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Capítulo 9

Author: Nina Valença
last update publish date: 2026-02-17 06:45:02

Alice

Eu estava decidindo.

Essa constatação me atravessou como um choque elétrico. Durante dias eu me senti encurralada, pressionada pelo prazo, pelos cochichos, pela tensão silenciosa que pairava no morro. Mas ali, naquele instante, não havia ninguém me segurando pelo braço. Não havia ordem. Não havia ameaça.

Havia apenas ele… esperando.

O Coroa não era um homem acostumado a esperar. Eu sabia disso. Todo mundo sabia. Mesmo assim, ele ficou parado, me observando com aquele olhar que parecia pesar escolhas, medir consequências.

Eu passei a língua pelos lábios secos.

— Se eu for com você… — comecei, escolhendo cada palavra como se fosse frágil — não quero ser tratada como propriedade.

A mandíbula dele tensionou levemente, mas ele não desviou o olhar.

— Você nunca foi — respondeu firme. — E não vai ser.

Eu queria acreditar. Parte de mim acreditava. Outra parte gritava que aquele era um mundo onde as regras eram diferentes, onde promessas eram mantidas à base de poder.

— E a faculdade? — perguntei. — Meu trabalho?

— Você continua — ele disse, sem hesitar. — Eu não vou tirar isso de você. Pelo contrário.

Eu franzi a testa.

— Pelo contrário?

Ele respirou fundo, como se estivesse escolhendo revelar algo que normalmente manteria guardado.

— Eu não preciso de mais uma pessoa que dependa de mim por falta de opção. Se você estiver comigo, vai ser porque decidiu. E eu quero você forte.

A palavra ecoou dentro de mim.

Forte.

Eu sempre lutei para ser isso. Forte o suficiente para sobreviver à perda dos meus pais. Forte o suficiente para estudar enquanto o mundo ao redor desmoronava. Forte o suficiente para ignorar os julgamentos.

Mas agora eu estava diante de uma força diferente — uma força que não vinha de livros ou trabalho, mas de poder bruto.

— E o que você quer de mim, de verdade? — perguntei, finalmente.

O silêncio que se formou foi pesado.

Ele deu um passo à frente, mas ainda manteve distância respeitosa.

— Eu quero você perto — disse. — Quero confiar em alguém que não me olha só por medo ou interesse. Quero alguém que me diga a verdade olhando nos meus olhos.

Meu coração disparou.

— Isso não parece trabalho — murmurei.

Ele quase sorriu.

— Não é só.

A sinceridade na voz dele me desarmou mais do que qualquer aproximação física. Não havia jogo ali. Havia intenção.

Eu pensei na minha tia revirando minha mochila. Nos gritos. Na sensação de nunca pertencer àquela casa. Pensei nos cochichos do morro, na marca que já estava estampada no meu nome.

Se eu já estava sendo julgada como envolvida… o que exatamente eu estava tentando preservar?

— Se eu for — falei devagar — eu não vou abandonar quem eu sou.

Ele assentiu.

— Eu não quero que você abandone.

Meu peito apertou. Porque, no fundo, eu sabia que qualquer escolha mudaria algo em mim.

— E se eu disser não? — perguntei pela última vez.

Ele me olhou por longos segundos. Não havia ameaça explícita, mas também não havia ingenuidade.

— Eu vou respeitar — disse. — Mas o morro não esquece fácil. E eu não vou poder controlar tudo o tempo todo.

Era a verdade nua. Sem enfeite.

Eu respirei fundo.

Eu poderia voltar para casa e continuar lutando sozinha, sendo acusada, vigiada, diminuída.

Ou poderia aceitar a proteção de um homem que comandava aquele território — com todos os riscos que isso implicava.

Mas, pela primeira vez, não era o medo que estava guiando minha decisão.

Era algo mais complexo.

Eu dei um passo à frente.

— Eu vou — disse, sentindo a palavra se firmar dentro de mim. — Mas não como alguém que foi salva. Eu vou porque escolhi.

Os olhos dele suavizaram quase imperceptivelmente.

— Então é assim que vai ser.

Ele se virou e chamou alguém pelo rádio, dando ordens rápidas e precisas. Tudo se movia ao redor dele com eficiência. Era o mundo dele funcionando.

Mas quando voltou a olhar para mim, havia algo diferente ali. Não era o chefe. Era o homem.

— Você vai ficar numa casa minha, mais tranquila. Não é no meio do movimento. Vai ter espaço pra estudar. Pra respirar.

Eu engoli seco.

— E você?

Ele demorou um segundo.

— Eu vou continuar sendo quem eu sou. Mas você não vai estar sozinha.

A frase ficou suspensa entre nós.

Eu sabia que estava atravessando uma linha invisível. Sabia que, dali em diante, cada passo seria observado, comentado, interpretado.

Mas também sabia que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava escolhendo meu próprio risco.

Ele estendeu a mão.

Não era uma ordem. Era um convite.

Eu olhei para aquela mão — marcada, firme, acostumada a decidir destinos. E então coloquei a minha sobre a dele.

O toque foi diferente do beijo. Não havia impulso. Havia acordo.

E naquele instante, eu entendi que não estava entrando apenas no mundo do Coroa.

Eu estava entrando numa versão de mim que eu ainda não conhecia.

Uma versão que teria que aprender a caminhar ao lado do perigo…

sem deixar que ele a consumisse.

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