Se connecterAugust Ward precisa de uma esposa para continuar no comando de seu império. Elisa Willis precisa salvar a fazenda de sua família. Um casamento por contrato parece a solução perfeita até o desejo transformar um acordo frio em um jogo perigoso. Arrogante, controlador e acostumado a ter tudo aos seus pés, August estabelece uma única regra: dois anos de casamento, sem amor e sem promessas. Mas Elisa não é o tipo de mulher que se curva às suas ordens, e a atração entre eles ameaça destruir todas as barreiras que ele construiu. O que August não imagina é que sua esposa está prestes a despertar segredos capazes de destruir o legado dos Ward. Com inimigos tramando contra o casal e criminosos ameaçando tomar tudo o que Elisa ama, ele terá de decidir até onde está disposto a ir para protegê-la. Ele a escolheu por obrigação. Ela pode se tornar sua maior fraqueza ou a única mulher capaz de destruir seu império.
Voir plusElisa Willis
Meu corpo começa a sentir o cansaço do dia. Sem a mãe e o pai na fazenda, o dia fica muito mais longo do que parece. Não quero dizer que meu irmão não sabe liderar a fazenda da nossa família, mas aqueles dois dominam esse lugar como ninguém.
Estico a coluna, tenho que guardar tudo logo. Um banho e me deitar um pouco seriam ótimos. A voz da minha cunhada atravessa a cozinha antes mesmo que eu consiga terminar de guardar as últimas compras.
— Você adora gastar o pouco que temos, não é?
— Kelly…
— Estamos cada dia mais pobres, se não percebeu.
Paro com o pacote de arroz nas mãos, e esse é da melhor qualidade porque meu pai tem um amigo que faz altas importações e faz questão de nos dar um pouco desde que meu pai deu entrada no hospital.
— São mantimentos, Kelly.
— Eu sei o que são.
Se ela sabe, poderia poupar nosso tempo com essa conversa desnecessária. Coloco o pacote sobre a bancada e finalmente me viro.
Kelly está encostada na mesa, com os braços cruzados e aquela expressão que parece ter sido feita exclusivamente para me lembrar de que eu não sou bem-vinda naquela casa.
Mais uma vez sinto falta dos meus pais. Essa daí não consegue fugir do trabalho quando são eles no comando.
— Então não entendo qual é o problema.
— Esse é justamente o problema. — Ela solta uma risada curta. — Você nunca entende.
Meu irmão entra na cozinha nesse momento.
— O que está acontecendo?
— Pergunte à sua irmã.
Ele olha para mim, nitidamente cansado. Para Kleber, não está sendo fácil como diz. Ele sente falta do papai e as coisas têm ficado cada vez mais difíceis.
— O que você fez agora?
Engulo a resposta, dando um sorriso amargo. É sempre assim.
Desde que meu irmão se casou com Kelly, qualquer problema dentro daquela casa acaba chegando até mim. Se falta dinheiro, a culpa é minha. Se alguma conta está atrasada, alguém precisa lembrar que eu ainda moro ali. Se uma decisão precisa ser tomada, Kelly faz questão de deixar claro que eu não tenho mais direito de opinar.
Ela age como se fosse a dona da fazenda, mas esquece que minha mãe está viva e muito bem.
— Só fui ao mercado porque a despensa está vazia.
Ou eles esquecem que precisamos comer?
— E gastou quanto? — A pergunta de Kelly me faz apertar os lábios.
Ela é controladora de mais. Sei como anda a nossa situação financeira melhor do que qualquer um nessa casa. Sempre ajudei o pai nessas questões, tento fazer o que é possível com o pouco que temos.
— O necessário.
— Isso não é uma resposta, Elisa.
— Foi você que me deu o dinheiro, Kelly?
Ela fica em silêncio, os olhos nervosos para discutir comigo. Kelly só não faz o seu show porque seu marido está aqui. Meu irmão suspira.
— Chega.
