviver.

E por fim encarou o reflexo de si mesma no vidro escuro: molhada, cansada, encurralada.

Dois milhões.

Uma mentira.

Uma casa de gente poderosa.

Um homem que beijava como quem estava fugindo da própria ruína.

E um pai que claramente seria capaz de esmagá-la sem remorso se descobrisse a verdade.

— Se eu entrar aí — ela disse, sem olhar para Endrick — você não encosta em mim de novo sem a minha permissão.

Endrick virou o rosto.

— Feito.

— E se tentar me usar, me humilhar ou me passar para trás...

Agora ela olhou direto para ele.

Havia medo em seus olhos, sim.

Mas também havia faca.

— ...eu não espero o seu pai destruir você. Eu faço isso primeiro.

Por um segundo, Endrick apenas a encarou.

Então, muito devagar, assentiu.

Não como quem estava no controle.

Mas como quem finalmente entendia que a garota faminta que tirara do beco não era frágil coisa nenhuma.

O carro atravessou os portões.

Aurora sentiu o peito apertar.

Porque, no instante em que a mansão Brahzão se ergueu inteira diante dela, com todas as suas janelas acesas e seus segredos escondidos atrás do ouro e do mármore, ela entendeu uma coisa:

entrar seria fácil.

O difícil seria sair viva quando aquela família descobrisse que a esposa do herdeiro era uma mentira.

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