INICIAR SESIÓNAlice
Uma semana se passou.
Sete dias desde que ele disse que não gostava de esperar.
O prazo estava acabando — eu sentia isso no ar. Não era algo dito em voz alta, mas no morro tudo tem prazo. Tudo tem consequência.
E eu sabia que o Coroa teria minha resposta.
Por bem… ou por mal.Eu tentava continuar minha rotina como se nada estivesse acontecendo. Faculdade de manhã. Trabalho à tarde. Casa no fim do dia. Mas em cada esquina havia um olhar diferente. Em cada beco, um sussurro.
— É ela.
— A que foi levada no galpão. — Dizem que tá envolvida… — Dizem que virou protegida.As palavras não eram ditas na minha cara, mas eram altas o suficiente para me alcançar.
Logo eu.
Que sempre fiz de tudo para não ser notada.Eu passava rápido, cabeça baixa, fingindo que não ouvia. Mas ouvia. Cada sílaba. Cada julgamento. Inventaram histórias que eu nem conseguia imaginar. Me colocaram em lugares onde eu nunca estive. Criaram versões minhas que eu não reconhecia.
O mais cruel não era a mentira.
Era a marca.
Ser associada ao nome dele mudava tudo. No morro, isso não é detalhe. É sentença social.
Até na faculdade eu sentia o peso. O celular vibrava mais do que o normal. Mensagens curiosas. Gente que nunca falou comigo querendo saber “se era verdade”. Eu ignorava.
Mas ignorar não apagava.
À noite, deitada na cama, eu encarava o teto e fazia a mesma pergunta:
Eu aceito… ou enfrento?
Se eu aceitasse, estaria entrando no mundo que sempre rejeitei.
Se eu recusasse, estaria desafiando o homem que não aceita ser desafiado.E, no fundo, havia uma terceira verdade que eu não conseguia calar:
Uma parte de mim queria estar perto dele.
Mas eu também sabia que o tabuleiro era dele.
Naquela noite, quando cheguei em casa, encontrei a tia Lenice vasculhando minha mochila.
— O que você pensa que tá fazendo?! — eu me exaltei.
— Tô vendo se você não tá envolvida com bandido! — tia Lenice respondeu.
Eu arranquei a mochila das mãos dela.
— Eu não devo nada pra você!
A discussão explodiu.
Eu sai de casa chorando, descendo o beco sem destino.
Quando me dei conta, estava no caminho do topo.
No galpão, o Coroa levantou o olhar a tempo de vê-la entrar com os olhos vermelhos.
— O que aconteceu? — ele perguntou, a voz mais firme do que brava.
— Nada —eu disse, tentando enxugar as lágrimas.
Ele se aproximou.
— Alice.
Ela respirou fundo.
— Eu não aguento mais aquela casa.
O Coroa cerrou a mandíbula.
— Você vai continuar lá ou quer sair? — ele perguntou.
Alice
— E ir pra onde?
Ele deu a resposta que mudaria tudo:
— Pra onde eu puder te proteger.
O silêncio que veio depois daquela frase pareceu mais pesado que qualquer grito que eu tinha ouvido em casa.
— Pra onde eu puder te proteger.
Meu coração bateu tão forte que eu tive medo de que ele escutasse.
Proteção.
A palavra soava diferente quando vinha dele. Não era frágil. Não era doce. Era firme. Era promessa — e promessa, no mundo do Coroa, era coisa séria.
Eu engoli seco.
— Você não entende… — murmurei. — Eu não quero depender de ninguém.
Ele deu mais um passo, mas não me tocou. Só ficou ali, perto o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele, mas longe o bastante para me deixar escolher.
— Isso não é dependência — ele disse, a voz controlada. — É escolha.
Eu ri, sem humor.
— No seu mundo, escolha existe mesmo?
Os olhos dele escureceram por um segundo. Não de raiva. De verdade.
— Eu tô te dando uma agora.
Aquilo me desmontou mais do que qualquer imposição teria desmontado.
Eu olhei ao redor do galpão. O lugar que antes tinha sido cenário de medo agora parecia… estável. Seguro de um jeito torto. Porque ali, ninguém ousaria encostar em mim sem passar por ele.
— Se eu for… — minha voz falhou — isso muda tudo.
