Mag-log inPonto de vista de Pamela
A cobertura de Lucas Alencar não era uma casa.
Era um mausoléu de vidro e arrogância.
Eu já tinha estado ali antes, nas raras vezes em que o "contrato" exigia que eu dormisse no território dele. Mas naquela época eu tinha meu próprio quarto, minhas próprias regras, e a liberdade de ir embora assim que o sol nascesse.
Agora não.
Agora eu estava ali com uma mala, uma pasta com a minuta do divórcio e uma lista de regras que os dois assinamos como se fosse um tratado de paz entre países inimigos.
O carro dele me buscou às nove da manhã, exatamente como ele tinha dito. Eu disse que não precisava de carro. Ele mandou mesmo assim. Pequena vitória para o diabo.
O porteiro da cobertura me reconheceu e abriu a porta com um sorriso amarelo. O elevador privativo subiu em silêncio. Eu apertei a alça da mala e respirei fundo.
Você consegue, Pamela.
Seis meses.
Cento e oitenta dias.
Depois disso, nunca mais.
A porta da cobertura já estava destrancada. Lucas não estava na sala. Claro. Ele provavelmente estava no escritório invisível dele, fazendo coisas de bilionário que eu não me importava em saber.
Eu mesma me dei o tour.
A sala era imensa, com paredes de vidro que davam para o parque. O sofá branco parecia nunca ter sido sentado. A mesa de jantar de mármore comportava doze lugares, mas eu aposto que ele comia sozinho na ilha da cozinha na maioria das noites.
A cozinha.
Parei em frente à ilha de granito preto. Fogão de seis bocas. Forno duplo. Geladeira do tamanho de um estúdio. Tudo impecável. Tudo vazio. Na geladeira, só água com gás e algumas maçãs verdes que já estavam murchando.
Que vida triste, Lucas.
Depois fui para o corredor dos quartos. O principal – dele – era no fundo, com uma cama king size, banheiro de mármore e uma sacada privativa. Eu não entrei. Não precisava. Eu conhecia aquele quarto melhor do que gostaria de admitir.
Sobravam dois quartos de hóspedes.
Um era grande, com cama de casal e vista para o leste. O outro era menor, com cama de solteiro e vista para um poço de ventilação.
Escolhi o maior.
Se eu ia ser prisioneira, pelo menos teria sol no rosto pela manhã.
Espalhei minhas coisas na cama. Meu pijama velho. Meu travesseiro de plumas. Meu abajur de cabeceira (porque as luzes dele eram todas brancas e geladas, do tipo que parece de hospital). Minha escova de dentes no banheiro privativo do quarto.
Pequenas posses.
Pequenas trincheiras.
Demarcar território era a única arma que eu tinha.
A primeira noite chegou devagar, como um condenado esperando a execução.
Lucas apareceu na hora do jantar – não para comer comigo, mas para pegar água na geladeira. Ele me viu sentada no sofá da sala com um prato de comida congelada no colo e não disse nada.
Apenas olhou.
Aqueles olhos cor de mel passaram por mim como se eu fosse uma peça de mobília que ele não pediu, mas que teve que aceitar.
— O micro-ondas é o segundo botão à esquerda — ele disse, com a maior secura do mundo. — O primeiro esquenta demais.
— Eu sei usar um micro-ondas, Lucas. Não sou uma analfabeta tecnológica.
— Foi só uma dica.
— Não pedi.
Ele fechou a porta da geladeira e sumiu no corredor.
Pequena vitória para mim.
Eu fui dormir às dez. Uma hora razoável. Humana. Deitei na cama grande do quarto de hóspedes, com meu travesseiro de plumas, meu abajur quente, e fechei os olhos imaginando que estava em qualquer outro lugar menos ali.
O silêncio era bom.
O colchão era macio.
Talvez eu conseguisse sobreviver.
Foi quando começou.
Primeiro foram os passos. Passos pesados, indo e vindo no corredor. Depois o barulho de uma cadeira sendo arrastada. Depois o click-clack do teclado de um computador, acelerado, frenético.