— Não, não chega. — Kelly aproxima mais. — Nós estamos tentando salvar essa família, e ela continua agindo como se ainda tivéssemos dinheiro para desperdiçar.
A palavra "desperdiçar" fica presa na minha cabeça. Como se comprar comida fosse um luxo. Kelly tem o que na cabeça? O estresse anda sendo tão grande que está afetando todos de alguma forma, não é possível.
Eu nunca dei motivos para me odiar e ser o seu capacho não serei.
— Eu também moro aqui — respondo.
— Exatamente — diz, a contragosto.
Meu peito aperta. Não é preciso dizer mais. Kleber sequer faz questão de rebater a esposa dele, e é onde mais dói. Não é possível que ele pense o mesmo.
Faz um ano que a minha vida mudou: veio a chegada de Kelly e, um pouco depois, a saúde instável do meu pai piorou.
E, a partir daí, me tornei um peso.
— Então não se preocupe. Não vou gastar mais nada.
Pego minha bolsa em cima da cadeira. Estou cansada para qualquer coisa que venha deles, quero a minha vida de volta e, de preferência, sem Kelly nela. Meu irmão dá um passo na minha direção.
— Não foi isso que ela quis dizer, Lis.
Olho para ele. O apelido faz sentir um pouco do seu amor, mas não é suficiente para fazer as coisas ficarem bem.
— Foi exatamente isso que ela quis dizer.
Mais uma vez vem o seu silêncio. Talvez porque saiba que é verdade. Saio da cozinha antes que aquela conversa se transforme em algo pior.
Subo as escadas com pressa e entro no meu quarto. Fecho a porta. É sozinha que permito as lágrimas virem. Não vou permitir chorar na frente deles. Todo mundo parece estar sofrendo de um jeito, mas não tenho que ser o saco de bancada de ninguém.
Não vou chorar por causa de Kelly. Não por causa das dificuldades. E muito menos por causa de uma família que está desaparecendo aos poucos diante dos meus olhos.
Nossa família já teve tudo.
Dinheiro, terras, funcionários, uma casa cheia de gente e um sobrenome que fazia as pessoas nos tratarem com respeito.
Agora temos dívidas, uma fazenda que mal consegue se sustentar e uma família que parece estar sempre a uma discussão de distância de se destruir completamente.
E eu? Sou apenas mais uma coisa que precisam sustentar. Passo alguns minutos olhando pela janela, o incomodo começa a ficar grande, como se estivesse presa em uma jaula.
Preciso sair.
Preciso respirar.
Pego novamente a bolsa e desço.
— Onde você vai? — meu irmão pergunta quando me vê.
— À cidade.
Ele deixa o jornal de lado e levanta do sofá.
— Eu vou com você.
— Não precisa.
Kelly sai da cozinha.
— Melhor que vá com alguém.
Até parece que Kelly se importa. É nesses pequenos momentos em que consegue driblar o meu irmão e fingir que sua implicância comigo é só preocupação.
— Por quê? — finjo me importar com a resposta.
— Porque você parece estar com a cabeça em outro lugar. Não é bom andar por aí assim.
Solto uma risada sem humor.
— Sei me cuidar muito bem, Kelly. — Pego as chaves. — Preciso comprar algumas coisas que ficaram faltando.
Deixo claro que, sobre gastar o dinheiro que Kelly fez um show minutos atrás. Eles trocam olhares, é uma cena rápida, mas percebo. Meu irmão parece querer insistir, mas desiste.
— Não demore.
— Eu sei. — Saio antes que alguém possa dizer mais alguma coisa.
O ar do lado de fora parece diferente. Respiro profundamente. É muito melhor do que estar dentro daquela casa ouvindo alguém me lembrar de tudo o que perdemos.
Entro no carro antigo da família e sigo pela estrada. A cidade fica a quase meia hora dali. É pequena, mas é o único lugar onde consigo encontrar praticamente tudo de que precisamos.