— Já mudou — ele respondeu, direto.
O ar ficou preso no meu peito.
Eu sabia que, se saísse daquela casa, não haveria volta. O morro falaria ainda mais. As histórias cresceriam. Meu nome ficaria ligado ao dele de vez.
Mas também sabia que voltar para casa significava continuar sendo acusada, revistada, sufocada.
— Eu não quero ser sua obrigação — falei, finalmente encarando-o.
Ele sustentou meu olhar.
— Você não é obrigação.
O jeito que ele disse aquilo não tinha posse. Tinha decisão.
— Eu não vou te forçar, Alice. Mas se você atravessar essa porta comigo… ninguém mais vai te desrespeitar.
Meu coração tremeu.
Não era só sobre sair de casa.
Respirei fundo, sentindo o peso da escolha nos ombros.
— E se eu me arrepender?
Ele demorou um segundo antes de responder.
— Eu não costumo dar motivo pra arrependimento.
Meu estômago virou.
Eu sabia que aquela era a encruzilhada da minha vida.
Ficar e continuar sendo pequena dentro de uma casa que nunca foi minha.
Ou ir… e me tornar parte de algo muito maior — e muito mais perigoso.
Olhei para ele uma última vez.
E percebi que, pela primeira vez desde que tudo começou…
Eu estava decidindo.
CENA EXTRA — DEPOIS DO SILÊNCIOA casa estava em paz.Finalmente.Gael dormia no berço ao lado da cama.Respiração tranquila.Pequena.Perfeita.Alice saiu do banho devagar, ainda secando o cabelo com a toalha.Quando levantou o olhar…Ele já estava ali.Encostado na parede.Observando.Coroa.Silencioso.Como sempre fazia.Mas agora…Diferente.Mais calmo.Mais contido.E ainda assim…Intenso.— Você anda me olhando assim demais… — ela comentou.Ele não respondeu de imediato.Só empurrou o corpo da parede.Se aproximando.Passos lentos.Controlados.— E você anda fugindo demais.A voz baixa.Rouca.Alice arqueou a sobrancelha.— Fugindo?— De mim.Ela soltou um riso leve.— Tem um bebê na casa agora.Ele parou na frente dela.Perto.Muito perto.— Eu percebi.Silêncio.O tipo de silêncio que mudava o ar.Alice cruzou os braços.— Então se comporta.Um canto do lábio dele subiu.Perigoso.— Eu tô me comportando.Ela riu.— Isso aqui é você se comportando?— Você não imagina como eu po
Meses depois…O morro estava diferente.Mais organizado.Mais controlado.Menos caos.Mas ainda perigoso.Como sempre seria.—Alice estava sentada na varanda.O sol batendo leve no rosto.Mão na barriga.Pensativa.Respirando fundo.—Passos atrás.Ela nem precisou olhar.— Tá sumida. — Coroa disse.A voz baixa.Mais leve do que antes.Ela sorriu de canto.— Tô pensando.— Isso nunca é bom.Ela virou.— Cala a boca.Ele riu.Baixo.Sentou ao lado dela.— O que foi?Silêncio.Alice respirou fundo.Pegou a mão dele.E colocou na barriga.Ele franziu a testa.— Alice…Ela olhou nos olhos dele.E disse:— A gente vai ter um filho.O mundo parou.De verdade.Coroa ficou imóvel.Sem reação.Sem fala.Pela primeira vez.—— Você tá falando sério? — ele perguntou.A voz baixa.Quase… vulnerável.Ela sorriu.Os olhos brilhando.— Tô.Silêncio.E então…Algo raro.Único.Ele sorriu.De verdade.Puxou ela pra perto.Com cuidado.Como se ela fosse algo precioso demais.— Então agora eu tenho doi