Eu olhei para o relógio.
Onze e meia da noite.
Lucas estava trabalhando.
No escritório dele. Que ficava do outro lado da parede do meu quarto.
Claro.
Porque o universo tem um senso de humor perverso.
Eu virei de lado. Coloquei o travesseiro sobre a cabeça. Tentei ignorar.
Meia-noite.
Uma da manhã.
Duas da manhã.
O teclado não parava. Pior: agora ele estava falando ao telefone. Em inglês. Com alguém de fuso horário europeu, pelo som das palavras truncadas e do sotaque britânico do outro lado da linha.
— The quarterly report needs to be revised. No, I don't care if it's Saturday. I want it on my desk by Monday.
Eu me sentei na cama. Os cabelos bagunçados. Os olhos ardendo de sono e raiva.
Ele não vai parar.
Ele nunca para.
Eu já sabia disso.
Mas saber e viver eram duas coisas diferentes.
Às três da manhã, eu desisti. Levantei, fui até a cozinha, tomei um copo de leite gelado e voltei para o quarto. O teclado ainda cantava sua canção infernal.
Adormeci por volta das quatro. Exausta. Derrotada.
E acordei às seis.
Com uma ideia.
Uma ideia terrível, maravilhosa e perversamente deliciosa.
Ponto de vista: PamelaTrês anos depois.O sol da tarde dourava as montanhas lá longe, pintando o céu de tons de laranja e rosa. O vento soprava macio, balançando as cortinas de voal da varanda, trazendo o cheiro de terra molhada e flores.O sítio do avô de Lucas estava irreconhecível.A casa velha tinha ganhado uma nova pintura — branca, com detalhes em azul marinho. O jardim, antes abandonado, agora era um mar de cores. Rosas vermelhas, amarelas, brancas, cor-de-rosa. Plantadas pelas nossas mãos. Regadas com paciência. Cuidadas com amor.E elas tinham florescido.— Mamãe! Mamãe! Olha o que eu achei!A voz infantil ecoou pelo jardim. Um menino de três anos, cabelos castanhos cacheados e olhos cor de mel — iguais aos do Lucas — corria na direção da varanda. Nas mãos pequenas, uma flor amarela murcha. Ele a ofereceu como se fosse um tesouro.— Para você — disse, o sorriso desdentado.— Obrigada, meu amor. — Me ajoelhei. Recebi a flor. Abracei ele com força. — É a flor mais linda do jar
Ponto de vista: PamelaDepois de tantos meses e tantas consultas, pela primeira vez, aquela maternidade não cheirava apenas a álcool, mas a esperança.Ou talvez fosse só o cheiro de sempre. Eu não sabia mais distinguir. Depois de tantas visitas, tantas consultas, tantos exames, o lugar tinha se tornado familiar. As paredes cor de rosa, as cadeiras de plástico branco, as revistas velhas na mesa de centro. As mulheres grávidas na sala de espera, as mãos nas barrigas, os sorrisos ansiosos.Eu nunca pertencia àquele lugar.Lucas estava ao meu lado dessa vez. A mão dele apertava a minha com força — não de nervosismo, de apoio. Ele tinha vindo a todas as consultas nos últimos meses. Não faltou uma. Nem quando o trabalho apertava. Nem quando a reunião era importante. Ele estava ali. Sempre.A médica, Dra. Lúcia, entrou na sala com uma pasta na mão.O rosto dela estava sério.Meu coração apertou.— Sra. Alencar. Sr. Alencar. — Ela sentou na cadeira em frente a nós. A pasta foi aberta. Os papé