No caminho, tento esquecer a discussão. Não consigo. As palavras de Kelly voltam repetidamente à minha cabeça. O problema maior é que não é de hoje, então tenho muito do que remoer, mesmo que só queira esquecer.
Kelly nunca diz diretamente, mas faz questão de que eu me sinta um peso. Quando chego à cidade, estaciono próximo ao mercado. Passo quase uma hora comprando os produtos de limpeza, tem uns que são muito específicos e tenho que comprar alguns medicamentos para meu pai.
Até mesmo o que não estava na lista acaba entrando no carrinho porque sei que, quando voltar para casa, alguém vai precisar. Conheço cada um e parece não fazerem questão de saber de mim.
Na saída, carrego duas sacolas pesadas em cada mão. Dou espaço para um apressadinho passar, a cidade está movimentada. Pessoas passam apressadas, carros atravessam a rua, comerciantes conversam nas portas das lojas.
Meu celular vibra, com dificuldade consigo pegar o aparelho no bolso. Olho para a tela. Uma mensagem do meu irmão.
Kleber: Quando vai voltar?
Fecho os olhos. Paz? Não tenho. Meu irmão parece se importar comigo quando sua mulher não está por perto. Guardo o celular sem responder. A última coisa que quero é voltar agora para casa.
Desvio o caminho para o carro e vou à pequena praça. Recebo uns olhares, mas são rápidos. Os fofoqueiros de plantão. Porém, faz tempo que ninguém se importa com a minha família. Toda a bondade que foi feita foi resumida a nada com a perda do nosso dinheiro.
Coloco as sacolas no banco e me sento. Há poucas crianças brincando, e observá-las é reconfortante. Talvez eu só precise de alguns minutos sem precisar explicar nada para ninguém.
Olho para o céu. Minha mente não silencia, vem meu pai à cabeça, desejando a sua melhora e, ao mesmo tempo, fazendo-a e às dívidas que a acompanham. Eu tentei opinar e ajudar, mas nunca me escutam.
O último investimento foi a gota d'água, levando-nos à falência. Na casa que um dia foi cheia de vida, hoje é o poço de tristeza.
E penso em mim. Não sei quanto tempo ficarei presa naquela vida. Sinto os segredos me rondando e sem força para desvendá-los. Toda vez que visito meu pai, ele diz que tudo vai se resolver e que esse dia está perto.
Para mim, ele está vivendo em delírio. Minha mãe nada diz e segue somente desejando a melhora dele.
Meu celular vibra novamente. Dessa vez, não olho. A única coisa que faço é verificar o tempo que infelizmente não está a meu favor, preciso voltar antes que escureça. As estradas não são boas e não quero correr o risco de o carro quebrar no caminho.
Pego as sacolas, dando um jeito de me equilibrar com todo esse peso. Deveria ter deixado no carro antes de vir para a praça. Começo a atravessar a rua, uma alça da bolsa se desprende.
— Ah, não... — no desespero, paro, tentando não deixar minhas compras caírem.
Então escuto uma buzina. Levanto a cabeça a tempo de ver o carro preto surgir na minha direção. Tudo acontece rápido demais. O motorista pisa no freio. O som dos pneus arrastando pelo asfalto me paralisa e as luzes do farol me cegam.
Recuo um passo, mas é tarde de mais. O impacto me atinge com força. As sacolas escapam das minhas mãos e o meu corpo perde o equilíbrio.
Por um instante, tudo gira. Sinto uma dor absurda no meu corpo. Então o chão desaparece. E a última coisa que vejo antes de fechar os olhos é a sombra de um homem descendo às pressas de um carro de luxo.