A dor no ombro ainda pulsava.Mas Alice não estava pensando nisso.Estava olhando para o celular.A mensagem aberta.Um endereço.E uma frase:“Quer saber a verdade? Vem sozinha.”Ela já sabia de quem era.Isabella.Mas dessa vez…Tinha algo diferente.Algo pessoal.Muito pessoal.—O lugar era afastado.Uma casa antiga.Mal iluminada.Silenciosa.Alice entrou sem avisar ninguém.Errado.Perigoso.Mas necessário.—A porta rangeu.Ela entrou.O coração acelerado.E então—Parou.O mundo pareceu parar junto.— Tia…?Lenita.Parada no meio da sala.Fria.Sem surpresa.Sem carinho.Como sempre foi.Mas agora…Sem máscara.— Demorou, Alice.O sangue gelou.— O que você tá fazendo aqui?Uma risada veio do canto.O tio.Encostado na parede.— Finalmente você entendeu que nunca foi da família.O impacto foi brutal.— O quê…?Alice deu um passo pra trás.— Vocês…?Lenita cruzou os braços.— Você sempre foi um peso.Cada palavra…Uma facada.— A filha que ninguém quis.— A boca a mais.— O pro
O primeiro disparo cortou a noite.Seco.Preciso.Um dos homens ao lado de Alice caiu antes mesmo de entender o que aconteceu.E então…Caos.Tiros ecoando.Gritos.Passos correndo.Os homens de Coroa surgiram dos pontos cegos como sombras.Rápidos.Treinados.Letais.Alice não pensou.Agiu.Como ele ensinou.Puxou a arma.Apontou.Respirou.Um homem avançou nela.Ela atirou.O recuo do tiro subiu pelo braço.O homem caiu.O coração dela disparou.Mas ela não travou.Não dessa vez.— Isso… — Isabella murmurou, sorrindo mesmo no meio do caos — agora ficou interessante.Alice virou na direção dela.— Acabou pra você.Isabella inclinou a cabeça.— Tá só começando.E então—Um braço puxou Alice pela cintura.Forte.Rápido.Ela girou pronta pra reagir—— Sou eu.A voz dele.Baixa.Perigosa.Coroa.O corpo dela reagiu na hora.Mas não houve tempo.Ele já a puxava para trás de um carro.Se posicionando na frente.Protegendo.Atirando.Cada disparo dele era preciso.Controlado.Como se aquilo
A noite caiu pesada sobre o morro.Diferente das outras.Mais silenciosa.Como se até o ar soubesse que algo estava prestes a acontecer.Alice estava em pé diante do espelho.Roupa simples.Nada chamativo.Nada que gritasse perigo.Mas o olhar…Não era mais o de antes.Firme.Frio.Decidido.Atrás dela, na penumbra do quarto, Coroa observava.Em silêncio.Braços cruzados.A presença dele preenchendo tudo.— Ainda dá tempo de desistir. — ele disse.A voz baixa.Mas carregada.Alice não virou.— Não dá.— Eu paro tudo agora.— Eu não paro.Silêncio.Ele se aproximou.Passos lentos.Controlados.Parou atrás dela.Perto.Mas sem tocar.— Você não faz ideia do que ele pode fazer.— Você também não fazia ideia do que eu podia fazer… até agora.A resposta veio firme.Ele quase sorriu.Quase.Mas não.— Não confunde coragem com impulso.Alice finalmente virou.Ficando de frente pra ele.Muito perto.— E você não confunde controle com medo.Os olhos se prenderam.Desafio puro.Quente.Perigoso
O silêncio depois daquela frase foi pesado.Diferente.Não era mais só tensão.Era algo maior.Algo que ninguém ali sabia exatamente como enfrentar.Alice observava Coroa.O jeito que ele ficou parado.O olhar distante.Como se estivesse vendo algo que ninguém mais via.Memória.Passado.Erro.— Quem é ele? — ela perguntou.A voz saiu mais baixa do que queria.Coroa não respondeu na hora.Passou a mão pelo rosto.Respirou fundo.Mas não era nervosismo.Era cálculo.— Augusto. — ele disse por fim.O nome caiu seco.Pardal engoliu em seco.— Não pode ser o mesmo…— É. — Coroa cortou.Sem hesitar.Alice franziu a testa.— Quem é Augusto?Silêncio.Coroa olhou pra ela.E dessa vez…Não desviou.— O homem que me ensinou tudo.O mundo pareceu inclinar.— E o homem que tentou me matar.O ar ficou mais pesado.Alice sentiu um arrepio subir pela coluna.— Ele era… o quê? Seu chefe?— Meu superior. — Coroa respondeu. — Antes de eu subir… antes de eu virar quem eu sou.Pardal soltou um riso sem