Ponto de vista: LucasA ambulância cortava o trânsito como uma navalha.As sirenes berravam. As luzes vermelhas e azuis giravam, refletindo nos vidros dos prédios, nos rostos curiosos das pessoas nas calçadas. O paramédico trabalhava sem parar ao lado de Pamela — aferindo os sinais, ajustando o soro, comprimindo o ombro dela para estancar o sangue.Eu não tirava os olhos dela.Pálida. Tão pálida que os lábios estavam brancos. Os cabelos bagunçados espalhados na maca. A camiseta encharcada de sangue — o sangue dela, que não parava de escorrer mesmo com os curativos.— Ela vai ficar bem? — perguntei pela quinta vez.— Estamos fazendo o possível, sr. — O paramédico respondeu pela quinta vez. — O tiro acertou o ombro. Não pegou órgãos vitais. Mas ela perdeu muito sangue. Vai precisar de cirurgia.— Ela não pode morrer.— Vamos fazer de tudo para que não morra.Apertei a mão dela. A mão fria. Os dedos finos, trêmulos. Ela não respondia ao toque — estava apagada, os olhos fechados, a respir
Ponto de vista: LucasO tempo parou.Macedo ergueu a arma. O cano escuro apontou para o meu peito. Os olhos dele estavam vidrados, desesperados — um animal acuado que só sabia morder.— Você escolheu morrer — ele disse, o dedo no gatilho.Eu ia atirar primeiro.Já estava com o braço erguido, a mira na cabeça dele, o pensamento frio e calculado.Cabeça. Colete. Não erra. Um tiro só.Foi quando ela se moveu.Pamela.Amarrada. Amordaçada. Machucada. Exausta.Ela se jogou.Com um esforço sobre-humano, a cadeira rangendo, as cordas arranhando os pulsos, ela se lançou para a frente — para o lado — para dentro da linha de tiro.— NÃO! — gritei.O tiro veio.O estrondo ecoou pelo depósito como um trovão. Os pássaros lá fora voaram assustados. A luz fraca tremeu.E ela caiu.O sangue espirrou. Vermelho vivo. Brilhante. Quente.Pamela caiu no chão de terra batida como um boneco de pano. O ombro dela — o ombro direito — estava aberto, jorrando. Os olhos dela se arregalaram. A boca, mesmo com a f
Ponto de vista: LucasA arma estava apontada para o peito de Macedo.Mas eu não atirava.Não porque não quisesse. Não porque tivesse medo. Mas porque se eu atirasse e errasse, ele atiraria de volta. E se ele atirasse de volta, o tiro poderia acertar Pamela."Ele usa colete à prova de balas. Não atira no peito. Mira na cabeça."As palavras de Luciano ecoavam na minha mente. Colete. Ele usava colete. Se eu atirasse no peito, não morreria. E no tempo que eu levasse para mirar de novo, ele já teria atirado nela.Espera.Espera o momento certo.Macedo quer negociar. Ele sempre quer negociar. Use isso.— Você não tem coragem, Lucas. — Macedo repetiu, a arma ainda apontada para Pamela. O cano tremia levemente. Ele estava nervoso. Desesperado. Perigoso. — Eu conheço gente igual a você. Gente que nunca sujou as mãos. Gente que sempre teve empregados para fazer o trabalho sujo.— Você não me conhece. — Minha voz saiu calma. Mais calma do que eu me sentia. — Não sabe do que eu sou capaz.— Sei,
Ponto de vista: LucianoO escritório de arquitetura estava escuro quando entrei.A chave que Pamela tinha dado a Marcos — a chave reserva, guardada para emergências — girou na fechadura com um clique seco. A porta rangeu. O cheiro de café velho e papel impresso ainda pairava no ar, como se o dia tivesse terminado há minutos, não há horas.A luz do corredor iluminava parcialmente a sala. As plantas na estante. Os projetos na mesa. A xícara de café frio ao lado do computador.E Marina.Ela estava de costas para mim, curvada sobre a gaveta da mesa de Pamela. As mãos dela se moviam frenéticas, pegando papéis, rasgando, amassando, jogando no chão. O cabelo rosa estava bagunçado, preso num coque desfeito. A camiseta amassada. Ela tremia.— Marina. — Minha voz ecoou no silêncio.Ela congelou.Os ombros dela subiram e desceram com a respiração ofegante. Devagar, como se cada movimento doesse, ela virou o rosto.Os olhos dela estavam vermelhos, inchados de chorar. A maquiagem borrada. As olhei