Elisa WillisO corpo dói de um jeito que nem o remédio consegue fazer seu devido efeito. Estou deitada de lado, olhando a parede descascada do meu quarto, quando a porta se abre. Eu só queria um tempo sozinha, mas estou em casa e é um sinal claro de que não vai acontecer.— Ainda deitada? — A voz de Kelly corta o silêncio. — Impressionante. Você consegue dar trabalho até quando está machucada.Respiro fundo, contando até três.— Bom dia para você também, Kelly.— Bom dia? — ela ri sem humor nenhum. — A gente mal tem dinheiro para comer direito e você ainda arruma jeito de ir para o hospital. Sabe quanto custa uma consulta, Elisa? Ou você acha que o mundo gira em torno das suas dores?Sento na cama com dificuldade. O curativo na testa puxa a pele, ainda bem que não foi sério. Não sou fã de hospital e saí antes que minha mãe desse conta de que eu estive lá, e não foi para ver o pai.— Eu fui atropelada.— E quem te mandou atravessar a rua que nem uma distraída? Agora a gente tem mais um
August WardO hotel é pequeno, antigo e cheira a mofo, nada comparado ao que estou acostumado. Ok, eu não esperava luxo, mas algo… decente. O quarto tem uma cama estreita de solteiro, uma televisão que não liga e uma janela que dá para uma rua quieta demais. A minha única alternativa seria dirigir de volta até a capital depois de um dia como esse, e eu não estava disposto.Durmo mal. Acordo pior e antes do sol nascer. O meu corpo dolorido e tenso do acidente, e a mente não para um segundo sequer. Fico deitado olhando o teto rachado até o celular vibrar.É o advogado.— August — a voz dele soa firme, quase impaciente. — Seu avô perguntou se o acordo já foi oficializado.Sento na beira da cama.— Ainda não.— Você tem menos de um mês — percebo o seu tom apreensivo. — Ele não está bem e cada dia conta.— Eu sei.— Então resolva e, de preferência, hoje. — suspira. — O senhor Willis está no hospital da cidade. Fale com ele diretamente. Não espere mais!Desligo sem responder. Odeio receber
August WardO médico me acompanha pelo corredor. Abre a porta e nos deixa sozinhos. A senhorita insuportável está sentada na cama. Um curativo cobre parte da sua testa. Saber que está respirando é o suficiente, não quero uma morte em minhas mãos.Ela ergue os olhos quando me vê.— Você de novo.— Também não estou feliz de te ver.Revira os olhos.— Pegou as minhas coisas? Ou vou ter que eu presto queixa? — ameaça.Eu estreito os olhos.— Só pretende prestar queixa se não tiver pego as suas coisas?— Sim. Graças a Deus, eu estou bem. Então me dê as minhas coisas e pode ir embora.Sento na cadeira no canto do quarto.— Bom, não está comigo.— Como assim, não?Ela olha para o celular do lado da cama, com certeza tentada a ligar para a polícia.— Mandei entregar na sua casa.— O quê?! Quem te contou onde eu moro? Ah, esquece! Essas pessoas são umas fofoqueiras.Ignoro o escândalo que ela está fazendo.— Será que agora eu posso saber o seu nome?Afrontosa, ela empina o queixo no ar.— Kell
August WardPor alguns segundos, não consigo me mover. A minha respiração é tão leve que é provável que eu não esteja respirando. Eu não tirei os olhos da estrada e, em um momento qualquer, ela surgiu. Apenas observo a mulher caída no meio da rua, enquanto o som do motor ainda ligado se mistura ao barulho da batida atrás de mim.— Senhor August! — A voz de um dos meus seguranças me faz reagir.Destravo o cinto e abro a porta do carro com pressa. O outro veículo para logo atrás, e os dois homens correm na direção da mulher. Eu me apresso para intervir, não sabemos o estado em que se encontra e pode piorar mais a situação.— Não mexam nela. — Ajoelho-me ao lado dela. — Senhora, consegue me ouvir?Nenhuma resposta vem dela. Sinto o sangue gelar. Não posso ter matado alguém.— Ligue para uma ambulância. Agora!— Já estou ligando, senhor.Aproximo a mão do rosto dela, sem saber exatamente o que estou procurando. Ela respira. Um alívio imediato percorre meu peito.É um bom sinal, penso.— E






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